Evandro Gama
Procurador da Fazenda
Nacional
Especialista em
Administração Pública
O exemplo de Nelson
Mandela para o Amapá
Morreu o Nelson Mandela homem, porém
vive suas ideias e o seu exemplo. Faleceu no último dia 05 de dezembro, aos 95
anos, por doenças respiratórias adquiridas no período de 27 anos em que esteve
preso, em razão da sua luta contra o apartheid,
uma política de segregação racial e de organização territorial aplicada de
forma sistemática na África do Sul entre 1944 e 1990.
Na África do Sul, o apartheid teve como objetivo separar as raças no terreno jurídico (brancos,
asiáticos, mestiços e negros), estabelecendo uma hierarquia em que a raça
branca dominava o resto da população. No plano geográfico, o apartheid criou forçadamente territórios
reservados exclusivamente para os negros: os Bantustanes, territórios sem
qualquer infraestrutura e privados da cidadania sul africana.
Mandela recebeu centenas de prêmios - dentre eles o
Prêmio Nobel da Paz - pela sua luta pela democracia e pela igualdade entre
todos. Nunca respondeu o racismo com racismo ou com violência e desrespeito.
Ele sabia que é no reconhecimento do outro que está o cerne da democracia.
Lutou de forma pacífica pelo fim do apartheid e pela reconciliação de
brancos e negros na África do Sul. Sabia que o futuro de seu país dependia da
substituição da cultura da segregação racial e da violência pela cultura do
pluralismo de ideias, de religiões, ideologias, gêneros e convicções políticas,
em que prevalecesse em primeiro lugar o respeito ao ser humano, com suas
individualidades, virtudes e defeitos, independentemente da cor da sua pele.
Ele sabia
também que a verdadeira superação do apartheid
pressupunha a necessidade de cooperação entre os diferentes, entre brancos e
negros. Tinha a convicção de que a construção da África do Sul da igualdade e
da democracia só seria viável se os sul africanos - brancos e negros - respeitassem
suas diferenças, para, a partir delas, estabelecerem as parcerias necessárias à
reconstrução do país.
Ele não queria para o seu povo apenas a liberdade de
ir e vir, mas principalmente à liberdade de pensar e de se expressar de forma
independente e responsável, daí porque valorizava tanto a educação, a leitura. Queria
garantir esse direito sagrado a todos os homens e mulheres, crianças, jovens ou
idosos, de terem o direito de pensar livremente, de ter sonhos.
Por que
Nelson Mandela é um exemplo para o Amapá? Primeiro, pela sua história e pelo
seu exemplo de vida e de luta. Segundo, porque aqui também temos o nosso apartheid social.
Na área da
educação, do universo de 526.975 pessoas com 10 anos ou mais de idade no
Estado, 47,52% (250.433 pessoas) são sem instrução ou possuem o ensino
fundamental incompleto, 17,59% (92.701 pessoas) possuem o ensino fundamental
completo e o ensino médio incompleto e apenas 6,95% (36.636 pessoas) possuem o
ensino superior completo. No que diz respeito ao acesso à escola das crianças
de 0 a 3 anos de idade, do total de 56.328 crianças 50.325 não tinham acesso à
Educação Infantil em 2010 no Amapá. Neste mesmo ano, do total de 27.750
crianças com 4 ou 5 anos de idade apenas 18.519 tinham acesso à pré-escola
(IBGE/2010).
Como reflexo
do baixo nível de escolaridade e da falta de desenvolvimento econômico, 83,2%
da população do Estado do Amapá vivia em 2010 com até meio salário mínimo (R$
255,00), segundo dados do IBGE.
No quesito habitação e infraestrutura, temos no Amapá
108.086 pessoas vivendo em lugares inapropriados para residência, como as
nossas ressacas. A cada 10 domicílios nas cidades amapaenses
menos de 4 (36,8%) têm todas as características desejáveis: identificação do
logradouro, iluminação pública, pavimentação, calçada, meio-fio/guia, bueiro/boca
de lobo, rampa para cadeirante e arborização. Nacionalmente, a cada 10
domicílios, 6 (61,8%) apresentam as características citadas (Censo IBGE/2010).
Por outro lado, ainda vivemos
no Amapá como viviam as cidades da Europa no início da Revolução Industrial, no
século XVIII. A cada 3 domicílios 1 apresenta esgoto
a céu aberto e lixo acumulado. Na média nacional, menos de 1 domicílio a cada
10 apresentam esta condição.
Na prestação de serviços públicos nas áreas da saúde e da
educação, estamos entre os piores do Brasil. Melhor parar a lista por aqui.
O problema é que, ao contrário de Nelson Mandela, todos os
nossos governadores eleitos ajudaram a manter o nosso apartheid, praticando o narcisismo, alimentando a política do pão e
circo, cercando-se de bajuladores incompetentes, praticando o divisionismo e o
maniqueísmo dos "puros" e "impuros", fazendo a política da
raiva e do aniquilamento dos contrários.
Que Nelson Mandela ilumine o espírito dos nossos
governantes!

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