É UM ASSALTO!!!
Macapá experimenta violência sem controle
José Marques Jardim
Da Editoria
Como explicar a atual onda de violência que vivemos no Amapá? Apesar de números camuflados por uma gestão mentirosa que insiste em falar de investimentos e queda de percentuais, a população que vive a realidade do dia a dia, sujeita aos canos de pistolas e revólveres da bandidagem, sabe que o Estado é incapaz de lhe oferecer proteção.
Basta olhar para o número de registros noticiados todos os dias pelo telejornais, programas de rádio, jornais impressos e internet, este último se revelando como um dos veículos de comunicação mais velozes. Tem sido pela mídia, em todos os seus segmentos, que o cidadão tem tomado conhecimento do que na verdade vem acontecendo no Amapá quando o assunto é violência.
Do outro lado, o secretário de comunicação insiste em negar este avanço da bandidagem que tem deixado a população acuada. Ele já chegou ao ponto de dizer que desconhece a onda de assaltos na cidade e que a polícia está equipada o suficiente para defender os cidadãos.
A opinião de Marcos Roberto não é a mesma das dezenas de pessoas assaltadas todos os dias nas ruas, dentro de casa, estabelecimentos comerciais ou até mesmo em repartições públicas como foi o caso do Super Fácil que funciona no centro da cidade.
| Áreas de ressaca mostram crescimento desordenado da cidade. Violência aumentou depois das ocupações |
Há duas semanas, dois homens em uma moto entraram no loca, renderam o vigilante tomaram a arma dele para em seguida investir contra quem estava em uma agência bancária que fica dentro do prédio. Saíram com R$ 20 mil e até hoje não foram presos.
Na última segunda-feira (10), três homens chegaram ao Super Fácil do bairro Buritizal, que fica ao lado do Juizado Especial Sul. Renderam o vigilante e lhe tomaram o revólver. A ação deu errado por conta de um policial civil que estava no prédio e percebeu o que acontecia. Um bandido foi morto na troca de tiros e os outros dois fugiram com a arma.
Durante o fim de semana passado, o número de assaltos e tentativas foi surpreendente. Três homens foram presos com uma pistola de uso exclusivo da polícia quando estavam prestes a roubar uma olaria no bairro Zerão. O plano, de acordo com o Batalhão de Operações Especiais, foi bem montado. Um dos bandidos se fazia passar por moto taxista e chegava ao local a ser atacado perguntando preços. Na verdade, o objetivo era observar o funcionamento e quantas pessoas estavam lá dentro. O bando dispunha de uma caminhonete nova para fugir.
![]() |
| Uma das execuções ocorridas em Macapá recentemente |
No bairro Cabralzinho, uma professora foi vítima de outro grupo de bandidos na frente da casa onde mora. Ela foi ameaçada com uma faca e um revólver. O assalto foi impedido por um vizinho policial e um bandido acabou baleado no olho. O bairro tem uma estrutura onde era para funcionar uma unidade da Polícia Militar, mas o espaço foi desativado há anos. Segundo os moradores, a ação de bandidos seria inibida se o posto policial estivesse em funcionamento.
![]() |
| Super Fácil do centro da cidade assaltado há duas semanas. Bandidos levaram 20 mil reais e a arma do vigilante |
Ao que tudo indica, os bandidos parecem ter tido conhecimento das limitações da polícia e da falta de gestão pela qual o Estado passa. Mês passado, a morte do assaltante conhecido como "Macaco" movimentou as redes sociais. Conhecidos e comparsas do ladrão postaram várias mensagens lamentando o que chamaram de fatalidade ao mesmo tempo que ameaçaram de morte policiais e a população falando que dali em diante iriam "tocar o terror" na cidade.
A confiança na impunidade foi tanta que um grupo chegou a postar fotos exibindo revólveres. Um dos conhecidos de "Macaco" que disse estar preso discutiu e desafiou um policial para que ele fosse pega-lo dentro da cadeia.A polícia tentou inibir a invasão das redes indiciando os envolvidos por apologia ao crime.
A situação é tão crítica que nos meios de comunicação já existem mensagens à população repassando orientações de como se portar para não chamar a atenção da bandidagem e o que fazer caso perceba algum movimento estranho ao andar na rua. O curioso é que em nenhum momento, a mensagem orienta o cidadão a procurar a polícia.
Assustada com o que vem acontecendo, a população procura se defender, mas nem todos dispõem do capital necessário para proteger sua residência com cercas elétricas, muros altos, sistema de câmeras e alarmes. Até mesmo porque ao contrário do que se pensa, estes equipamentos não intimidam os ladrões.
Prova disso são os estabelecimentos comerciais que ultimamente têm sido alvo preferencial dos bandidos. Pelo menos quatro farmácias foram vítimas de roubo nas últimas semanas, apesar do circuito interno de tv. Ignorando as câmeras, os marginais chegam de "cara limpa", sacam armas e levam o que bem entendem revelando suas fisionomias paras as vítimas e para a polícia, que logo depois vai ter acesso às imagens. Farmácias e mercantis estão na mira. Os últimos, devido aos assaltos diários, os proprietários adotaram as grades de ferro na tentativa de reduzir as investidas dos ladrões. O resultado contrário é a queda do movimento. "Ninguém quer ficar do lado de fora pedindo para o atendente o que quer comprar", reclamam os comerciantes.
Qual a razão
Diante de um quadro tão complexo, o amapaense pergunta o que está acontecendo com a cidade e com o Estado que até pouco tempo era conhecido por sua tranquilidade. Muita gente relembra uma época em que se deixava as janelas abertas durante a noite e costumava ficar até tarde na calçada conversando em família ou com a vizinhança.
Hoje, o cidadão é obrigado a sentir dois medos, o de sair de casa e o de permanecer nela, o que nos leva a crer que não se está seguro em lugar algum. Grades e portas trancadas trazem à tona a certeza de que os bandidos dão as ordens soltos e o cidadão as obedece preso.
Dentro da ótica sociológica, o crescimento da cidade tem sua parcela de colaboração no caos urbano experimentado hoje por aquela que já foi chamada de a "cidade joia da Amazônia". No entanto, esse tempo já vai longe e a Macapá de hoje é um barril de pólvora caminhando para explodir.
De acordo com os sociólogos, tudo teria começado na década de 90, com o começo da Área de Livre Comércio de Macapá e Santana, que seria o El Dourado do Norte do País. O sonho do emprego farto e fácil atraiu milhares de pessoas que acabaram descobrindo que a realidade era outra bem diferente.
A cidade passou a experimentar o chamado "inchaço populacional". Rapidamente, áreas que até então estavam desabitadas passaram a ser ocupadas e começaram a surgir novos bairros modificando acentuadamente o desenho da cidade acostumada aos poucos que tinha.
Macapá passa a conhecer as palafitas em uma escala assustadora. Barracos construídos em áreas alagadas tendo pontes de madeira como acesso agora eram parte da paisagem. Uma cidade se espalha dentro de outra cidade no que pode ser denominado de favelas horizontais. É com elas, que a cidade passa a ter contato com problemas que até então não existiam, entre eles, o tráfico de drogas, mola mestra de outros tantos problemas sociais.
Assim como nas grandes cidades, entre os trabalhadores que moram nestes locais, também estão os bandidos, que usam o labirinto de pontes e vielas para se esconder e sobreviver com a venda de drogas, planejamento de assaltos, venda de armas e até prostituição. Macapá, definitivamente passa a ser outra com o crescimento desordenado.
A máquina do Estado não foi capaz de acompanhar a explosão demográfica que em menos de dez anos já trazia problemas de sobra e que se agravariam de uma gestão para a outra. O número de escolas públicas passou a não ser suficiente, assim também como o de hospitais.
De acordo com o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística, a população do Amapá ficou quatro vezes maior nos últimos 30 anos superando até mesmo o Rio Grande do Sul, na outra extremidade do País, praticamente estagnado em crescimento populacional. Outra informação do IBGE, é que os menores municípios perderam mais moradores enquanto que os maiores foram os que mais ganharam.O quadro tem Amapá, Roraima, Acre, Amazonas e Pará, como os Estados com maior expansão no número de habitantes.
Ainda de acordo com o instituto, responsável pelo Censo 2010, o Amapá é o Estado com maior crescimento populacional no período de uma década. O percentual foi de 40,18%, que corresponde a 477.032 habitantes, em 2000, para 668.689, em 2010. Roraima teve 39,10% e o Acre 31,44%.Para os técnicos do IBGE, a taxa de natalidade e índice de migração contribuíram para o crescimento. O Censo também apontou que 89,8% da população do Amapá vive na zona urbana e que a migração das zonas rurais aumentou ainda mais esse percentual.
O resultado é a falta de controle do Estado diante de uma situação que não foi planejada. Isso tudo piora quando não se admite que o problema existe e que ações de emergência poderiam ao menos amenizar o que está acontecendo.
O desinteresse ou interesse próprio parece prevalecer sobre as ações. Um dos exemplos foi o processo licitatório para a compra do helicóptero da Secretaria de Segurança barrado pelo Ministério Público Federal que bloqueou mais de R$ 6 milhões da conta da Secretaria de Estado da Justiça e Segurança Pública por suspeitas de fraude em licitação. Parte da verba, R$ 4,5 milhões, foi recebida por convênio com o Ministério da Justiça. A decisão liminar da Justiça Federal também suspendeu a licitação.
Análise de documentos enviados ao MPF/AP pela Associação dos Procuradores do Estado Amapá confirmou fortes suspeitas de fraude com direcionamento do certame e superfaturamento. Outro detalhe foi o pregão, que para a PGE, deveria ser eletrônico para garantir a participação de mais concorrentes e não presencial. A instituição também apontou falta de especificidade na descrição das características da aeronave pretendida e pesquisa de mercado insatisfatória. Enquanto isso, a população segue acuada e os bandidos de armas em punho.


Nenhum comentário:
Postar um comentário