Notícia da capital cearense
Fervilha Fortaleza. Dentre outras
reclamações, o descontentamento com o senhor prefeito parece ser geral. Sua
mais recente peripécia foi a ideia de derrubar aqui uma praça, que funciona
também como rotatória, e construir no lugar ruas mais amplas - prometendo um
complexo de convivência no meio.
Mas o que vem desagradando a população
é essa compulsão demolidora de seu representante. Porque a Praça Portugal tem
50 anos, já faz parte da história da cidade, e o prefeito, dentre outras
alegações, insiste em dizer que ela é muito recente, não tem nenhuma tradição e
nem representa o patrimônio arquitetônico de Fortaleza. Todavia, como alguma
alguma construção terá qualquer tradição por aqui se os políticos não sossegam
com suas obras faraônicas? Muitas vezes, no fim das contas, tudo o que resta
são imensos elefantes brancos... inacabados e inúteis.
A destruição da Praça Portugal, com
consequente extirpação da rotatória no vértice de duas importantíssimas e
movimentadas avenidas, parece ser projeto para melhoria do trânsito. Assim como
em outras capitais brasileiras, o trânsito em Fortaleza é problema
gigantesco.
Existem, pelo menos, três horários em
que não se pode circular pela cidade, porque não se conseguirá sair do lugar
(às oito da manhã, às quatro da tarde, às sete da noite...). Nessas ocasiões,
se você pretende cruzar a cidade, passando pelas avenidas principais e mais
movimentadas, prepare-se parar levar cerca de três horas em um trajeto
normalmente cumprido em quarenta minutos. Talvez a demolição de uma praça não
seja suficiente para dar conta do caos...
Esse mesmo trânsito empata a vida de
outras maneiras. Não diz respeito apenas ao atraso. Reflete-se na questão do
engarrafamento um precedente de descaso e ignorância, falta de planejamento e
reparos paliativos. Tempo desses, a ideia dos governantes aqui era construir um
viaduto. Mas os viadutos, ao contrário do que muitos pensam, não fazem os
engarrafamentos evaporarem magicamente... Muitas vezes são até desaconselhados
por engenheiros. Ademais, a obra seria erguida sobre o Parque do Cocó, o único
pedaço de mata intocada que restou no coração de uma cidade totalmente britada
e verticalizada. A ideia do viaduto parece esquecida - por ora.
Como sabemos, Fortaleza será uma das
sedes da Copa. E nessa onda de "tapar o sol com a peneira", o Brasil
decreta feriado em suas capitais nos dias de jogos. A lógica do sistema parece
totalmente corrompida por uma necessidade muito mais imediata de fazer o
"pão e circo" funcionar, nem que seja na marra.
Porque ao invés de termos um projeto de
organização de trânsito eficaz posto em prática há alguns anos, mesmo se só
tivesse surgido por causa do evento, ainda assim estaríamos hoje um pouco menos
desassossegados. Mas às autoridades parece muito mais fácil destruir praças,
derrubar árvores e decretar feriado nos dias de jogo, tudo isso na última hora,
para que o trânsito não mostre sua face medonha e impressione negativamente a
turistada.
Mas é claro que vamos impressionar com
o que temos de pior. Será inevitável. A desorganização, a falta de
infraestrutura, a miséria, os contrastes, a violência... Por falar nisso, houve
aqui, recentemente, o boato de que a polícia decretaria paralisação por um dia.
A população toda começou a expressar essas apavoradas manifestações de surto
coletivo.
Greve da polícia seria tipo um
apocalipse zumbi. Arrastão, tiroteio, invasão de casas, corpos decepados pelas
ruas... Parecia isso. Se a paralisação tivesse se confirmado, ninguém
teria saído, sequer aberto suas janelas. Houve lugares mesmo que não abriram as
portas nesse dia, ainda que a greve não tenha acontecido.
Enfim, esta Copa se aproxima e o mês de
junho promete, para além da distração e da festividade, um pouco mais de caos,
colisão e choque. Nesse clima, foram retomadas as manifestações... Aqui em
Fortaleza, no dia 13 de maio, houve grande protesto, e não demorou muito até
aparecer imprensa, batalhão de choque, helicóptero.
Embora a reivindicação em pauta seja,
sobretudo, a questão do passe-livre para os estudantes, o inconformismo tem a
ver também com todo o lixo, a degradação e o rastro de morte que a construção
de um evento como a Copa vai deixando para trás.
Sim, vai ter Copa. Mas a nossa vida, o
coletivo, os nossos direitos e as nossas responsabilidades, tudo isso prossegue
mesmo depois de a Copa acabar, e o mais triste é pensar que, com Copa ou sem
Copa, seremos vítimas e executores das mesmas ciladas urbanas. Parece que a
isso chamam "progresso".
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