sexta-feira, 23 de maio de 2014

ANTENADOS - BARBARA COSTA

Notícia da capital cearense

Fervilha Fortaleza. Dentre outras reclamações, o descontentamento com o senhor prefeito parece ser geral. Sua mais recente peripécia foi a ideia de derrubar aqui uma praça, que funciona também como rotatória, e construir no lugar ruas mais amplas - prometendo um complexo de convivência no meio. 
Mas o que vem desagradando a população é essa compulsão demolidora de seu representante. Porque a Praça Portugal tem 50 anos, já faz parte da história da cidade, e o prefeito, dentre outras alegações, insiste em dizer que ela é muito recente, não tem nenhuma tradição e nem representa o patrimônio arquitetônico de Fortaleza. Todavia, como alguma alguma construção terá qualquer tradição por aqui se os políticos não sossegam com suas obras faraônicas? Muitas vezes, no fim das contas, tudo o que resta são imensos elefantes brancos... inacabados e inúteis.
A destruição da Praça Portugal, com consequente extirpação da rotatória no vértice de duas importantíssimas e movimentadas avenidas, parece ser projeto para melhoria do trânsito. Assim como em outras capitais brasileiras, o trânsito em Fortaleza é problema gigantesco. 
Existem, pelo menos, três horários em que não se pode circular pela cidade, porque não se conseguirá sair do lugar (às oito da manhã, às quatro da tarde, às sete da noite...). Nessas ocasiões, se você pretende cruzar a cidade, passando pelas avenidas principais e mais movimentadas, prepare-se parar levar cerca de três horas em um trajeto normalmente cumprido em quarenta minutos. Talvez a demolição de uma praça não seja suficiente para dar conta do caos...
Esse mesmo trânsito empata a vida de outras maneiras. Não diz respeito apenas ao atraso. Reflete-se na questão do engarrafamento um precedente de descaso e ignorância, falta de planejamento e reparos paliativos. Tempo desses, a ideia dos governantes aqui era construir um viaduto. Mas os viadutos, ao contrário do que muitos pensam, não fazem os engarrafamentos evaporarem magicamente... Muitas vezes são até desaconselhados por engenheiros. Ademais, a obra seria erguida sobre o Parque do Cocó, o único pedaço de mata intocada que restou no coração de uma cidade totalmente britada e verticalizada. A ideia do viaduto parece esquecida - por ora.
Como sabemos, Fortaleza será uma das sedes da Copa. E nessa onda de "tapar o sol com a peneira", o Brasil decreta feriado em suas capitais nos dias de jogos. A lógica do sistema parece totalmente corrompida por uma necessidade muito mais imediata de fazer o "pão e circo" funcionar, nem que seja na marra. 
Porque ao invés de termos um projeto de organização de trânsito eficaz posto em prática há alguns anos, mesmo se só tivesse surgido por causa do evento, ainda assim estaríamos hoje um pouco menos desassossegados. Mas às autoridades parece muito mais fácil destruir praças, derrubar árvores e decretar feriado nos dias de jogo, tudo isso na última hora, para que o trânsito não mostre sua face medonha e impressione negativamente a turistada.
Mas é claro que vamos impressionar com o que temos de pior. Será inevitável. A desorganização, a falta de infraestrutura, a miséria, os contrastes, a violência... Por falar nisso, houve aqui, recentemente, o boato de que a polícia decretaria paralisação por um dia. A população toda começou a expressar essas apavoradas manifestações de surto coletivo. 
Greve da polícia seria tipo um apocalipse zumbi. Arrastão, tiroteio, invasão de casas, corpos decepados pelas ruas... Parecia isso. Se a paralisação tivesse se confirmado, ninguém teria saído, sequer aberto suas janelas. Houve lugares mesmo que não abriram as portas nesse dia, ainda que a greve não tenha acontecido.
Enfim, esta Copa se aproxima e o mês de junho promete, para além da distração e da festividade, um pouco mais de caos, colisão e choque. Nesse clima, foram retomadas as manifestações... Aqui em Fortaleza, no dia 13 de maio, houve grande protesto, e não demorou muito até aparecer imprensa, batalhão de choque, helicóptero. 
Embora a reivindicação em pauta seja, sobretudo, a questão do passe-livre para os estudantes, o inconformismo tem a ver também com todo o lixo, a degradação e o rastro de morte que a construção de um evento como a Copa vai deixando para trás. 
Sim, vai ter Copa. Mas a nossa vida, o coletivo, os nossos direitos e as nossas responsabilidades, tudo isso prossegue mesmo depois de a Copa acabar, e o mais triste é pensar que, com Copa ou sem Copa, seremos vítimas e executores das mesmas ciladas urbanas. Parece que a isso chamam "progresso".


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