sexta-feira, 16 de maio de 2014

artigo do tostes

RDC: " O Brasil nasceu de cabeça baixa e com receio da Coroa"
Autor: José Alberto Tostes

          Todos os dias presenciamos episódios lamentáveis em todo o Brasil, desmandos, quebra da ordem estabelecida, rede interminável de corrupção, recursos públicos mal aplicados, obras paralisadas, processos licitatórios comprometidos, esquemas para facilitar o desembolso de recursos, manipulação do orçamento público.O que será preciso acontecer ainda mais para que o Brasil se torne referência negativa em tantas coisas? É impressionante como ficou banal a divulgação de noticias ruins e que prejudicam o país.
         Um dos fatores mais divulgados nestes últimos dois anos tem sido os aspectos relativos aos desdobramentos em relação a Copa do Mundo, pouco se cumpriu em relação a tudo o que foi prometido em relação aos investimentos em mobilidade urbana, o que se viu, foi a concentração única na construção de estádios de futebol, fato, que desencadeou em junho do ano de 2013 manifestações em todo o território nacional.
         Sobre o “Regime Diferenciado de Contratação” – RDC, é mais um artifício utilizado apenas para legitimar, o que na prática já vem sendo realizado a partir da implementação do PAC. Este episódio mostra como a sociedade brasileira é frágil quando se trata de acompanhar em relação ao Congresso Nacional questões de interesse público. O que se observa nas últimas décadas, tem sido a "autonomia" de deputados e senadores em relação aos grupos, partidos e vínculos de acordo com os interesses do capital e das empresas que pagam e reivindicam os recursos investidos em eleições majoritárias.
         A cada artifício elaborado e aprovado, seja no Congresso Nacional ou nas Assembleias legislativas estaduais ou Câmaras de Vereadores, o que se percebe, é que são matérias aprovadas e pautadas nos interesses pessoais de acordo com o jogo de poder, pouco importa, se haverá prejuízos para algum setor, ou que a sociedade seja prejudicada, o que prevalece é  quem ganha mais. O RDC  retrata apenas a configuração de que a Nação, pouco fiscaliza a atuação de seus representantes, temas importantes acabam se restringindo somente ao período eleitoral.
         Não há dúvida de que a medida provisória 630/2013 extrapola, os limites de contratações de obras e serviços pelo poder público, porém, tão importante quanto a discussão desta medida provisória, está na tela de debate um universo de irregularidades relativas: processos licitatórios comprometidos, obras inacabadas e o eterno jeitinho sobre a questão dos "aditivos" de obras. Dados do próprio Tribunal de Contas da União, comprova, de cada 10 obras públicas produzidas no Brasil, pelo menos sete tem algum tipo de irregularidade.
         O importante neste debate é evidenciar a necessidade sobre o que fazer para o futuro, caso esta medida seja aprovada em definitivo? Quais as ações serão desencadeadas? A população em geral precisa conhecer o que é um projeto básico, o que é um projeto executivo? As questões de cada profissão, só irão ganhar força quando a própria sociedade tiver a compreensão sobre qual é o significado e as implicações sobre o RDC, caso contrário, os arquitetos e urbanistas irão somente constatar, o projeto é apenas um detalhe.
         Este episódio sobre a tramitação e possível aprovação do RDC, também coloca a ampla necessidade das entidades, instituições, empresas e setores vinculados ao desenvolvimento da Arquitetura e do Urbanismo no Brasil se aproximarem das grandes discussões nacionais. É preciso debater a cidade, discutir exaustivamente as políticas públicas integradas e integradoras, rever conceitos, e propor ações efetivas para a melhoria da qualidade de vida dos cidadãos brasileiros.
          A lógica que tem sido colocada em prática no Brasil, é que os representantes políticos representam apenas os interesses deles mesmos, porém, parte da população tem responsabilidade, por não exercer a função de acompanhar o mandato destes senhores. Os discursos realizados no plenário do Congresso Nacional, são artifícios preparados, arranjados, e muitas vezes alheios aos interesses nacionais, são formulas para atender as circunstâncias do momento.
           Aos arquitetos e urbanistas, é preciso pensar, qual o futuro iremos propor? Os profissionais precisam participar mais efetivamente da vida política nacional, valorizar o Conselho de Arquitetura e Urbanismo em cada uma das unidades federadas. É preciso discutir os grandes temas nacionais, inserir as universidades por todo o país, destacar na formação acadêmica, temas políticos que estão intimamente ligados a atuação dos arquitetos e urbanistas. O que está por detrás do jogo de poder? Não é mais possível que na grande parte das universidades brasileiras, esteja ocorrendo a formação de um profissional completamente alheio ao contexto político, econômico e sociocultural do Brasil.
         O RDC apenas define o que é a sociedade brasileira, como diz a professora Maricato: "é um Elefante com pernas de Garça", constatação do que é o Brasil na sua essência. É importante salientar, de norte a sul do país, milhares de irregularidades estão ocorrendo neste momento, obras mal feitas e irregulares, projetos mal elaborados e recursos jogados pelo ralo.
          Neste ano de eleições gerais em todo o Brasil, inclusive para o Conselho de Arquitetura e Urbanismo, é o grande momento para debater as causas estruturais da falência das cidades brasileiras, do fracasso de políticas clientelistas e completamente alheias aos interesses nacionais.  Os níveis de governança no Brasil atualmente é conduzido pela mídia, que age de acordo com os estímulos que movem a sociedade da espetacularização. Portanto, com aprovação ou não do RDC, este fato, deve possibilitar a todos, amplas reflexões  de que Arquitetura e Urbanismo que queremos ter no futuro?  Gilberto Freire define bem quando diz: " O Brasil nasceu de cabeça baixa e com receio da Coroa".
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