CÂNCER
NO AMAPÁ: Sentença de morte.
Reinaldo Coelho
Da Reportagem
Embora a chance de cura
do câncer de mama chegue a 95%, caso a detecção seja precoce, uma parcela das
mulheres brasileiras ainda vê a doença como incurável. Para 20% das mulheres, o
diagnóstico do câncer de mama é, praticamente, uma sentença de morte. Essa é
uma das conclusões de levantamento inédito feito pelo Data Popular para o
Instituto Avon. O instituto colheu as percepções sobre a doença de 1.752
pessoas em 50 cidades nas cinco regiões do País.
Palavras como medo,
pavor, morte e desespero são as primeiras a vir à mente das brasileiras quando
a doença é mencionada. E o pior de tudo é que o medo surge como um obstáculo
que as afasta do único exame que poderia garantir o diagnóstico precoce e um
tratamento bem-sucedido: 50% das mulheres opinam que o medo de descobrir a
doença faz com que muitas evitem fazer a mamografia.
Essa realidade acontece
no Amapá, porém com um agravante. A rede pública de saúde está um caos, mas o
Serviço de Oncologia é ainda pior: não consegue acompanhar e cumprir os
protocolos nacionais e internacionais, estabelecidos para o diagnostico e
tratamento da doença.Essa deficiência criou uma atmosfera de incerteza, pois a
cada novo caso diagnosticado as mulheres entram em desespero.
Mais uma vez preocupada
com a situação dos portadores de câncer no estado, a reportagem do Tribuna
Amapaense procurou um dos lutadores pela normalização do tratamento da doença
pelo poder público, Padre Paulo Roberto da Conceição Matias de Souza. Ele
relatou que diariamente o desespero toma conta dos voluntários que trabalham no
Instituto do Câncer Joel Magalhães (Ijoma), pela incapacidade de atender à demanda
crescente.
Vitima do descaso –
Nossa reportagem pediu
um caso para ilustrar os fatos. Assim, chegamos à casa da senhora Léa da Conceição
Pantoja dos Santos, 45 anos, portadora do Câncer de Mama em fase inicial.
De acordo com dona Léa,
seu calvário começou com um acidente domestico em janeiro de 2014, no qual fraturou
o fêmur direito. Procurou o Hospital de Emergência, onde foi encaminhada ao
Hospital da Clinicas Alberto Lima (HCAL). Lá, ela esperou vinte dias para ser
submetida à cirurgia.
“Fiquei de 19 de
fevereiro a 09 de março no Serviço de Traumato-Ortopedia. Neste período, fui
submetida a exames complementares, seguido de Tratamento Cirúrgico onde se
fixou a fratura patológica com haste de Kuntcher, de acordo com o Laudo Médico”,
contou.
Durante essa internação,
dona Léa da Conceição foi submetida a exames complementares e outra patologia
foi diagnosticada na mama direita, que poderia corresponder à lesão tumoral
ainda não classificada.
Os médicos ortopédicos
recomendaram avaliação por um oncologista, que posteriormente recomendou a realização
de uma Osteossíntese(biópsia) para, posteriormente, ser encaminhada ao novo
serviço que complementaria o diagnóstico e o tratamento.
Como é notório, o
serviço cirúrgico ortopédico da SESA está pior do que o caos que impera no
setor da saúde pública. A paciente desconfia de erro médico na cirurgia em seu fêmur,
que precisou ser corrigido com outra cirurgia.
Dona Léa afirma: “Vivia
curtida de dor, pois os pinos colocados na primeira cirurgia se deslocaram, o
que causou dores horríveis”. Numa sequencia impressionante de erros, numa
segunda cirurgia foram reimplantadosoutros pinos no fêmur em 02 de fevereiro.
Dona Léa suspeita, do mesmo modo com acontecera antes, os pinos se deslocaram
novamente, causando dores fortes.
Sentença: 90 dias de vida
Ao receber alta no dia
09 de março do Serviço de Traumatologia e Ortopedia, ela foi encaminhada ao Serviço
de Oncologia para começar o tratamento.Marcada a consulta, o medico não
compareceu. Dona Léa, porém, recebeu a comunicação de que ela deveria ir para
casa e, depois de marcar a consulta com o Ocologista, é que poderia ser
atendida.
“Na segunda consulta, o
medico me sentenciou a 90 dias de vida, se eu não realizasse o tratamento
imediatamente”.Isso no dia nove de abril, ou seja, já se vão trinta dias do
prazo sentenciado a Dona Léa da Conceição e ela continua em sua residência na
Avenida Ernesto Pereira Colares, 1868, Bairro Novo Buritizal.
À espera do tratamento,
agora as dores que castigam sua perna também atingiram seu seio, que sangra
muito. Mesmo enferma, ela conta que não tem nenhum remédio para aliviar as
dores e nem o tratamento quimioterápico foi iniciado.
“Minha filha foi ao
HCAL na manhã de 08 de maio, no setor de oncologia e, informada por uma
funcionária que não havia a Ciclofosfamida 1g. Então, foi orientada pela
servidora a se informar na Oncoclinica, em frente ao Hospital São Camilo, sobre
o valor do medicamente. Caso pudesse compra-lo iniciaria a quimioterapia”.
Ela procurou saber
quanto sairia o tratamento pago e o preço deprimiu a paciente: para a
quimioterapia (seio) e fisioterapia (perna), o valor mensal seria superior a R$
3 mil, sem falar nos diversos exames, cujo mais barato custa R$ 1.200 reais. Para
resumir o drama: afastada do seu trabalho, ela não tem dinheiro para custear nada.
Ao tomar conhecimento
de sua situação financeira, e devido à gravidade do caso, os médicos decidiram
iniciar as sessões de quimioterapia sem os exames. Mesmo assim, ela esbarrou
num outro problema: falta o remédio para a quimioterapia.
Infelizmente, até hoje
nada foi feito para, pelo menos, aliviar as dores da senhora Léa da Conceição,
porque o tratamento é uma vaga possibilidade. Com quatro filhos, dos quais dois
menores, ela sobrevive com um benefício que sua mãe, uma anciã de 75 anos, recebe.
O drama de dona Léa
aumenta porque ela não tem uma pessoa que se vire por ela. Devido à fratura do
fêmur, ela não pode andar.Vive no fundo de uma cama, aguardando cheia de
esperança o tratamento que vai lhe devolver uma vida normal, pois ela deseja terminar
de criar a sua filha caçula, de apenas 11 anos de idade.
Divida
trabalhista
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| São inúmeros os exames e receituários e Dona Leda não tem dinheiro |
Após trabalhar durante
seis anos para o dono da Rádio Cidade FM, Eraldo Trindade, que também é
defensor público, Dona Léa da Conceição aguarda que ele devolva a sua carteira
profissional, afim de que ela possa entrar no INSS com um pedido de auxilio
doença.
“Trabalhei como
auxiliar de serviços gerais na emissora de rádio. Ganhava um salário mínimo,
que era pagoaos pedaços e, mesmo assim, não daria para custear os exames que preciso
realizar”, relata,com os olhos cheio de lágrimas um monte de papel.
Lista dos remédios que
faltam para o tratamento contra o câncer na UNACOM
CAPECITABINA; CICLOFOSFAMIDA
200mg; CICLOFOSFAMIDA 1g
CIPROTERONA
DOXORRUBICINA
FLUTAMIDA
METOMICINA C
PAMIDRONATODISSÓDICO
RITUXIMABE
MORFINA 10mg
MORFINA 30mg
ÁGUA DESTILADA AMP500ml
AMINOFILINA
BICARBONATO DE SÓDIO
8,4% amamp10ml
BICARBONATO DE SÓDIO
10% amp10ml
CLORETO DE SÓDIO
ESCOPOLAMINA+ DIPIRONA
GLICERINA
MANITOL
VERAPAMIL
VITAMINAS COMPLEXO B
VITAMINA C
Manifestação
Dona Léa Pantoja,
enquadra-se na lei 12.732, sancionada pela presidenta Dilma no dia 23/05/2013,
que obriga o Estado, através do Sistema Único de Saúde (SUS), a iniciar o
tratamento até 60 dias após o diagnóstico. O laudo comprova que a paciente
aguarda desde fevereiro o início do tratamento.
O prazo começa a ser
contado a partir do dia em que for definido o diagnóstico de neoplasia maligna,
com laudo patológico. A determinação vale tanto para pacientes que necessitem
de sessões de quimioterapia ou de radioterapia, quanto para pacientes que
precisem de intervenção cirúrgica. Doentes em situações mais graves ou dolorosas
devem ter prioridade no atendimento.
Segundo o presidente do
Ijoma, padre Paulo Roberto, no dia 23 de maio o Brasil vai lembrar o primeiro
ano da homologação da Lei 12.732.
A medida foi proposta
em 1997, pelo então senador Osmar Dias (PLS 32/1997). Sancionada pela
presidente Dilma Rousseff em novembro do ano passado, transformou-se na Lei
12.732/2012, com entrada em vigor dia 23/05/2013.
Relatora da matéria
durante sua tramitação no Senado, a senadora Ana Amélia (PP-RS) comemorou a
aplicação da lei. Ana Amélia informou que, depois das doenças cardiovasculares,
o câncer é a segunda maior causa de morte no país – foram 179 mil mortes em
2012. Entre as mulheres, o câncer de mama é o que mais mata. Já entre os
homens, o de próstata é o mais letal.
– Esta é uma lei de
enorme alcance social. Quanto mais cedo ocorrer o início do tratamento, maiores
são as chances de sobrevivência do paciente – afirmou.
De acordo com a lei, o
paciente com câncer receberá gratuitamente, no SUS, todos os tratamentos
necessários. O texto estabelece também a revisão e atualização da padronização
de terapias do câncer, cirúrgicas e clínicas, para que possam se adequar e
incorporar novos tratamentos.
Segundo o presidente do
Ijoma, padre Paulo Roberto, no dia 23 de maio o Brasil vai lembrar o primeiro
ano da homologação da Lei 12.732. “Infelizmente no Amapá a lei 12.732 não saiu
do papel”, enfatiza.
Ele acrescenta que “o
tratamento de câncer no Amapá é um engodo e falta compromisso social. Não
existe nenhuma possibilidade de um tratamento alcançar sucesso da forma como as
coisas funcionam no Amapá”.
Padre Paulo Roberto
explica que “o Ministério da Saúde preconiza que o tratamento do câncer exige
que haja uma Redede Oncologia em nível de Estado, em que todos os municípios
estejam pactuados”.
O presidente do Ijoma
destaca que “no Amapá nenhum município está preparado para assumir a sua parte.
E ainda fala-se em educação e prevenção, mas o Estado não está preparado para
fazer o diagnóstico precoce”.
Entre as deficiências,
não há sequer um laboratório público que dê suporte a UNACOM quando da
necessidade de realizar exames para que os médicos possam dar início ao
tratamento.
“Nessas circunstâncias,
70% dos doentes já chegam em estágio avançado da doença. A maioria tem que
esperar até um ano para iniciar o tratamento. Muitos morrem sem pelo menos
iniciar”, disse o Padre Paulo Roberto.
Diante dos fatos
narrados o IJOMA organiza para o dia 23 de maio uma grande manifestação para
denunciar o descaso do poder público, que não levou a sério a Lei 12.732. A
concentração vai acontecer a partir das 16h, na Praça da Bandeira.







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