sexta-feira, 16 de maio de 2014

CÂNCER NO AMAPÁ: Sentença de morte.

Reinaldo Coelho
Da Reportagem

Embora a chance de cura do câncer de mama chegue a 95%, caso a detecção seja precoce, uma parcela das mulheres brasileiras ainda vê a doença como incurável. Para 20% das mulheres, o diagnóstico do câncer de mama é, praticamente, uma sentença de morte. Essa é uma das conclusões de levantamento inédito feito pelo Data Popular para o Instituto Avon. O instituto colheu as percepções sobre a doença de 1.752 pessoas em 50 cidades nas cinco regiões do País.
Palavras como medo, pavor, morte e desespero são as primeiras a vir à mente das brasileiras quando a doença é mencionada. E o pior de tudo é que o medo surge como um obstáculo que as afasta do único exame que poderia garantir o diagnóstico precoce e um tratamento bem-sucedido: 50% das mulheres opinam que o medo de descobrir a doença faz com que muitas evitem fazer a mamografia.


Essa realidade acontece no Amapá, porém com um agravante. A rede pública de saúde está um caos, mas o Serviço de Oncologia é ainda pior: não consegue acompanhar e cumprir os protocolos nacionais e internacionais, estabelecidos para o diagnostico e tratamento da doença.Essa deficiência criou uma atmosfera de incerteza, pois a cada novo caso diagnosticado as mulheres entram em desespero.

Mais uma vez preocupada com a situação dos portadores de câncer no estado, a reportagem do Tribuna Amapaense procurou um dos lutadores pela normalização do tratamento da doença pelo poder público, Padre Paulo Roberto da Conceição Matias de Souza. Ele relatou que diariamente o desespero toma conta dos voluntários que trabalham no Instituto do Câncer Joel Magalhães (Ijoma), pela incapacidade de atender à demanda crescente.




Vitima do descaso –

Nossa reportagem pediu um caso para ilustrar os fatos. Assim, chegamos à casa da senhora Léa da Conceição Pantoja dos Santos, 45 anos, portadora do Câncer de Mama em fase inicial.
De acordo com dona Léa, seu calvário começou com um acidente domestico em janeiro de 2014, no qual fraturou o fêmur direito. Procurou o Hospital de Emergência, onde foi encaminhada ao Hospital da Clinicas Alberto Lima (HCAL). Lá, ela esperou vinte dias para ser submetida à cirurgia.
“Fiquei de 19 de fevereiro a 09 de março no Serviço de Traumato-Ortopedia. Neste período, fui submetida a exames complementares, seguido de Tratamento Cirúrgico onde se fixou a fratura patológica com haste de Kuntcher, de acordo com o Laudo Médico”, contou.
Durante essa internação, dona Léa da Conceição foi submetida a exames complementares e outra patologia foi diagnosticada na mama direita, que poderia corresponder à lesão tumoral ainda não classificada.
Os médicos ortopédicos recomendaram avaliação por um oncologista, que posteriormente recomendou a realização de uma Osteossíntese(biópsia) para, posteriormente, ser encaminhada ao novo serviço que complementaria o diagnóstico e o tratamento.
Como é notório, o serviço cirúrgico ortopédico da SESA está pior do que o caos que impera no setor da saúde pública. A paciente desconfia de erro médico na cirurgia em seu fêmur, que precisou ser corrigido com outra cirurgia.

Dona Léa afirma: “Vivia curtida de dor, pois os pinos colocados na primeira cirurgia se deslocaram, o que causou dores horríveis”. Numa sequencia impressionante de erros, numa segunda cirurgia foram reimplantadosoutros pinos no fêmur em 02 de fevereiro. Dona Léa suspeita, do mesmo modo com acontecera antes, os pinos se deslocaram novamente, causando dores fortes.



Sentença: 90 dias   de vida


Ao receber alta no dia 09 de março do Serviço de Traumatologia e Ortopedia, ela foi encaminhada ao Serviço de Oncologia para começar o tratamento.Marcada a consulta, o medico não compareceu. Dona Léa, porém, recebeu a comunicação de que ela deveria ir para casa e, depois de marcar a consulta com o Ocologista, é que poderia ser atendida.

“Na segunda consulta, o medico me sentenciou a 90 dias de vida, se eu não realizasse o tratamento imediatamente”.Isso no dia nove de abril, ou seja, já se vão trinta dias do prazo sentenciado a Dona Léa da Conceição e ela continua em sua residência na Avenida Ernesto Pereira Colares, 1868, Bairro Novo Buritizal.

À espera do tratamento, agora as dores que castigam sua perna também atingiram seu seio, que sangra muito. Mesmo enferma, ela conta que não tem nenhum remédio para aliviar as dores e nem o tratamento quimioterápico foi iniciado.

“Minha filha foi ao HCAL na manhã de 08 de maio, no setor de oncologia e, informada por uma funcionária que não havia a Ciclofosfamida 1g. Então, foi orientada pela servidora a se informar na Oncoclinica, em frente ao Hospital São Camilo, sobre o valor do medicamente. Caso pudesse compra-lo iniciaria a quimioterapia”.
Ela procurou saber quanto sairia o tratamento pago e o preço deprimiu a paciente: para a quimioterapia (seio) e fisioterapia (perna), o valor mensal seria superior a R$ 3 mil, sem falar nos diversos exames, cujo mais barato custa R$ 1.200 reais. Para resumir o drama: afastada do seu trabalho, ela não tem dinheiro para custear nada.

Ao tomar conhecimento de sua situação financeira, e devido à gravidade do caso, os médicos decidiram iniciar as sessões de quimioterapia sem os exames. Mesmo assim, ela esbarrou num outro problema: falta o remédio para a quimioterapia.

Infelizmente, até hoje nada foi feito para, pelo menos, aliviar as dores da senhora Léa da Conceição, porque o tratamento é uma vaga possibilidade. Com quatro filhos, dos quais dois menores, ela sobrevive com um benefício que sua mãe, uma anciã de 75 anos, recebe.

O drama de dona Léa aumenta porque ela não tem uma pessoa que se vire por ela. Devido à fratura do fêmur, ela não pode andar.Vive no fundo de uma cama, aguardando cheia de esperança o tratamento que vai lhe devolver uma vida normal, pois ela deseja terminar de criar a sua filha caçula, de apenas 11 anos de idade.



Divida trabalhista
 São inúmeros os exames e receituários e Dona Leda  não tem dinheiro

Após trabalhar durante seis anos para o dono da Rádio Cidade FM, Eraldo Trindade, que também é defensor público, Dona Léa da Conceição aguarda que ele devolva a sua carteira profissional, afim de que ela possa entrar no INSS com um pedido de auxilio doença.
“Trabalhei como auxiliar de serviços gerais na emissora de rádio. Ganhava um salário mínimo, que era pagoaos pedaços e, mesmo assim, não daria para custear os exames que preciso realizar”, relata,com os olhos cheio de lágrimas um monte de papel.



Lista dos remédios que faltam para o tratamento contra o câncer na UNACOM


CAPECITABINA; CICLOFOSFAMIDA 200mg; CICLOFOSFAMIDA 1g
CIPROTERONA
DOXORRUBICINA
FLUTAMIDA
METOMICINA C
PAMIDRONATODISSÓDICO
RITUXIMABE
MORFINA 10mg
MORFINA 30mg
ÁGUA DESTILADA AMP500ml
AMINOFILINA
BICARBONATO DE SÓDIO 8,4% amamp10ml
BICARBONATO DE SÓDIO 10% amp10ml
CLORETO DE SÓDIO
ESCOPOLAMINA+ DIPIRONA
GLICERINA
MANITOL
VERAPAMIL
VITAMINAS COMPLEXO B
VITAMINA C




Manifestação



Dona Léa Pantoja, enquadra-se na lei 12.732, sancionada pela presidenta Dilma no dia 23/05/2013, que obriga o Estado, através do Sistema Único de Saúde (SUS), a iniciar o tratamento até 60 dias após o diagnóstico. O laudo comprova que a paciente aguarda desde fevereiro o início do tratamento.

O prazo começa a ser contado a partir do dia em que for definido o diagnóstico de neoplasia maligna, com laudo patológico. A determinação vale tanto para pacientes que necessitem de sessões de quimioterapia ou de radioterapia, quanto para pacientes que precisem de intervenção cirúrgica. Doentes em situações mais graves ou dolorosas devem ter prioridade no atendimento.

Segundo o presidente do Ijoma, padre Paulo Roberto, no dia 23 de maio o Brasil vai lembrar o primeiro ano da homologação da Lei 12.732.

A medida foi proposta em 1997, pelo então senador Osmar Dias (PLS 32/1997). Sancionada pela presidente Dilma Rousseff em novembro do ano passado, transformou-se na Lei 12.732/2012, com entrada em vigor dia 23/05/2013.

Relatora da matéria durante sua tramitação no Senado, a senadora Ana Amélia (PP-RS) comemorou a aplicação da lei. Ana Amélia informou que, depois das doenças cardiovasculares, o câncer é a segunda maior causa de morte no país – foram 179 mil mortes em 2012. Entre as mulheres, o câncer de mama é o que mais mata. Já entre os homens, o de próstata é o mais letal.

– Esta é uma lei de enorme alcance social. Quanto mais cedo ocorrer o início do tratamento, maiores são as chances de sobrevivência do paciente – afirmou.

De acordo com a lei, o paciente com câncer receberá gratuitamente, no SUS, todos os tratamentos necessários. O texto estabelece também a revisão e atualização da padronização de terapias do câncer, cirúrgicas e clínicas, para que possam se adequar e incorporar novos tratamentos.
Segundo o presidente do Ijoma, padre Paulo Roberto, no dia 23 de maio o Brasil vai lembrar o primeiro ano da homologação da Lei 12.732. “Infelizmente no Amapá a lei 12.732 não saiu do papel”, enfatiza.

Ele acrescenta que “o tratamento de câncer no Amapá é um engodo e falta compromisso social. Não existe nenhuma possibilidade de um tratamento alcançar sucesso da forma como as coisas funcionam no Amapá”.

Padre Paulo Roberto explica que “o Ministério da Saúde preconiza que o tratamento do câncer exige que haja uma Redede Oncologia em nível de Estado, em que todos os municípios estejam pactuados”.

O presidente do Ijoma destaca que “no Amapá nenhum município está preparado para assumir a sua parte. E ainda fala-se em educação e prevenção, mas o Estado não está preparado para fazer o diagnóstico precoce”.

Entre as deficiências, não há sequer um laboratório público que dê suporte a UNACOM quando da necessidade de realizar exames para que os médicos possam dar início ao tratamento.

“Nessas circunstâncias, 70% dos doentes já chegam em estágio avançado da doença. A maioria tem que esperar até um ano para iniciar o tratamento. Muitos morrem sem pelo menos iniciar”, disse o Padre Paulo Roberto.

Diante dos fatos narrados o IJOMA organiza para o dia 23 de maio uma grande manifestação para denunciar o descaso do poder público, que não levou a sério a Lei 12.732. A concentração vai acontecer a partir das 16h, na Praça da Bandeira.


Nenhum comentário:

Postar um comentário

ARTIGO DO GATO - Amapá no protagonismo

 Amapá no protagonismo Por Roberto Gato  Desde sua criação em 1988, o Amapá nunca esteve tão bem colocado no cenário político nacional. Arri...