sexta-feira, 31 de outubro de 2014

José Alberto Tostes




Um dia depois do amanhã
José Alberto Tostes

            O título deste artigo não é sobre o filme passado há alguns anos fazendo alusão à catástrofe que iria ocorrer no Planeta Terra. Na realidade, é sobre o contexto no qual estamos inseridos no Brasil. Como disse a Presidenta reeleita Dilma Rousseff, é preciso realizar a reforma política. É preciso definir condições de financiamento de campanha, acabar com as reeleições para todos os cargos majoritários, definir regras sobre o número de partidos; regras para debates políticos; maior rigor na questão da ficha limpa; evitar a troca de partidos e tantos outros aspectos importantes para auxiliar o processo democrático mais duradouro e consistente.
             Outro fator importante a ser considerado, nunca se viu tantas acusações sobre o mau uso dos recursos públicos, desvios de verbas, corrupção, formação de quadrilhas, entre tantas coisas insanas. O que é mais espantoso em todo este cenário, a democracia ficou em último plano, o que se viu no Amapá e no Brasil foi um jogo perverso de troca de insultos, ofensas e barbaridades, tudo isso contra os princípios da famosa democracia grega, de discutir no plano das propostas e das ideias, algo mais próximo da questão dialética. O jogo do poder transforma pessoas, o que mais se viu foi aquilo mais próximo de um jogo de futebol, palavrões, gritos e até violência para quem se manifestava a favor da candidatura A ou B.
             O contexto das eleições realizadas no Brasil evidencia outro aspecto a ser ponderado, as fragilidades das instituições, sejam públicas ou privadas em favor, deste ou daquele candidato, até mesmo a imprensa, que sempre se caracterizou pela imparcialidade, revistas, jornais e TVs tomaram partido e foram a “luta”, em favor deste ou daquele candidato, tal fato, contribuiu para acirrar os ânimos e o sentimento de imensa descrença daqueles cidadãos que não se envolveram diretamente por algum lado. Recentemente escutando um CD do Padre Zezinho, muito conhecido nacionalmente pelas cantorias religiosas, manifestou-se em uma reflexão importante, em um pequeno sermão antes de cada canção, falava o Padre que os homens de bem, precisam ingressar na vida política, fiquei pensando profundamente sobre aquilo. No atual contexto, os homens e mulheres que participam não são do bem? Talvez, o padre se referisse a real necessidade de que pessoas idôneas moralmente ingressassem na política, para um bem maior, o desenvolvimento ético e moral da sociedade.
            Então, o que nos reserva um dia depois do amanhã? Boa parte dos candidatos vencedores em todo o Brasil carregam um conjunto de múltiplas denuncias e desvios de recursos públicos, até que se prove o contrário, todos são inocentes, porém o que chama atenção em tudo isso, é a imensa necessidade de reais mudanças estruturais na sociedade brasileira.  A vida política não é dos políticos, é de toda a sociedade, é preciso como diz o Padre Zezinho, maior inserção dos cidadãos no cenário da política brasileira, assim como, redimensionar o papel das instituições quanto ao futuro melhor, o que não pode é um cenário de “terra arrasada” com táticas de desmoralização da história das pessoas e das instituições.
              O sentimento de um dia depois do amanhã, é que todos os eleitos, mesmo sob a desconfiança ou a confiança dos eleitores, também possam refletir, se estão conduzidos, é por que a população acreditou que algo possa ser diferente. No plano local do Amapá, é fundamental que o governador eleito, olhe para passado, veja o presente e perceba o futuro, este é um estado que não pode mais ser conduzido visando somente aumentar o tamanho da máquina pública, não pode mais o Amapá ser um estado onde as relações institucionais são comprometidas, não dá mais para aceitar que não se discuta  a concepção de desenvolvimento.
              Todo este processo deixou cicatrizes, rancores, ódios e profundas indiferenças entre lados distintos, isso se “esconde” por trás dos setores públicos e privados, também pode refletir, nessa ou naquela instituição, a precariedade de resultados de curto prazo. Estão anotadas as famosas promessas de campanha, muitas delas dentro um caráter “milagroso”, todo “novo velho” governo chega com pendências do anterior, é aí que mora o grande perigo, o que seria para resolver os problemas da sociedade, é visto com restrição. O que se espera dos eleitos, é que os planos, programas e projetos, obras que estão por serem concluídas não sejam paralisadas por conta de punir o governo anterior, na realidade, quem é punido é a sociedade. No Amapá, existe um histórico inesgotável de coisas que ficaram paradas sempre que um governo “novo” assume. Para aqueles que perderam no Amapá e no Brasil, fica a lição, sobre quais os motivos levaram o povo a querer mudanças.
                  Para a população em geral, também cabe diversas reflexões: a primeira, a democracia não é apenas um momento, quando se exerce o voto, no dia seguinte não se discute mais nada; segundo aspecto, é o acompanhamento e execução das propostas de campanha através das instâncias legais e representativas da sociedade; um terceiro ponto é a fiscalização da aplicação dos recursos públicos com lisura e transparência. Portanto, um dia depois do amanhã, por enquanto, é algo nebuloso, é preciso ver para crer, que as mudanças nacionais prometidas pela Presidenta Dilma se concretize, e no plano local, o governador eleito possa ter o bom senso e a serenidade para conduzir este estado dentro de uma lógica de desenvolvimento, evitando as questões pontuais e fragmentadas.
                Como disse o Padre Zezinho, a sociedade precisa se envolver mais coletivamente e menos de forma individualista, aqueles que veem somente o lado individual estão se furtando a colaborar, afinal, a sociedade é composta por todos os cidadãos. Um dia depois do amanhã, nos permite dizer que todos aqueles que estão tendo a oportunidade de se reelegerem novamente, bem como aqueles que vão iniciar um mandato possam cumprir o que prometeram. O que se pede,  é que a democracia para as próximas eleições não seja maltratada e colocada em um segundo plano, pois todos perdem com isso.


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