Um dia depois do amanhã
José Alberto Tostes
O título deste artigo não é sobre o filme passado há alguns anos fazendo alusão
à catástrofe que iria ocorrer no Planeta Terra. Na realidade, é sobre o
contexto no qual estamos inseridos no Brasil. Como disse a Presidenta reeleita
Dilma Rousseff, é preciso realizar a reforma política. É preciso definir
condições de financiamento de campanha, acabar com as reeleições para todos os
cargos majoritários, definir regras sobre o número de partidos; regras para
debates políticos; maior rigor na questão da ficha limpa; evitar a troca de
partidos e tantos outros aspectos importantes para auxiliar o processo
democrático mais duradouro e consistente.
Outro fator importante a ser considerado, nunca se viu tantas acusações sobre o
mau uso dos recursos públicos, desvios de verbas, corrupção, formação de
quadrilhas, entre tantas coisas insanas. O que é mais espantoso em todo este
cenário, a democracia ficou em último plano, o que se viu no Amapá e no Brasil
foi um jogo perverso de troca de insultos, ofensas e barbaridades, tudo isso
contra os princípios da famosa democracia grega, de discutir no plano das
propostas e das ideias, algo mais próximo da questão dialética. O jogo do poder
transforma pessoas, o que mais se viu foi aquilo mais próximo de um jogo de
futebol, palavrões, gritos e até violência para quem se manifestava a favor da
candidatura A ou B.
O contexto das eleições realizadas no Brasil evidencia outro aspecto a ser
ponderado, as fragilidades das instituições, sejam públicas ou privadas em
favor, deste ou daquele candidato, até mesmo a imprensa, que sempre se caracterizou
pela imparcialidade, revistas, jornais e TVs tomaram partido e foram a “luta”,
em favor deste ou daquele candidato, tal fato, contribuiu para acirrar os
ânimos e o sentimento de imensa descrença daqueles cidadãos que não se
envolveram diretamente por algum lado. Recentemente escutando um CD do Padre
Zezinho, muito conhecido nacionalmente pelas cantorias religiosas,
manifestou-se em uma reflexão importante, em um pequeno sermão antes de cada
canção, falava o Padre que os homens de bem, precisam ingressar na vida
política, fiquei pensando profundamente sobre aquilo. No atual contexto, os
homens e mulheres que participam não são do bem? Talvez, o padre se referisse a
real necessidade de que pessoas idôneas moralmente ingressassem na política,
para um bem maior, o desenvolvimento ético e moral da sociedade.
Então, o que nos reserva um dia depois do amanhã? Boa parte dos candidatos
vencedores em todo o Brasil carregam um conjunto de múltiplas denuncias e
desvios de recursos públicos, até que se prove o contrário, todos são
inocentes, porém o que chama atenção em tudo isso, é a imensa necessidade de
reais mudanças estruturais na sociedade brasileira. A vida política não é
dos políticos, é de toda a sociedade, é preciso como diz o Padre Zezinho, maior
inserção dos cidadãos no cenário da política brasileira, assim como,
redimensionar o papel das instituições quanto ao futuro melhor, o que não pode
é um cenário de “terra arrasada” com táticas de desmoralização da história das
pessoas e das instituições.
O sentimento de um dia depois do amanhã, é que todos os eleitos, mesmo sob a
desconfiança ou a confiança dos eleitores, também possam refletir, se estão
conduzidos, é por que a população acreditou que algo possa ser diferente. No
plano local do Amapá, é fundamental que o governador eleito, olhe para passado,
veja o presente e perceba o futuro, este é um estado que não pode mais ser
conduzido visando somente aumentar o tamanho da máquina pública, não pode mais
o Amapá ser um estado onde as relações institucionais são comprometidas, não dá
mais para aceitar que não se discuta a concepção de desenvolvimento.
Todo este processo deixou cicatrizes, rancores, ódios e profundas indiferenças
entre lados distintos, isso se “esconde” por trás dos setores públicos e
privados, também pode refletir, nessa ou naquela instituição, a precariedade de
resultados de curto prazo. Estão anotadas as famosas promessas de campanha,
muitas delas dentro um caráter “milagroso”, todo “novo velho” governo chega com
pendências do anterior, é aí que mora o grande perigo, o que seria para
resolver os problemas da sociedade, é visto com restrição. O que se espera dos
eleitos, é que os planos, programas e projetos, obras que estão por serem
concluídas não sejam paralisadas por conta de punir o governo anterior, na
realidade, quem é punido é a sociedade. No Amapá, existe um histórico
inesgotável de coisas que ficaram paradas sempre que um governo “novo” assume.
Para aqueles que perderam no Amapá e no Brasil, fica a lição, sobre quais os
motivos levaram o povo a querer mudanças.
Para a população em geral, também cabe diversas reflexões: a primeira, a
democracia não é apenas um momento, quando se exerce o voto, no dia seguinte não
se discute mais nada; segundo aspecto, é o acompanhamento e execução das
propostas de campanha através das instâncias legais e representativas da
sociedade; um terceiro ponto é a fiscalização da aplicação dos recursos
públicos com lisura e transparência. Portanto, um dia depois do amanhã, por
enquanto, é algo nebuloso, é preciso ver para crer, que as mudanças nacionais
prometidas pela Presidenta Dilma se concretize, e no plano local, o governador
eleito possa ter o bom senso e a serenidade para conduzir este estado dentro de
uma lógica de desenvolvimento, evitando as questões pontuais e fragmentadas.
Como disse o Padre Zezinho, a sociedade precisa se envolver mais
coletivamente e menos de forma individualista, aqueles que veem somente o lado
individual estão se furtando a colaborar, afinal, a sociedade é composta por
todos os cidadãos. Um dia depois do amanhã, nos permite dizer que todos aqueles
que estão tendo a oportunidade de se reelegerem novamente, bem como aqueles que
vão iniciar um mandato possam cumprir o que prometeram. O que se pede, é
que a democracia para as próximas eleições não seja maltratada e colocada em um
segundo plano, pois todos perdem com isso.
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