PT, PSDB e o retrato de Dorian Gray
Após a
derrota nas eleições presidenciais em 1989, o PT deu uma guinada à direita para
atender as articulações do grupo hegemônico capitaneado por Lula, Dirceu,
Genoíno, Mercadante e outros “cardeais”. Em nome do pragmatismo eleitoral,
defenderam uma maior palatabilidade das plataformas e bandeiras partidárias
para alcançar e receber apoio dos representantes do grande capital e,
consequentemente, votos de uma parcela significativa da população que até então
olhava o partido com ressalvas. Embora tenha mantido o discurso relativamente
intacto para fora do partido, a correlação de forças internas modificou-se
sensivelmente. A guinada impulsionou a saída de antigos intelectuais orgânicos
e, num segundo momento, o racha que deu origem ao PSOL.
Esse
reposicionamento ao centro fica plenamente evidente quando, nas eleições de
2002, o PT divulga a Carta ao Povo Brasileiro afirmando que manteria os pilares
econômicos implantados pelo PSDB durante a presidência de FHC. A partir desse
momento fica claro que as propostas de socialismo do PT e de social democracia
do PSDB passam a disputar uma mesma faixa do eleitorado. Defendendo políticas
praticamente iguais e disputando o mesmo segmento eleitoral, chega a ser
irônico que o país tenha iniciado uma polarização entre esses partidos. Mas é
preciso lembrar que a direita, representada pela ditadura há pouco encerrada e
amplamente criticada, e a esquerda de posicionamentos comunistas, duramente
criticada no Brasil durante o período empresarial-militar, não conseguem
expressar-se com força na sociedade ou nas urnas. O país, então, vê-se numa
disputa entre dois partidos praticamente idênticos. O PT que, embora
inicialmente de esquerda, se movimenta pragmaticamente ao centro, abandonando
seus princípios e deslocando o PSDB, originalmente de centro-esquerda, para um
espectro político mais à direita.
Epítome
desse processo, a eleição de 2014 assume a polarização em definitivo e, pessoas
e partidos das extremas direita e esquerda optam pelo nulo ou por um lado ou
outro. Por estar historicamente mais centralizado que o PT, o PSDB recebe apoio
maciço da direita e ultra-direita que exigem um posicionamento mais duro contra
questões como LGBT, aborto e opressões, por exemplo. Chega a ser irônico, mas os
apoiadores recém-chegados buscam a vitória do PSDB como uma alternativa ao que
eles denominam de governo comunista do PT, embora as gestões de Lula e Dilma
sequer se aproximem do socialismo ou do comunismo, pois defendem e implantam um
conjunto de medidas de interesse do sistema financeiro mundial. Por seu lado, o PT recebe o apoio crítico de
uma considerável parcela de militantes da esquerda que, entendendo que o
partido capitulou ao capital, seria mais aceitável (ou nas palavras da disputa
eleitoral: menos pior) que o PSDB e seus neo-aliados conservadores de
ultra-direita.
Ambos
os partidos vivem um novo contexto após a abertura das urnas e a consequente
eleição de Dilma e do PT para mais quatro anos de gestão. O PSDB precisa
definir se continua como um partido de centro-esquerda e defensor da social
democracia e, nesse caso, trata a aproximação da direita apenas como apoio
durante o período eleitoral ou se dá uma guinada à direita e, considerando
perdida a fatia do eleitorado que disputava com o PT, busca um novo perfil que
agrade às novas adesões. O PT, por seu lado, sabe que o posicionamento crítico
(Dilma como um mal menor) de muitos que depositaram votos no partido da estrela
representa um novo momento. A imagem há tanto cultivada de ser um partido de
esquerda foi ferida de morte, embora os conservadores mais à direita chamem-no
de comunista. O dilema é manter o público recém-conquistado e consolidar-se
como um partido de centro ou, correndo o risco de perder esses votos, voltar a
exibir um discurso de esquerda que, dessa vez, precisa ser apoiado por ações
concretas.
O drama
de ambos os partidos pode ser comparado aos eventos do livro O Retrato de
Dorian Gray, obra prima da literatura escrita por Oscar Wilde. O livro
apresenta a história do jovem puro, correto e assentado em sólidos valores
morais que ao chegar à Londres do século XIX é seduzido por Lord Henry Wotton a
desfrutar hedonisticamente todos os poderes e prazeres possíveis no curto
espaço de tempo da juventude. O livro assenta-se na estrutura fantástica de uma
pintura que retrata a enorme beleza de Gray e que, curiosamente, envelhece no
lugar do personagem. Assim, Gray adota um estilo de vida desregrado e centrado
unicamente na estética, mas sua beleza física permanece intacta, enquanto o retrato
mostra cada vez mais a podridão de seu dono. A decadência pessoal expressa na
derrocada da imagem no retrato faz com que Gray enfrente o dilema entre manter
sua busca por prazer ou reencontrar a correção e a pureza de seus atos. O livro
é, portanto, uma crítica à sociedade inglesa dos séculos XVIII e XIX que apesar
de sua imponente beleza estética externava uma decadência moral evidente.
Assim, como Gray, PT e PSDB enfrentam o dilema de decidir entre a estética e
suas ações. As deliberações internas de cada partido e as ações políticas que
externarem nos próximos momentos determinarão as condições das fotografias que
cada um mostrará ao mundo a partir de agora.
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