quinta-feira, 4 de dezembro de 2014

ANTENADOS



Clareira no tempo


Acaba mais um ano. Mal acredito. E dezembro traz consigo a desculpa necessária para nos forçar a pensar na vida, já que mais um ciclo se finda.
O fim do ano é como uma clareira, ela aberta no meio da floresta obscura e cerrada que foram os dias até aqui, idênticos, indefinidos, nebulosos. Até este ponto, não se pensava tanto no que veio antes, não se pensava tanto no que viria depois. O tempo apenas marchava... Na verdade, corria! Não sentíamos.
Mas então se anuncia o fim de ano, e a clareira se abre, generosa, deixando entrar a luz, luz que se projeta sobre nós, e naquele espaço apertado e sufocante, porém tão luminoso e silente, o tempo em suspenso, o convite à vida consciente, à reflexão, à percepção de si. Tudo ainda ruge e corre, mas ali há paz momentânea. Aqui, onde estamos agora.
Gosto de estar nesta clareira, esta que vem com o fim do ano. Gosto de pensar nas mudanças, nas continuidades. Me angustia um pouco, é verdade, ver que estou, por exemplo, ficando velha... Mais velha. Porém imagino que ainda não seja assim motivo de grande preocupação estar na casa dos vinte. Há chão pela frente... Longos anos. 
Mas observo tudo ao meu redor ir se perfazendo, se refazendo e se desfazendo. Me dou conta agora, agora que estou na clareira, do tempo inclemente, do rugido das horas. Estamos também nós na desfeitura apressada? Estamos também nós nos fragmentando aos pouquinhos, de pedaço em pedaço, tornando-nos menores pedaços ainda?
Vamos, é claro, nos estilhaçando, nos espatifando. Coisa inevitável. Mas, ao mesmo tempo, penso, e prefiro mesmo assim pensar, que o que mais fazemos é ir nos completando... Acumulando pedaços para nos tornar inteiros, cheinhos. Junção de coisinhas miúdas. De restos. De rastros de experiências. De esboços de acertos. De nódoas de erros. Vamos assim chegando até aqui. Vamos sendo, aos pouquinhos, de porção em porção, mosaico, inteiros.
Penso nessas coisas sem razão, sem sentido, só pelo prazer, pela beleza de dizê-las. Penso nessas coisas quando estou na clareira, a clareira do tempo. Me vêm essas reflexões, aparentemente fruto de nada, expressando nada, mas a verdade é que nascem diante do espanto de ver o mundo em movimento.
O que eu desejo para o próximo ano, e para os anos seguintes a ele, é que eu não me espante mais. Ou melhor, que eu me espante, mas sem terror. Que me espante apenas com delícia e maravilhamento... Não quero o medo de ver o tempo que passa e arrasta todas as coisas queridas. Não quero o tempo como fantasma que assopra e derruba, como castelinhos de areia, mesmo os castelos que eram de concreto. 
Quero me espantar mas ainda ser capaz de não emudecer. Quero que o futuro traga mais clareiras, e que nelas eu respire quase que exclusivamente a esperança de belezas vindouras, e a certeza de que fui, antes daquele ponto, e que serei, futuramente, ainda mais feliz. Seremos.
Todos nós. E para nós, o que desejo: desejo que as clareiras no tempo sejam um momento dedicado ao sublime. Que este momento espremido entre o ano que termina e o ano que chega possa ser para todos aqueles que me leram até aqui, esse texto esvaziado de sentindo, mas querendo significar tanto, tanto, uma chance de contemplar o que foi bom, antecipar o que será. Quero mais clareiras a todos. Mais momentos para repensar a vida, e aprontar-se assim para viver.  

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