Clareira no tempo
Acaba mais um ano. Mal
acredito. E dezembro traz consigo a desculpa necessária para nos forçar a
pensar na vida, já que mais um ciclo se finda.
O fim do ano é como uma
clareira, ela aberta no meio da floresta obscura e cerrada que foram os dias
até aqui, idênticos, indefinidos, nebulosos. Até este ponto, não se pensava
tanto no que veio antes, não se pensava tanto no que viria depois. O tempo
apenas marchava... Na verdade, corria! Não sentíamos.
Mas então se anuncia o fim
de ano, e a clareira se abre, generosa, deixando entrar a luz, luz que se
projeta sobre nós, e naquele espaço apertado e sufocante, porém tão luminoso e
silente, o tempo em suspenso, o convite à vida consciente, à reflexão, à
percepção de si. Tudo ainda ruge e corre, mas ali há paz momentânea. Aqui, onde
estamos agora.
Gosto de estar nesta
clareira, esta que vem com o fim do ano. Gosto de pensar nas mudanças, nas
continuidades. Me angustia um pouco, é verdade, ver que estou, por exemplo,
ficando velha... Mais velha. Porém imagino que ainda não seja assim motivo de
grande preocupação estar na casa dos vinte. Há chão pela frente... Longos
anos.
Mas observo tudo ao meu
redor ir se perfazendo, se refazendo e se desfazendo. Me dou conta agora, agora
que estou na clareira, do tempo inclemente, do rugido das horas. Estamos também
nós na desfeitura apressada? Estamos também nós nos fragmentando aos
pouquinhos, de pedaço em pedaço, tornando-nos menores pedaços ainda?
Vamos, é claro, nos
estilhaçando, nos espatifando. Coisa inevitável. Mas, ao mesmo tempo, penso, e
prefiro mesmo assim pensar, que o que mais fazemos é ir nos completando...
Acumulando pedaços para nos tornar inteiros, cheinhos. Junção de coisinhas
miúdas. De restos. De rastros de experiências. De esboços de acertos. De nódoas
de erros. Vamos assim chegando até aqui. Vamos sendo, aos pouquinhos, de porção
em porção, mosaico, inteiros.
Penso nessas coisas sem
razão, sem sentido, só pelo prazer, pela beleza de dizê-las. Penso nessas
coisas quando estou na clareira, a clareira do tempo. Me vêm essas reflexões,
aparentemente fruto de nada, expressando nada, mas a verdade é que nascem
diante do espanto de ver o mundo em movimento.
O que eu desejo para o
próximo ano, e para os anos seguintes a ele, é que eu não me espante mais. Ou
melhor, que eu me espante, mas sem terror. Que me espante apenas com delícia e
maravilhamento... Não quero o medo de ver o tempo que passa e arrasta todas as
coisas queridas. Não quero o tempo como fantasma que assopra e derruba, como
castelinhos de areia, mesmo os castelos que eram de concreto.
Quero me espantar mas ainda
ser capaz de não emudecer. Quero que o futuro traga mais clareiras, e que nelas
eu respire quase que exclusivamente a esperança de belezas vindouras, e a
certeza de que fui, antes daquele ponto, e que serei, futuramente, ainda mais
feliz. Seremos.
Todos nós. E para nós, o que
desejo: desejo que as clareiras no tempo sejam um momento dedicado ao sublime.
Que este momento espremido entre o ano que termina e o ano que chega possa ser
para todos aqueles que me leram até aqui, esse texto esvaziado de sentindo, mas
querendo significar tanto, tanto, uma chance de contemplar o que foi bom,
antecipar o que será. Quero mais clareiras a todos. Mais momentos para repensar
a vida, e aprontar-se assim para viver.
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