Crimes e
soluções
Responda
rápido: O que fazer para resolver o problema da criminalidade no Brasil? Se
você pensou rapidamente, então sua resposta deve ter relação com uma das
seguintes alternativas: a) Elevar a punição para os crimes e, de preferência,
instituir a pena de morte; b) Desenvolver economicamente o país; c) Reduzir a
desigualdade social. Basta acessar as redes sociais e verificar qualquer
postagem sobre algum crime para verificar as pessoas defendendo essas e outras
alternativas,dentre as mais variadas respostas.
Em
geral, a alternativa que possui maior número de adeptos e defensores
extremamente inflamados é a que sugere o endurecimento da punição aos
criminosos. A frase mais recorrente é a de que “bandido bom é bandido morto”.
Junto com essa, outras soluções são apresentadas como a redução da maioridade
penal, a elevação dos períodos de detenção e o fim dos indultos de natal e da
condicional. Normalmente, estas vêm associadas a alguma sentença irônica do
tipo: Se está com pena de criminoso, leva para casa até você ser alvo de um
desses monstros. Em suma, a ideia que subjaz quem defende essa alternativa é a
seguinte: se alguém cometeu um crime, a solução ideal é sumir com esse
indivíduo para todo o sempre, de preferência matando, porque assim ainda é
possível economizar dinheiro, em vez de manter esse prejuízo por anos a fio.
Claro, há também os que defendem o uso dos presidiários para todo tipo de
experiência cientifica que não possa ser feita com outras pessoas ou mesmo com
animais. O criminoso, portanto, perdeu não apenas seus direitos civis, mas sua
humanidade.
O
grande problema com essa alternativa é que onde ela foi implantada não houve
diminuição dos índices de criminalidade. É sempre bom relembrar o curioso fato
do rei que mandou executar os ladrões em praça pública para acabar com os
crimes. Em contradição aos seus intentos, o que ocorria era uma elevação do
número de roubos exatamente durante as execuções, pois os bandidos
aproveitavam-se da concentração de pessoas em local público para cometer os
furtos. A punição pode intimidar e talvez, apenas talvez, consiga reduzir um
pouco o número de pessoas envolvidas com o crime, mas nunca levará a uma
diminuição significativa. O problema é que as causas que conduzem as pessoas à
criminalidade continuarão existindo. E são as causas, não apenas as
consequências, que precisam ser combatidas.
Pensando
nessa situação surgem novas alternativas. A primeira que vem à tona é a de que
se o país for rico e desenvolvido, os crimes serão erradicados. O problema
nesse caso é definir o conceito do que é um país rico e desenvolvido. Na época
em que Delfim Netto conduziu o milagre econômico brasileiro, houve crescimento
do PIB (11,1%), queda da inflação (19,2%), aumento do poder aquisitivo do
empresariado e da classe média e o país ainda ganhou sua 3ª copa do mundo. Mas
o dinheiro ficava concentrado em poucas mãos, pois a afirmação que sustentava a
política era fazer o bolo (da economia do país) crescer para, só depois,
dividir. Os menos favorecidos que esperassem e quando o Brasil estivesse
suficientemente rico, parte dessa riqueza seria dividida com eles. Estão
esperando até agora! Aqueles que esperam a diminuição da criminalidade também
continuam esperando. Não apenas no Brasil, mas em todos os países que ficaram
ricos, mas não reduziram as desigualdades sociais, a criminalidade não foi
reduzida.
A
lógica da 3ª alternativa, redução das desigualdades sociais, é a que tem
apresentado resultados significativos de redução da criminalidade onde ocorreu.
A culinária é algo diferente da proposta por Delfim, enquanto este sugeria algo
como um bolo, seus opositores afirmam que é preciso que a economia seja tratada
como pão de queijo. Para que cresça, fique macio e gostoso, é preciso dividir a
massa em porções pequenas primeiro para depois fazer crescer e assar. Não
adianta concentrar a riqueza na mão de poucos. Os seres humanos, e não apenas
eles, possuem o hábito de comparar seus ganhos com os demais e, quando se
sentem injustiçados passam a reclamar uma mudança na partilha do quinhão. Isso vale
inclusive entre profissionais de televisão ou esporte que ganham salários
milionários. Não é uma questão de ser pobre ou não, mas de se sentir
injustiçado e não recompensado em razão do esforço empreendido. Isso, associado
à ideia de que seu esforço não resultará em uma condição de vida minimamente
satisfatória, ou de que ganhos podem ser obtidos de forma não licita, acabam
por abrir as condições para que o indivíduo se envolva com roubo, corrupção,
tráfico ou qualquer outra forma de criminalidade.
O
problema é que toda nossa legislação está organizada para centralizar o poder e
o dinheiro na mão de poucos. Eis porque vemos relatos e relatos a comemorar o
aumento do número de milionários no Brasil enquanto a imensa maioria da
população, apesar de seu esforço e trabalho árduo cotidiano, permanece a
sobreviver em condições miseráveis. Isso significa manter uma estúpida e
estupenda desigualdade social que enquanto se mantiver associada à desesperança
de um futuro melhor, apesar de todo esforço empreendido, incita ao crime.
Enquanto mantivermos essa enorme discrepância, podemos instituir a pena de
morte e penalidades mais duras, aumentar o número de policiais, investir em
estratégias e equipamentos de segurança que os crimes continuarão a ocorrer em
taxas elevadíssimas. Considerado isso, vale a pena olhar as alternativas do
início do texto com um pouco mais de carinho, não?
Nenhum comentário:
Postar um comentário