Benedita Guilherma Ramos (Tia Biló)
Reinaldo Coelho
É tempo de fogos, flores, cantos, caixas, saias, caldo, crianças,
jovens, idosos, homens e mulheres, a partir deste fim de semana nos bairros
Laguinho e Favela. Começou o Ciclo do Marabaixo, maior combinação de fé,
tradição, respeito e religiosidade, onde o preconceito e ignorância são
descartados para que a principal identidade do povo amapaense ganhe espaço nas
rodas. É assim que a jornalista Mariléia Maciel, dá inicio em um dos seus
textos sobre o Ciclo do Marabaixo.
Esta semana trouxemos para o nosso leitor a historia de uma
mulher que nasceu no seio da tradição dos primeiros negros macapaenses e
vivenciou e manteve essa tradição cultural legitimamente amapaense.
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| Tias Biló, Fé e Zefa |
“O Marabaixo mudou, mas não morreu” é assim que Dona Benedita
Guilherma Ramos, a Tia Biló, referência os festejos de 2015, ano que completou
90 de idade.
As mudanças para manter viva a memória são entendidas pela
matriarca do Laguinho, que é a única filha viva de Julião Tomás Ramos, o Mestre
Julião, e prima do finado Mestre Pavão e de outros grandes nomes do Marabaixo.
A casa dela, assim como a dos demais festeiros, vive-se o
marabaixo em cada canto. Desde o ofertório, com imagens que simbolizam o Divino
Espírito Santo e a Santíssima Trindade, com as fitas de promesseiros, até as
cozinhas com imensas panelas onde fazem o caldo, passando pelos quartos, com
muitas saias e flores.
A festeira Tia Biló é uma das últimas negras testemunhas viva
da mudança dos moradores do Centro de Macapá para o Laguinho, em 1945, dando
início ao bairro que guarda a maior identidade amapaense, o Marabaixo.
A história de Tia Biló
Caçula de uma descendência de cinco irmãos, filha do roceiro
Julião Ramos, eles moravam na frente da cidade, na Vila Santa Engrácia, hoje a
Praça Barão Rio Branco, esta vila era o local onde se manifestavam as tradições
folclóricas amapaenses.
Seu pai tinha uma
plantação de algodão, plantio de mandioca e fazer farinha. O roçado dos Ramos
ia da vila Santa Engrácia ate debaixo dos coqueiros que ate hoje existe na
frente na OAB.
O primeiro governador do Amapá, capitão Janary Nunes, depois
de instalar seu governo, desejando a expansão urbana de Macapá e de áreas
nobres para construir prédios públicos e residências para o funcionalismo e
para a construção da própria residência governamental, entrou em contato com os
moradores da Vila Santa Engrácia, a fim de
aceitar uma transferência de local. O governador ofereceu uma área
localizada próximo ao Cemitério Nossa Senhora da Conceição.
Essa mudança aconteceu de 1943 à 1945, porém o Mestre Julião que tinha 2 irmãos que moravam lá
no Laguinho, os Mestres Bruno e Felipa “Ica”, resolveu que era ali que deveriam
fixar residência no Laguinho, assentando sua família e semeando a cultura negra
nas terras Tucujus.
Essa decisão de Mestre Julião de certa forma até ajudou na
urbanização mais rápida do Laguinho, porque pela amizade que ele tinha com o
Coronel Janary, foram abertas ruas e avenidas e mandou colocar postes de
energia pra que eles morassem melhor.
Tia Biló até hoje considera o Coronel Janary um segundo pai,
mas a neta Daniella Ramos tem uma visão diferente dessa decisão “Nos sabemos
hoje qual era o objetivo dele, na verdade foi a primeira demonstração de
preconceito racial no Amapá, por que não tinha necessidade dele afastar os
moradores só porque ele queria mostrar que estava urbanizando a cidade, tanto
que as casas dos secretários eram de alvenaria e as dos operários eram de
madeira.
Constitui familia
Uma vida de luta, mas feliz
Assim foi a lida dessa mulher poderosa, com uma infância
volta para o trabalho e família, pois todos os filhos participavam com o pai
dela e todos ajudavam na roça, ela
cresceu nesse ambiente.
Tia Biló, casou e separou muito cedo. O casamento com Geraldo
Lino da Silva, pai de todos os seus nove filhos (morreram dois).
Sua neta Daniella Ramos, que forneceu as informações desse
texto acredita que nossa pioneira casou com 25 anos, porque quando ela estava
grávida da última filha que hoje tem 52 anos, eles separaram e divorciaram. Sua
descendência hoje tem 16 netos e mais de 20 bisnetos.
Ela passou a morar na Avenida Mãe Luzia em um terreno que o
pai dela na época, porém o marido vendeu a casa com ela dentro. O pai a levou
para morar com ele na Rua Eliezer Levi e foi onde ela ficou a vida inteira, com
os 7 filhos e gravida da ultima filha e ela morou por resta da vida e desde lá
não casou com ninguém e ficou ate os pais morrerem e ela herdou a casa.
O Coronel Janary começou a empregar as pessoas sem concursos,
pois a mão-de-obra e pouca e começou a chamar o pai dela, a mãe, os irmãos e
por ultimo ela, para trabalharem no governo. A Tia Biló tomava conta do
banheiro publico onde hoje é a Rádio Equatorial, depois foi pro IETA, Conservatório
Valquíria Lima e se aposentou.
O Marabaixo é sua vida
Ela nasceu no meio das caixas de marabaixo, dos Santos que é
o Divino Espirito Santo e a Santíssima Trindade, a festa de São José que na
época dela as famílias e os amigos comemoravam dançando o marabaixo, comemorando
o Dia de São José, o Dia de São Benedito, então não tinha como ela fugir ela
apendeu a amar vendo o amor que o pai tinha, os irmãos, os próprios sobrinhos,
onde ela é Tia do Mestre Pavão, do Paulino.
Quando o pai morreu no leito de morte reuniu pediu a presença
de todos os filhos inclusive ela e pediu para que não deixasse a tradição
morrer, as palavras deles foram essas que quem estava morrendo era ele e não as
coroas do Divino Espirito Santo e nem da Santíssima Trindade e que as festas
deveriam continuar e eles sabiam como fazer e eles teriam que da continuidade a
essa festa.
A festa do bairro do Laguinho era só uma, na casa do pai
dela, depois que ele morreu continuou sendo assim, só mudavam os festeiros. E
depois com as mudanças os festeiros, essa festa começou a sair daquele local
indo para as casas de outros festeiros, que foi o Mestre Pavão, a dona Maria
Ramos que era sobrinha dela e irmã do Mestre Pavão. Era nessas casas que era
feitas nos marabaixo, porque o ciclo do marabaixo. Tia Biló ainda participa e puxa os ladrões com firmeza, está cega, porém ver através do rufar dos tambores e dos cantos.


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