sábado, 11 de abril de 2015

PIONEIRISMO





“O meu pai me pediu, não deixe o Marabaixo morrer e não deixei hoje eu peço, continuem com o Marabaixo, não deixem ele morrer” 




Benedita Guilherma Ramos (Tia Biló)
                

Reinaldo Coelho

É tempo de fogos, flores,  cantos, caixas, saias, caldo, crianças, jovens, idosos, homens e mulheres, a partir deste fim de semana nos bairros Laguinho e Favela. Começou o Ciclo do Marabaixo, maior combinação de fé, tradição, respeito e religiosidade, onde o preconceito e ignorância são descartados para que a principal identidade do povo amapaense ganhe espaço nas rodas. É assim que a jornalista Mariléia Maciel, dá inicio em um dos seus textos sobre o Ciclo do Marabaixo.

Esta semana trouxemos para o nosso leitor a historia de uma mulher que nasceu no seio da tradição dos primeiros negros macapaenses e vivenciou e manteve essa tradição cultural legitimamente amapaense.

Tias Biló, Fé e Zefa

“O Marabaixo mudou, mas não morreu” é assim que Dona Benedita Guilherma Ramos, a Tia Biló, referência os festejos de 2015, ano que completou 90 de idade.

As mudanças para manter viva a memória são entendidas pela matriarca do Laguinho, que é a única filha viva de Julião Tomás Ramos, o Mestre Julião, e prima do finado Mestre Pavão e de outros grandes nomes do Marabaixo.


A casa dela, assim como a dos demais festeiros, vive-se o marabaixo em cada canto. Desde o ofertório, com imagens que simbolizam o Divino Espírito Santo e a Santíssima Trindade, com as fitas de promesseiros, até as cozinhas com imensas panelas onde fazem o caldo, passando pelos quartos, com muitas saias e flores.

A festeira Tia Biló é uma das últimas negras testemunhas viva da mudança dos moradores do Centro de Macapá para o Laguinho, em 1945, dando início ao bairro que guarda a maior identidade amapaense, o Marabaixo.



A história de Tia Biló

Caçula de uma descendência de cinco irmãos, filha do roceiro Julião Ramos, eles moravam na frente da cidade, na Vila Santa Engrácia, hoje a Praça Barão Rio Branco, esta vila era o local onde se manifestavam as tradições folclóricas amapaenses.

 Seu pai tinha uma plantação de algodão, plantio de mandioca e fazer farinha. O roçado dos Ramos ia da vila Santa Engrácia ate debaixo dos coqueiros que ate hoje existe na frente na OAB.

O primeiro governador do Amapá, capitão Janary Nunes, depois de instalar seu governo, desejando a expansão urbana de Macapá e de áreas nobres para construir prédios públicos e residências para o funcionalismo e para a construção da própria residência governamental, entrou em contato com os moradores da Vila Santa Engrácia, a fim de  aceitar uma transferência de local. O governador ofereceu uma área localizada próximo ao Cemitério Nossa Senhora da Conceição.

Essa mudança aconteceu de 1943 à 1945, porém o  Mestre Julião que tinha 2 irmãos que moravam lá no Laguinho, os Mestres Bruno e Felipa “Ica”, resolveu que era ali que deveriam fixar residência no Laguinho, assentando sua família e semeando a cultura negra nas terras Tucujus.

Essa decisão de Mestre Julião de certa forma até ajudou na urbanização mais rápida do Laguinho, porque pela amizade que ele tinha com o Coronel Janary, foram abertas ruas e avenidas e mandou colocar postes de energia pra que eles morassem melhor.

Tia Biló até hoje considera o Coronel Janary um segundo pai, mas a neta Daniella Ramos tem uma visão diferente dessa decisão “Nos sabemos hoje qual era o objetivo dele, na verdade foi a primeira demonstração de preconceito racial no Amapá, por que não tinha necessidade dele afastar os moradores só porque ele queria mostrar que estava urbanizando a cidade, tanto que as casas dos secretários eram de alvenaria e as dos operários eram de madeira.

Constitui familia

Uma vida de luta, mas feliz
Assim foi a lida dessa mulher poderosa, com uma infância volta para o trabalho e família, pois todos os filhos participavam com o pai dela e todos ajudavam na roça, ela  cresceu nesse ambiente.

Tia Biló, casou e separou muito cedo. O casamento com Geraldo Lino da Silva, pai de todos os seus nove filhos (morreram dois).

Sua neta Daniella Ramos, que forneceu as informações desse texto acredita que nossa pioneira casou com 25 anos, porque quando ela estava grávida da última filha que hoje tem 52 anos, eles separaram e divorciaram. Sua descendência hoje tem 16 netos e mais de 20 bisnetos.

Ela passou a morar na Avenida Mãe Luzia em um terreno que o pai dela na época, porém o marido vendeu a casa com ela dentro. O pai a levou para morar com ele na Rua Eliezer Levi e foi onde ela ficou a vida inteira, com os 7 filhos e gravida da ultima filha e ela morou por resta da vida e desde lá não casou com ninguém e ficou ate os pais morrerem e ela  herdou a casa.

Lutou e sobreviveu

O Coronel Janary começou a empregar as pessoas sem concursos, pois a mão-de-obra e pouca e começou a chamar o pai dela, a mãe, os irmãos e por ultimo ela, para trabalharem no governo. A Tia Biló tomava conta do banheiro publico onde hoje é a Rádio Equatorial, depois foi pro IETA, Conservatório Valquíria Lima e se aposentou.

O Marabaixo é sua vida
Ela nasceu no meio das caixas de marabaixo, dos Santos que é o Divino Espirito Santo e a Santíssima Trindade, a festa de São José que na época dela as famílias e os amigos comemoravam dançando o marabaixo, comemorando o Dia de São José, o Dia de São Benedito, então não tinha como ela fugir ela apendeu a amar vendo o amor que o pai tinha, os irmãos, os próprios sobrinhos, onde ela é Tia do Mestre Pavão, do Paulino.



Quando o pai morreu no leito de morte reuniu pediu a presença de todos os filhos inclusive ela e pediu para que não deixasse a tradição morrer, as palavras deles foram essas que quem estava morrendo era ele e não as coroas do Divino Espirito Santo e nem da Santíssima Trindade e que as festas deveriam continuar e eles sabiam como fazer e eles teriam que da continuidade a essa festa.


A festa do bairro do Laguinho era só uma, na casa do pai dela, depois que ele morreu continuou sendo assim, só mudavam os festeiros. E depois com as mudanças os festeiros, essa festa começou a sair daquele local indo para as casas de outros festeiros, que foi o Mestre Pavão, a dona Maria Ramos que era sobrinha dela e irmã do Mestre Pavão. Era nessas casas que era feitas nos marabaixo, porque o ciclo do marabaixo. Tia Biló ainda participa e puxa os ladrões com firmeza, está cega, porém ver através do rufar dos tambores e dos cantos.



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