Da estupidez analítica: uma provocação
tentadora
Quando descobri que havia, dentre outras coisas,
um guia, um G-U-I-A de interpretação de Jane Eyre, devassando, desossando a
obra... Que preguiça senti naquele momento! O pensamento até agora me aborrece
e me entedia.
Odeio este mundo de afirmações tão categóricas, de caminhos que não se bifurcam. Deslegitimam a minha e as outras leituras titubeantes e indolentes, leitura de criança que só quer ler e não vê graça nos alimentos sólidos, quer mesmo leite, leite é tão bom!, leitura de quem não quer afirmar nada, não quer saber.
Eu não quero saber, eu quero só estar. Eu quero estar amando Jane Eyre. Eu amo o romance e não sei nadica de nada sobre o que dizem sobre ele. Me esforço por não saber. Não quero que o desmereçam ou o endeusem ou simplesmente o neutralizem.
Uma das coisas que mais me desanimam na intelectualidade, na obrigação da inteligibilidade, é que, para amar as coisas, parece que se tem de compor mil rolos de catalogações pautadas no justifique-e-exemplifique.
Na verdade, não pode amar nada, não com esses termos tão emocionais e sem fundamento. Tem que compreender, tem que expor ao mundo a verdade do alvo de estudo. E ler tudo o que já foi escrito a respeito. Tudo o que for sério e verificável e grave e pétreo. A escrita dura de análise laboratorial, de objetificação, de placas de metal.
Não quero exatamente um livro-objeto, que não me olhe de volta. Quero que me esnobe com charme e volúpia. Eu quero amar o livro respirante. Sem ter que falar disso como quem disseca um sapo e nem sabe que o sapo antes de ser anatomia – ou melhor, antes de ser conteúdo de tripas e vísceras –, era um sapo, um sapo, pulando, coaxante, um sapo! Não quero pensar no sapo morto, calado. Quero o sapo que foge de mim com suas perninhas vivas.
Eu quero que os livros em mim se inscrevam. Na verdade não quero escrever sobre eles, não como uma tarefa, um labor burocrático. Não quero essa escrita que se inibe pela certeza de que algo muito mais grandioso e mais relevante já foi dito e que portanto sou redundante, tautológica, estéril, rasa.
O que eu detesto é que a maioria das “análises finas” faz a gente de algum modo desamar, amar menos, porque entende mais ou pensa que entende, e então se acabou. E essas análises explicam com tanta autoridade, e vão erguendo dogmas, e fundando uma tradição canônica de interpretação que só assusta, enerva e angustia por sua tacanhez, por sua pretensão, por sua escassez de jogo e mistério.
Saio da faculdade amando tudo o que aprendi mas ao mesmo tempo querendo um pouco voltar a não saber. Que nenhum crítico tenha a pretensão de ser mais crítico que leitor. Isso mata um pouco a magia, o mistério. Pode parecer ingênuo afirmar isso, sobretudo em se tratando de uma estudante de Letras, mas a Literatura jamais deveria ser ao leitor amante um "sistema" antes mesmo de ser um troço assim tão lindo e indecifrável, que faz pasmar.
Acho que o mais importante é deixar-se. Ir levando-se com seus poemas sem pressa e sem afã de escavador. As análises vêm depois, se vierem, se for o caso. Devem surgir com o fogo de quem, por exemplo, descreve seu caso de amor.
Não quero descobrir civilizações. Não quero ser Napoleão mandando tropas de arqueólogos ao Egito para descobrir todo um passado esquecido dum poema que só queria ser tempestade de areia e esfinge. Eu quero a esfinge que me sussurre obscuramente seus segredos, me enganando sem dolo dia após dia porque sabe que meu coração é sincero ao dizer que prefiro ser devorada antes de decifrar perfeitamente qualquer rima.
Sempre me esqueço como se contam sílabas poéticas e o que são versos brancos, mas quando os sinto, os sinto, e os chamo “AMEI!”.
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