Jornada de lutas? Por quê?
Jornada Nacional de Lutas foi realizada pelos
Servidores Públicos Federais (SPF) entre 7 e 9 de abril com o slogan: unificar
o funcionalismo em defesa dos serviços públicos, contra as privatizações, as
terceirizações e a precarização. Isso significa manifestações, palestras,
panfletagens e paralisações, entre outras ações possíveis, em vários órgãos
públicos. O objetivo da jornada é fazer o governo negociar. Por vezes, entretanto,
quando o governo deixa claro que não pretende negociar, tal conjunto de ações torna-se
o prenúncio de greves, o que causa, pelo menos em alguns, certa ansiedade sobre
o desenrolar da história. Normalmente, para aqueles que não se debruçam sobre a
questão na tentativa de entendê-la, uma pergunta ressoa: por quê?
Compreender essa questão demanda entender o contexto
que envolve o serviço público e, consequentemente, o atendimento à população,
em especial a parcela mais carente. Os últimos governos, incluídos os de
Fernando Henrique (PSDB), Lula e Dilma Roussef (PT) adotaram uma gestão neoliberal.
Segundo esse posicionamento político e ideológico, os entes públicos são
elefantes brancos caros e desnecessários cujo melhor destino é a extinção, ou a
redução ao menor tamanho possível, com a devida substituição por empresas da
iniciativa privada. Exatamente por essa razão, esses governos atuam no sentido
de privatizar empresas públicas diretamente, aceitando o ônus de entregá-las ao
mercado, ou indiretamente, tornando-as ineficazes e amplamente criticadas para,
então, livrar-se delas com o apoio da população.
Neste último caso, as estratégias principais para
chegar à privatização são reduzir os recursos e o número de servidores para um
valor abaixo do necessário para um funcionamento minimamente adequado. Aliam-se
a isso, remunerações que vão significativamente perdendo valor ano após ano, fazendo
com que bons profissionais afastem-se ou não enxerguem como promissora aquela
atividade do serviço público. Com poucos profissionais, muitos deles
desmotivados ou não devidamente qualificados e, sem recursos em volume adequado,
o órgão público não consegue executar sua função com propriedade e começa a ser
criticado e desacreditado, em geral com ampla divulgação midiática. Ao ter sua
credibilidade dizimada, o órgão é facilmente desmontado e substituído por uma
empresa privada, que chega sob os auspícios de ser moderna e mais eficiente.
Esse desmonte está sendo orquestrado e executado, já há algum tempo, para
grande parte dos órgãos públicos, exceto para aqueles que foram categorizados
por Bresser Pereira como próprios à função do Estado.
Soma-se ao desmonte intencional dos órgãos públicos,
a crise atual do capitalismo que o atual governo do PT sempre designou como
marolinha e que, de uma hora para outra, após a eleição de Dilma passou a ser
chamado de tsunami. Curioso que não houve grandes modificações no perfil da
crise nos últimos meses. De qualquer forma, por conta da crise marolinha-tsunami,
o governo resolveu apertar ainda mais os recursos para a manutenção dos
serviços públicos atacando diretamente os servidores e afetando a população.
Sob o sutil título de “ajuste fiscal”, o governo de
Dilma anunciou que em decorrência da crise não haverá concursos para novos
servidores, os reajustes salariais, para aqueles que vierem a receber, serão
irrisórios e parcelados pelos próximos quatro anos. Além disso, os recursos
para órgãos públicos e programas sociais serão contingenciados e cortados.
Usa-se a crise para acelerar o processo que estava em curso de desmonte dos órgãos
públicos. Há, portanto, muito em comum entre o conjunto dos órgãos públicos e,
por isso, apesar de algumas diferenças, estes se unem e articulam suas ações
através do Fórum das Entidades Nacionais dos Servidores Públicos Federais. Uma
dessas ações é a Jornada Nacional de Lutas.
A preocupação dos SPF estende-se para além das
questões diretas de remuneração e funcionamento do serviço público e envolve
também a retirada de direitos sociais. Esta orquestrada por vários mecanismos,
dentre os quais, as medidas provisórias 664 e 665, que atacam os direitos
previdenciários e o seguro desemprego de toda população, e o Projeto de Lei
4330 que, sob a proposta de regulamentar as terceirizações, as torna
absolutamente desenfreadas tanto na esfera pública quanto na privada. O PL
4330, uma vez aprovado, aumentará a insegurança no mundo do trabalho, criará
enorme contingente de trabalhadores precarizados e descartáveis, aumentará a
possibilidade de exploração dos trabalhadores afetando negativamente direitos
como férias, décimo terceiro, FGTS, previdência e elevará a desigualdade social
de forma estratosférica.
O Fórum dos SPF afirma diante desse cenário de caos e desmonte que
está sendo implantado nos órgãos públicos e de ataque aos direitos dos
trabalhadores que “o funcionalismo federal não pode se calar diante de uma
política que coloca em risco as condições de trabalho, os salários e o
atendimento a população. Ao contrário do que propõe o governo, o ‘ajuste
fiscal’ não é a única maneira de se combater a inflação, mas uma opção que
prejudica a maioria da população em favor dos banqueiros, grandes empresários e
latifundiários”. A Jornada Nacional de
Lutas foi, portanto, uma necessidade, assim como serão as demais ações,
inclusive greves, que venham a ocorrer no enfrentamento a esse governo.
Nenhum comentário:
Postar um comentário