Eu apoio a greve, mas...
Yurgel Caldas, professor do Departamento de Artes, Letras e
Comunicação da Universidade Federal do Amapá escreveu um texto muitíssimo
interessante intitulado “O perigo do ‘mas’: momentos iniciais da greve na
UNIFAP”. O texto segue abaixo e relata como o “eu apoio a greve, mas...” é
usado de formas variadas, sempre com a intenção de destruir o movimento
grevista, apesar da formulação inicial que parece defendê-la. Embora escrito
para uma universidade específica, a análise é perfeitamente adequada para o
conjunto das universidades federais que entraram e entrarão em greve por esse
país ao longo de 2015. Vejamos sobre os “mas” que Yurgel escreveu.
{O PERIGO DO “MAS”: momentos iniciais da greve na UNIFAP
Com a deflagração da greve na UNIFAP (Universidade Federal do
Amapá), muitos debates surgem com relação à educação pública, à autonomia universitária e à
valorização do trabalho docente, dentre outros temas centrais de luta contra a
crise da educação no Brasil. Outros temas, mais ligados à greve em si, tomam a
cena e ganham a ordem do dia. Nos primeiros dias da greve na UNIFAP, começam a
aparecer muitas falas que, no fundo, questionam a greve, seu movimento de
mobilização e as próprias decisões de assembleia docente. Não é raro ouvirmos a
seguinte ideia que começa com a frase: “Eu apoio a greve, mas...”
Devemos estar
atentos ao que vem após o “mas”, essa conjunção adversativa que contrapõe a
ideia anterior, ou seja, o apoio à greve. Assim, frases como “Sou a favor da
greve, mas... não vejo problema nenhum em ter adiantado minha disciplina de 60,
90 ou 105 horas, de modo que ela tenha terminado antes da deflagração desta
greve”. Ou “Eu dou todo apoio à greve, mas... acho que não tem nada de mais em
marcar minhas aulas no shopping em frente à UNIFAP para finalizar o conteúdo da
minha disciplina”. Outras ideias, que já foram superadas em assembleias
passadas, insistem em estarem presentes no discurso de outros docentes, que
dizem: “Nada contra a greve, mas... acho que ela deveria ter iniciado depois
logo após o termino do semestre, ou seja, nas férias”. Sempre em voga está o
apelo em nome do aluno, que não deve ficar prejudicado, quando toda a educação
já está prejudicada num processo crescente de mercantilização do ensino.
Assim como as
ideias acima, outras se justificam por um projeto pessoal, por capricho, para
não ficar mal com os alunos, com a administração ou com quem quer que defenda a
não greve, o que já foi superado quando a categoria docente decidiu – com o
voto de muitos que dizem o “mas” após declarar apoio à greve – que paralisaria
as atividades docentes. Trata-se de uma afronta à decisão coletiva dos
docentes, na tentativa de desmobilizar a crescente adesão à greve dos docentes
da UNIFAP. Precisamos alargar nosso espaço da greve, esclarecendo professores e
alunos dos motivos desse movimento, de maneira que toda a comunidade acadêmica
entenda e de fato apoie a greve dos docentes da UNIFAP, na luta por uma
educação pública de qualidade, garantindo-se a autonomia universitária e a valorização
do trabalho docente.
Ora, o
princípio de uma greve docente é paralisar suas atividades inerentes ao ensino,
seja em sala de aula, seja em laboratório, seja em grupo de pesquisa, seja em
graduação ou em pós-graduação. Mas temos enfrentado algumas resistências de
alguns colegas de cursos como Direito e Medicina, curiosamente, os cursos que
historicamente não aderem às greves, talvez porque boa parte de seu corpo
docente não dependa do salário da docência para sobreviver.
Na próxima
semana, o CONSU da UNIFAP fará uma reunião cuja pauta será a suspensão do
calendário acadêmico. Nesta greve, por diversos meios e oportunidades, a
Reitoria da UNIFAP se posicionou a favor do movimento de greve, mas... Enfim, a
mesma Reitoria que declara apoio a esta greve terá agora uma grande
oportunidade de materializar seu discurso defendendo a suspensão do calendário
acadêmico e invalidando as ações letivas de colegas docentes que ainda insistem
em fazer atividades durante a vigência da greve. Os Conselheiros, que são os
representantes dos cursos, devem também fortalecer essa ideia favorável à
greve, em respeito à decisão da categoria docente, que suspende as atividades
letivas durante a greve}.
E é assim,
entre mas, porém, contudo, todavia e entretanto, que segue a greve. Mas (só pra
seguir na temática), o local e o momento para questionar a greve é a assembleia
geral do sindicato. O professor que não se faz presente nesse momento abdica do
direito de decidir favorável ou contrariamente a greve. A decisão pessoal, o
instituto, o departamento, o curso não são instâncias com poder para essa
deliberação, não sendo possível usar a malfadada estratégia de afirmar, nós
estamos em greve, mas meu departamento... É na assembleia do sindicato,
confrontando posições iguais e contrárias as suas que a categoria define ou não
pela entrada na greve. Razões para entrar na greve há muitas. Mas se o
professor não esteve na assembleia, ele passou aos outros o direito de definir
a posição da categoria. Depois que a greve foi deflagrada, aí como diz o
ditado, não tem mas, nem meio mas... é greve!
Autores:
Yurgel Caldas, professor do Departamento de Artes, Letras e
Comunicação da Universidade Federal do Amapá
Arley Costa, professor do Departamento de Psicologia da Universidade
Federal Fluminense em Volta Redonda
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