O bebedouro, o reitor e o
governo – parte 4
Arley Costa
Ao concluirmos a parte 3 lembramos que havia elementos ainda não apresentados que nos ajudariam a compreender a relação entre o bebedouro, o reitor e o governo. Já falamos dos interesses econômicos por trás da reconfiguração da educação de direito em serviço e de algumas sugestões presentes nos escritos do Banco Mundial (BM) como a financeirização da educação, os lucros estratosféricos que podem ser auferidos pela iniciativa privada, a redefinição da função do Estado, a mudança de nomenclatura que transforma a educação ofertada pela iniciativa privada em pública não estatal, a transferência dos custos para os alunos no momento em que a universidade pública passa a ser mais utilizada por alunos oriundos de famílias com rendas mais baixas, o endividamento familiar para custear a educação como forma de gerar renda para o mercado financeiro e o papel de Enade, Prouni e Reuni como mecanismos de valorização da iniciativa privada articulados ao processo de desmonte da educação pública. Todos esses elementos traduzem-se no bebedouro quebrado e na falta de papel higiênico, mas existem outros, então, retomemos a discussão.
Ao concluirmos a parte 3 lembramos que havia elementos ainda não apresentados que nos ajudariam a compreender a relação entre o bebedouro, o reitor e o governo. Já falamos dos interesses econômicos por trás da reconfiguração da educação de direito em serviço e de algumas sugestões presentes nos escritos do Banco Mundial (BM) como a financeirização da educação, os lucros estratosféricos que podem ser auferidos pela iniciativa privada, a redefinição da função do Estado, a mudança de nomenclatura que transforma a educação ofertada pela iniciativa privada em pública não estatal, a transferência dos custos para os alunos no momento em que a universidade pública passa a ser mais utilizada por alunos oriundos de famílias com rendas mais baixas, o endividamento familiar para custear a educação como forma de gerar renda para o mercado financeiro e o papel de Enade, Prouni e Reuni como mecanismos de valorização da iniciativa privada articulados ao processo de desmonte da educação pública. Todos esses elementos traduzem-se no bebedouro quebrado e na falta de papel higiênico, mas existem outros, então, retomemos a discussão.
Outro elemento considerado importante no processo para o
BM é a diversificação das instituições, ou seja, teríamos ensino superior não
universitário, desvinculado de pesquisa e extensão. Seriam cursos apenas
repassadores de informações oriundas e disseminadas, preferencialmente pelos
grandes grupos educacionais privados de Estados Unidos e Europa. Os cursos
politécnicos, profissionais e técnicos de ciclo curto, os pós-secundários de
dois anos (os atuais tecnólogos) e os cursos de educação a distância comprariam
os pacotes educacionais no exterior ou a eles vincular-se-iam como franquias e
os repassariam aos estudantes (consumidores de serviço) brasileiros. A educação
brasileira deixaria, portanto, de pensar a realidade local, seria apenas mera
consumidora de pacotes prontos elaborados e vendidos pelas franquias
educacionais internacionais.
Qualquer análise do sistema educacional brasileiro
demonstra claramente que as propostas do BM estão sendo implantadas há anos
pelos governos federais. Fernando Henrique Cardoso, Lula e Dilma seguiram a
cartilha à risca, embora adotando mecanismos diferentes. Claro que todo esse
processo de fazer com que as pessoas migrem de um ensino superior público
estatal forte e bem avaliado em ensino, pesquisa e extensão, como ocorre nas
universidades federais brasileiras, para a iniciativa privada, depende de uma
política clara de desmonte de toda a estrutura existente. É esse desmonte que
estamos presenciando!
Os lobbies para a transformação da educação em mercadoria
não começaram agora, mas é possível vislumbrar que os procedimentos de
efetivação dessa lógica ganham força
após a publicação do “La enseñanza superior: las lecciones derivadas de la
experiencia” pelo BM. Bresser Pereira, ministro de FHC, retira a educação das
carreiras típicas de Estado, o que significa desvalorização e desestruturação
da carreira do magistério superior, bem como colocar em queda livre a remuneração
dos profissionais da educação federal. FHC congela as contratações de
servidores docentes e técnico-administrativos e os recursos repassados às
universidades. Lula e Dilma, sob o disfarce de reestruturação das universidades
federais (Reuni), fingem melhorar as universidades quando, de fato, aprofundam
os problemas iniciados por FHC ao reduzirem o investimento por aluno e
diminuírem as relações de professor e técnico-administrativo por aluno. Com o
Reuni, portanto, a sobrecarga dos profissionais da educação federal acentua-se
e o volume de recursos para sustentar as universidades, quando considerado o
número de alunos envolvidos, reduz-se quase a metade sob o governo do PT.
Nesse contexto, os bebedouros quebram e não há como
consertar, pois não há recursos nem profissionais disponíveis; a infraestrutura
em muitos casos está ruindo ou funcionando por meio de aluguéis sob a ameaça de
não serem pagos; os parcos recursos de custeio que chegam são direcionados para
pagamento de aluguéis porque não há prédios suficientes ou para manter os
serviços de limpeza e segurança que agora são desempenhados por empresas
terceirizadas e não por servidores públicos; falta investimento em pesquisa e
extensão que são obtidos agora apenas por meio de editais; as políticas de acesso
e permanência entram em falência; os professores e técnico-administrativos com
carreiras desestruturadas e remuneração em queda ficam desmotivados, grande
parte falando em fazer concurso para outros cargos públicos fora da educação.
Não bastassem todos esses problemas, paira a ameaça dos professores passarem a
ser contratados por meio de organizações sociais (OS), terceirizando e
destruindo de vez a carreira docente no magistério superior federal.
De posse dessas informações fica evidente quais das
chapas para o Diretório dos Estudantes tem melhor condição de fazer frente aos
problemas colocados. Assim como é possível identificar o modo com que reitores
e governos posicionar-se-ão frente às demandas da comunidade acadêmica. Óbvio,
portanto, que você, caro leitor, já fez essas articulações e tirou suas
conclusões! Então, no próximo texto, vamos amarrar todas essas pontas e
ligá-las a atual greve que docentes, alunos e servidores
técnico-adiministrativos estão desenvolvendo em defesa das universidades federais.
Até lá!
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