sexta-feira, 28 de agosto de 2015

ANTENADOS


Um pouco sobre poesia


Bárbara de Azevedo Costa

No final deste último mês de agosto, fui convidada a participar de um evento, um sarau, numa escola de artes daqui de Fortaleza, a fim de ler ali alguns poemas meus. Uma honra, para mim, que começo, para outro jovem escritor também convidado, e para os demais, com vasta experiência e livros publicados. Havia palco. Havia microfone. Havia um mediador. Havia público, gente ouvisse. E provavelmente é este o melhor de todos os elementos.
Fui perguntada então, por aquele que mediava a conversa e as leituras dos poemas, como é que funcionava, para mim, essa escrita lírica. Ele, escritor já publicado, fruto de amizade nascida pelas cadeiras da UFC, sabia que nem sempre fui amante de poesia, que cresci me filiando à prosa. E pus-me assim a pensar, naquele momento e até agora, como é que se dá o nascimento da poesia, o despertar na gente.
Ela, que nem sempre, quase nunca, está para palco, plateia, auditório, embora muitos ainda a queiram como passaporte para um sucesso. Mal sabem. Passaporte? Nada. Poesia não chega a lugar algum, só vai devastando os caminhos, voraz, implacável.
Poesia nasce no silêncio. Ela cala, por isso mesmo é que fala. Ninguém pode acessar seu sentido, de modo que ela mesma em sua materialidade de palavra se torna o único sentido possível. Poesia não é confiável. Poesia não se deixa vencer, não se deixa domesticar.
Às vezes, no furor de nossas campanhas cartesianas, pensamos que compreendemos a solução de um poema. Mas então olhamos para o poema e ele já mudou, sendo as palavras as mesminhas, o poema já se tornou outra coisa.
Eu antes tinha medo de poesia, e não me atrevia. Achada difícil, imponderável. Impossível condensar tanta coisa num verso, não dispor da margem infinita da página como no texto prosaico. Ainda tenho medo de poesia. Ainda difícil, ainda imponderável. Mas agora me atrevo a ela. Não sei... Fui chamada, porque a poesia chama, até que você se rende, e, atendendo a esse chamado, começa um percurso.
Ao mesmo tempo, não é você quem tem total autonomia sobre o poema. Os versos não vêm, as construções todas escapam. É questão de horas, dias, meses até algumas linhas serem paridas com sacrifício... Mas também um poema pode nascer num minuto. Quem é que controla? Não sei. É um mecanismo torturante das palavras, que nunca se revela de todo. Não sabemos por que fazemos, mas fazemos. Ou melhor, a poesia vai se fazendo a si mesma por entre a gente, nos atravessa.
Escrever poesia é lidar com abismos e densidades. Poesia não é fácil. Passado aquele primeiro momento em que se entende não ser uma questão de simplesmente rimar "amor" com "dor", você se pergunta: "E agora?". Para que fazer poesia, o que quero com ela, o que ela demanda de mim? Jamais saberemos perfeitamente, profundamente. Sei é que o sentido da poesia está em atender seu misterioso chamado e continuar a ser chamado e chamado dia após dia por ela.


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