Chefe 91 – um grande pioneiro
da implantação do Território Federal do Amapá
Expedito Cunha Ferro, um cidadão de muitos méritos.
Da
Editoria
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| Expedito Cunha Ferro,com seu famoso apito italiano, atuando no Estádio Glicério Marques |
A
exemplo de muitos dos seus contemporâneos, Expedito Cunha Ferro não foi apenas
um simples servidor público. Franzino e de estatura mediana, enveredou pelos
caminhos do escotismo, do esporte e das artes cênicas, contribuindo para a
formação moral e intelectual de centenas de garotos e adolescentes. Expedito
Cunha Ferro, nascido em Belém, no dia 9 de março de 1927, mudou-se para Macapá
em 1945, para trabalhar, jogar futebol e difundir o escotismo.
Escotismo
Fez
parte do primeiro grupo de escoteiros da ‘Tropa Veiga Cabral’, que era dirigida
pelo Tenente Glicério de Souza Marques. A queda pela doutrina de Baden-Powell
começou a ganhar seu interesse ainda em Belém, nos redutos da Federação
Educacional Infanto-Juvenil (FEIJ), cujo fundador e coordenador foi o então tenente
do Exército Brasileiro Gonçalo Lagos Castelo Branco Leão, o ‘Chefe Castelo’. No
futebol, Expedito Ferro optou pela posição de goleiro, cuja denominação, à
época, era “guarda-metas” ou “guarda-valas”.
Dos
tempos da caserna, herdou como apelido o seu número de guerra, noventa e um.
Sua cabeça, em relação ao corpo, era considerada miúda, fato que lhe valeu a
alcunha de “cabeça-de-macaco”, coisa que ele detestava. Possuidor de bom
conhecimento de ordem unida ingressou no quadro de servidores do Território do
Amapá como instrutor de educação física. Bom disciplinador tinha sempre às mãos
um apito. Quando “91” – ingressou na Tropa de Escoteiros Veiga Cabral, fundada
dia 12 de setembro de 1945 –, o chefe Glicério de Souza Marques tinha como
auxiliares os pioneiros Clodoaldo Carvalho do Nascimento e José Raimundo
Barata, ambos egressos de Belém.
Os
três são apontados como elementos de proa na história da FEIJ, por onde também
passou o Chefe Cláudio Carvalho do Nascimento. Em Belém, Expedido Cunha Ferro
foi membro da Federação Paraense de Escotismo. A 23 de abril 1953, Expedito
Cunha Ferro, Humberto Álvaro Dias Santos e o Padre Vitório Galliani fundaram a
Tropa de Escoteiros Católicos São Jorge. Foi nesta organização que ingressei
como lobinho. Os padres italianos, chegados à Macapá em 1948, haviam implantado
o Oratório Recreativo São Luiz, na Paróquia de São José. O terreno que eles
herdaram dos missionários da Congregação da Sagrada Família foi ampliado,
permitindo a construção de um barracão de madeira e de uma quadra esportiva
para a prática de basquete, voleibol e futebol-de-salão. Na área de recreação,
mais conhecida como quintal dos padres, havia uma pequena casa de madeira,
coberta de palha de ubuçu, onde o Chefe “91” residia.
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| Raimundo Rodrigues da Silva Façanha Tropa Marcílio Dias, José Raimundo Barata Tropa Veiga Cabral, Expedito Cunha Ferro Tropa São Jorge e Clodoaldo Carvalho do |
Nosso
saudoso amigo era um celibatário convicto. Ainda em 23 de junho de 1953, graças
à criatividade do Expedito Ferro, os escoteiros apresentaram o “Cordão do
Papagaio”, que ele tão bem conhecia desde o tempo em que participou das
atividades da Federação Educacional Infanto-Juvenil (FEIJ), em Belém. Também
foi da sua iniciativa a encenação do Boi-Bumbá “Pai-da-Malhada”, bastante
divertido. Vários outros cordões juninos mereceram destaque com o passar do
tempo, todos concebidos pelos chefes Humberto Santos e Expedito Cunha Ferro.
Como professor de educação física, “91” foi imbatível na Escola Industrial de
Macapá. Por ocasião dos desfiles estudantis e das olimpíadas, a turma que ele
treinava fazia sucesso.
Além
do futebol, Expedito Ferro também praticou o basquete e o vôlei. Quando deixou
de jogá-los, assumiu a função de árbitro. O drama de arbitrar jogos do Juventus
trouxe alguns contratempos ao Expedito. Entretanto, sua parcialidade merece
encômios e ninguém, em sã consciência, pode acusá-lo de ter, voluntariamente,
prejudicado ou favorecido o “Moleque Travesso” ou qualquer outro clube local.
Torcia pelo Botafogo de Futebol e Regatas, daí a sua preferência pelo Amapá
Clube. Dentre os times de futebol de Belém, o Clube do Remo tinha cadeira
cativa no coração do fanático Expedito. Do tipo brincalhão, o “91” só ficava
possesso quando alguém o chamava de “cabeça-de-macaco”. Guardadas as devidas
reservas, o cocuruto do Expedito Ferro era mesmo parecido, notadamente com o
Caiarara, o mais esperto dos símios amazônicos.
Para
animar as manhãs de domingo, quando eram realizados os jogos do campeonato
oratoriano, o “91” fazia uso de amplificador, alto-falante e microfones para
narrar as partidas. Criou a PRC Juvenil – a voz oratoriana, por onde o Estácio
Vidal Picanço e eu iniciamos como narradores esportivos. Na década de 1940,
ninguém conseguia sobrepujar Raimundo Nonato Lima, o velho chibé na arbitragem futebolística. A partir dos meados
de 1950, o árbitro mais requisitado, por ser mais técnico, foi o “91”. Quando o
sujeito apelava para o jogo violento, ouvia, em tom de reprimenda: “joga
direito seu cavalo de arraial, senão eu te expulso de campo”. Em 1945, a
escalação do Amapá Clube mais frequente era: “91”; Cabral e Branco. Palito,
Raimundinho e Álvaro Arara; Assis, Chumbo, Penha, Puga e Walter Nery. Ele
também atuou ao lado de outros companheiros nos anos seguintes, entre os quais
destacamos: Alvibar, Pina, Higino, Nilo, Pena, Newton, Passarinho, Pintor,
Genésio, Moringueira, Mafra, Marituba, Zé Maria Leão, Zé Maria Chaves, Campos,
Joãozinho, Adãozinho e Boró. Quem não formava na onzena principal, integrava o Uirapuru,
o time secundário do alvinegro amapaense. Detalhe para o Penha, que jogava de
óculos. De todos eles, apenas o Walter Nery permanece em Macapá. O Raimundinho
Araújo, o Pina e o Assis (Severo) residem em Belém. Os demais estão em outro
plano. O Expedito Cunha Ferro partiu. O dia três de agosto de 2004 marcou a sua
cortada. Há três dias, em decorrência da morte de uma sobrinha que ele adorava
e que o assistia, caiu em profunda depressão. No decorrer deste período não
quis se alimentar, permanecendo trancado no quarto. Morava só na Base Aérea de Belém.
Quando decidiram arrombar a porta, ele estava enfartado. Já não era o homem de
corpo franzino, engordara e somava 77 anos de idade. Com ele, foram para a
eternidade: o “91”, o cabeça-de-macaco, o bobo da corte, o folclorista, o chefe
escoteiro, o instrutor de educação física, o desportista e o amigo. Enquanto
esteve no mundo dos vivos, “91” sempre honrou a saudação escoteira: “Sempre
Alerta, Para Servir na Forma do Melhor Possível”. Anrrê, Expedito Cunha Ferro,
que agora contempla outro arrebol. Tinha razão o Padre Lino Simonelli ao
afirmar que "a vida é curta como a folha do mastruz".
Por
Nilson Montoril (*)



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