Entre
irmãs
Neste último dia
das crianças, fiz minha irmã chorar. A ligação caiu duas vezes. A malha densa e
confusa da vida e do amor em meio à tecnologia.
Mamãe me liga e a
pequenina pede para falar comigo imediatamente, interrompendo a conversa
primeira, coisa que muito me diverte. Vamos então conversando esta segunda e
mais importante conversa, em que ela me conta de seu dia das crianças, e do
presente que ganhou, e diz que está com saudades de mim, e digo que estou também,
e faço mil perguntas, para alimentar a prosa, porque às vezes ela fica em
silêncio, frequentemente não sabendo como continuar o diálogo, mesmo querendo
falar muito.
Em meio às
perguntas que ela vai me respondendo, é dela que vem subitamente a pergunta que
me enlaça apertado: "Bárbara, a tua voz tá triste... Por que a tua vozinha
tá tão triste assim?". Ei-la! Essa criatura de apenas seis anos já sabe
ler a tristeza no outro.
Ela me diz que não
gosta de me ouvir triste e então começa a ter a própria voz tremida. De
repente, quando noto, está a chorar, mal me dando tempo de explicar que a única
tristeza na vida mesmo é ser adulto, e que ao final as coisas sempre se
resolvem, porque o que não tem remédio, remediado está.
Vou falando à
minha irmã, antes que ela deixe cedo demais de ser criança, que na verdade é a
minha voz que está um pouco rouca, mas que nada de grave se passa. E que o que
me abate são coisas da faculdade, preocupação com os estudos... É verdade.
E penso em lhe
dizer que não entendo coisa alguma de Blanchot, o teórico que tenho de estudar
e ler à exaustão, e que meu objeto de estudo não quer se delimitar sozinho, e
igualmente toda a minha fundamentação teórica para o pretenso projeto de
mestrado sozinha não se lerá.
Mas eu resumiria
dizendo que tudo ficaria bem, que temos aqui em casa Neosaldina para o pior de
todos os males, a dor de cabeça, e que não há pressa de nada. "A única
pressa é viver, o resto é festa", são as palavras de nosso avô, que volta
e meia sempre me ocorrem.
Mas então ela chora
muito e já não há como consolá-la e não me sobrou tempo de dizer nenhuma dessas
coisas que ela poderia não entender, mas na verdade entenderia. De repente, a
ligação cai. Sinto-me ainda mais triste agora, porque o contato foi cortado
assim, abruptamente, por maldade pura da ciência telefônica.
Mamãe retorna logo
em seguida e, assim que atendo, vai ligeira querendo saber que conversa séria
foi essa que tivemos e que fez a menina se desmanchar em lágrimas lá do outro
lado da linha. Explico a mamãe todo o ocorrido, e vamos ao telefone outra vez,
eu e Laura.
A voz dela agora é
de matar qualquer coração. Eu então a distraio. Ela volta a me falar de
brinquedos, de quando nos virmos de novo, de todas as coisas maravilhosas que
faremos nas férias, e de tudo o que já passamos juntinhas. Ela me pergunta
empolgada se ainda existe por aqui um estojo de pincéis e gizes que dei a ela
quando era menor, quando morou comigo. Como pode se lembrar ainda disso? Me
impressiono, se era tão pequena... Vou lhe explicando que as coisas se
extraviam. Compramos outra em breve, prometo.
Ela se empolga,
fala da menina da escola que tem uma maletinha parecida com aquela, cheia de
pincéis, e é de princesa. Vamos falando nossas besteiras de irmãs. Dado
momento, de novo, cai a ligação. Dessa vez, mamãe não retorna, acostumada com
as agruras de nossa operadora. O que quer que tenha faltado, fica para o
telefonema do dia seguinte.
Volto a pensar: em
pleno dia das crianças, faço minha irmã chorar... Fico a considerar se talvez
minha irmã seja feita dessa mesma substância melancólica de tristezas
intestinas e de temperamento que se regula de acordo com humores alheios.
Não sei. Penso.
Mas, por ora, não lhe direi nada disso, que ser criança é bom, mas também, por
si só, já é difícil um bocado! Não precisa de mais esse acréscimo.
Descobrir-se-á, afinal, se for o caso. E pode ser que faça disso tudo uma outra
coisa, novíssima. As pessoas são diferentes. Por ora, não lhe conto nada. Vamos
falando de bonecas, pincéis, e sonhos... Enquanto as operadoras de telefone nos
permitirem, é claro.
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