quinta-feira, 15 de outubro de 2015

Entrelinhas



A culpa é das estrelas?

A culpa é das estrelas, livro e filme homônimos de autoria de John Green, aborda a história de amor entre um casal adolescente com câncer e a perspectiva iminente da morte. Hazel, a personagem principal possui câncer no pulmão e, por isso, apresenta uma séria dificuldade para respirar. Com a morte no horizonte, ela é submetida a um tratamento experimental, consegue reduzir os líquidos que inundam seu pulmão e ganha sobrevida ao lado de um aparelho de oxigênio que carrega para todo lado, em uma mochila escolar com rodinhas. Seu par romântico é Gus que surge na história como alguém que se livrou do câncer, embora tenha amputado a perna no processo.

A história é centrada nas pessoas, as doenças de cada personagem aparecem como fatores intervenientes. Afinal, como as posições mais avançadas nas propostas de saúde têm preconizado, a pessoa não deve ser definida por sua doença. O que há, e é o modo como o autor trabalhou o romance, são pessoas em sua completude e incompletude, com sonhos, planos, frustrações, prazeres e dificuldades, mas que apresentam uma doença e sofrem as limitações decorrentes. Hazel e Gus, sob essa lógica, são apresentados não como as doenças que os acometem, mas como pessoas. Pessoas que vivem suas vidas, embora tenham câncer e expressem os medos, angústias, sofrimentos e limitações decorrentes da doença.

Câncer e morte já foram sinônimos no passado, hoje não o são mais, embora o câncer continue carreando um intenso imaginário de medo. Há o medo da morte, visto como inevitável, além de outros tantos medos como o do sofrimento do tratamento, da dor, da desconfiguração, de imputar sofrimento aos que lhe são próximos, de tornar-se um estorvo. Pacientes e familiares enfrentam a necessidade de lidar com prevenção, diagnóstico, tratamentos, reabilitação e a terminalidade, com morte ou cura, reinserção social e luto. Há, desse modo, uma miríade de medos e de transformações nas condições de vida e existência que são vivenciados não apenas pela pessoa com câncer, mas por todos os que a rodeiam como parentes, amigos e profissionais que a atendem. Esses também veem suas existências afetadas e precisam situar-se dentro do cenário construído com o surgimento da doença.

Há vidas afetadas pelo medo do câncer e seus efeitos, o que provoca um impacto psicológico profundo sobre a pessoa com câncer e aquelas que lhe são próximas. No filme, vemos parte desse sofrimento psíquico expressar-se na forma de reclusão e isolamento do convívio social por Hazel. Nos conflitos existentes entre ela e seus pais que forçam-na a participar de grupos de apoio, nas frustrações quanto ao futuro que podem ser mal interpretadas de parte a parte e, inclusive  afetando a relação do par romântico. Há, portanto, uma gama de dificuldades e conflitos que se estabelecem e tornam ainda mais difícil conviver com a doença. Nesses momentos é difícil não conceber o indivíduo como a própria doença, mas é necessário separá-los e reconhecer a pessoa que existe ali.
As dificuldades e medos de lidar com o câncer são cada vez mais presentes entre nós, haja vista que meio milhão de novos casos são detectados por ano só no Brasil. Os mais recorrentes são o câncer de mama entre as mulheres e os de pulmão e próstata nos homens. Os tratamentos geram condições de cura, sobrevida ou melhoria da qualidade de vida cada vez melhores, com o avanço de técnicas diagnósticas e cirúrgicas, radioterapia e quimioterapia. No filme, Hazel graças a um tratamento experimental ganha sobrevida e melhora na qualidade de vida. Gus, por outro lado, tendo passado pelo tratamento e a amputação de uma das pernas parecia curado, mas sente dor nos quadris e ao fazer novo exame detecta a existência de novos focos do câncer. Como o exame por imagem destaca os focos cancerígenos na forma de pontos luminosos, Gus, ao relatar o exame para Hazel, diz: “Acendi como árvore de natal!” Essa descrição indica que o câncer havia avançado e se estabelecido em vários pontos, dificultando o tratamento e a cura.

Além dos tratamentos de ordem médica, faz-se necessária uma intervenção psicológica para lidar com todo o conjunto de alterações promovido no universo da pessoa com câncer. Não bastassem as questões pertinentes ao saber-se acometido por uma doença que pode levar a morte e de todos os demais medos e conflitos envolvidos, é necessário lembrar que aspectos pertinentes a adesão ao tratamento, enfrentamento e participação ativa estão associadas aos aspectos psicológicos. Portanto, o acompanhamento por profissionais da psicologia para a pessoa com câncer ou para os que o rodeiam faz-se necessária.

O filme praticamente não aborda os tratamentos médicos ou psicoterápicos, salvo ao mostrar a terapia de grupo onde o par romântico vem a se conhecer. A Psico-oncologia é uma área de intersecção entre a Psicologia e a Oncologia que estuda as variáveis psicológicas e comportamentais envolvidas no processo de adoecimento e cura e as intervenções ao longo de todo o processo. Voltaremos à Psico-oncologia e a Hazel e Gus, em breve. Até lá!


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