A
culpa é das estrelas?
A culpa é das estrelas,
livro e filme homônimos de autoria de John Green, aborda a história de amor
entre um casal adolescente com câncer e a perspectiva iminente da morte. Hazel,
a personagem principal possui câncer no pulmão e, por isso, apresenta uma séria
dificuldade para respirar. Com a morte no horizonte, ela é submetida a um
tratamento experimental, consegue reduzir os líquidos que inundam seu pulmão e
ganha sobrevida ao lado de um aparelho de oxigênio que carrega para todo lado,
em uma mochila escolar com rodinhas. Seu par romântico é Gus que surge na
história como alguém que se livrou do câncer, embora tenha amputado a perna no
processo.
A história é centrada nas
pessoas, as doenças de cada personagem aparecem como fatores intervenientes.
Afinal, como as posições mais avançadas nas propostas de saúde têm preconizado,
a pessoa não deve ser definida por sua doença. O que há, e é o modo como o
autor trabalhou o romance, são pessoas em sua completude e incompletude, com
sonhos, planos, frustrações, prazeres e dificuldades, mas que apresentam uma
doença e sofrem as limitações decorrentes. Hazel e Gus, sob essa lógica, são
apresentados não como as doenças que os acometem, mas como pessoas. Pessoas que
vivem suas vidas, embora tenham câncer e expressem os medos, angústias,
sofrimentos e limitações decorrentes da doença.
Câncer e morte já foram
sinônimos no passado, hoje não o são mais, embora o câncer continue carreando
um intenso imaginário de medo. Há o medo da morte, visto como inevitável, além
de outros tantos medos como o do sofrimento do tratamento, da dor, da
desconfiguração, de imputar sofrimento aos que lhe são próximos, de tornar-se
um estorvo. Pacientes e familiares enfrentam a necessidade de lidar com
prevenção, diagnóstico, tratamentos, reabilitação e a terminalidade, com morte
ou cura, reinserção social e luto. Há, desse modo, uma miríade de medos e de
transformações nas condições de vida e existência que são vivenciados não
apenas pela pessoa com câncer, mas por todos os que a rodeiam como parentes,
amigos e profissionais que a atendem. Esses também veem suas existências
afetadas e precisam situar-se dentro do cenário construído com o surgimento da
doença.
Há vidas afetadas pelo medo
do câncer e seus efeitos, o que provoca um impacto psicológico profundo sobre a
pessoa com câncer e aquelas que lhe são próximas. No filme, vemos parte desse
sofrimento psíquico expressar-se na forma de reclusão e isolamento do convívio
social por Hazel. Nos conflitos existentes entre ela e seus pais que forçam-na
a participar de grupos de apoio, nas frustrações quanto ao futuro que podem ser
mal interpretadas de parte a parte e, inclusive
afetando a relação do par romântico. Há, portanto, uma gama de
dificuldades e conflitos que se estabelecem e tornam ainda mais difícil
conviver com a doença. Nesses momentos é difícil não conceber o indivíduo como
a própria doença, mas é necessário separá-los e reconhecer a pessoa que existe
ali.
As dificuldades e medos de
lidar com o câncer são cada vez mais presentes entre nós, haja vista que meio
milhão de novos casos são detectados por ano só no Brasil. Os mais recorrentes
são o câncer de mama entre as mulheres e os de pulmão e próstata nos homens. Os
tratamentos geram condições de cura, sobrevida ou melhoria da qualidade de vida
cada vez melhores, com o avanço de técnicas diagnósticas e cirúrgicas,
radioterapia e quimioterapia. No filme, Hazel graças a um tratamento
experimental ganha sobrevida e melhora na qualidade de vida. Gus, por outro
lado, tendo passado pelo tratamento e a amputação de uma das pernas parecia
curado, mas sente dor nos quadris e ao fazer novo exame detecta a existência de
novos focos do câncer. Como o exame por imagem destaca os focos cancerígenos na
forma de pontos luminosos, Gus, ao relatar o exame para Hazel, diz: “Acendi
como árvore de natal!” Essa descrição indica que o câncer havia avançado e se
estabelecido em vários pontos, dificultando o tratamento e a cura.
Além dos tratamentos de
ordem médica, faz-se necessária uma intervenção psicológica para lidar com todo
o conjunto de alterações promovido no universo da pessoa com câncer. Não
bastassem as questões pertinentes ao saber-se acometido por uma doença que pode
levar a morte e de todos os demais medos e conflitos envolvidos, é necessário
lembrar que aspectos pertinentes a adesão ao tratamento, enfrentamento e
participação ativa estão associadas aos aspectos psicológicos. Portanto, o
acompanhamento por profissionais da psicologia para a pessoa com câncer ou para
os que o rodeiam faz-se necessária.
O filme praticamente não
aborda os tratamentos médicos ou psicoterápicos, salvo ao mostrar a terapia de
grupo onde o par romântico vem a se conhecer. A Psico-oncologia é uma área de intersecção
entre a Psicologia e a Oncologia que estuda as variáveis psicológicas e
comportamentais envolvidas no processo de adoecimento e cura e as intervenções
ao longo de todo o processo. Voltaremos à Psico-oncologia e a Hazel e Gus, em
breve. Até lá!
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