Já pode rir
Passado o nervosismo angustiado dos meses que antecedem o
Exame Nacional do Ensino Médio, nosso bom e velho Enem, e com ele também toda a
chuva de comentários sobre a dureza da prova e sobre as questões, há espaço
também para comentarmos mais uma vez a personalidade do brasileiro deste país
varonil, coisa que se deixa ver com clareza e fanfarronice até mesmo no que diz
respeito a um exame nacional desse porte, massivo e sério.
Fato é que não importa quão grandioso e grave seja o evento
ou o assunto, brasileiro parece ter esse dom para transformar tudo em piada ou
entretenimento. Se é defeito, não sabemos. Mas está aí, para o bem ou para o
mal.
Este ano, no que diz respeito ao Enem, por exemplo, houve
toda uma preparação, sobretudo na internet, para acompanhar o desempenho dos
que chegariam atrasados no local de prova, coisa já tida como certa. Há sempre
os atrasados. Não lhes bastando chegar atrasados, é claro, se monta todo um
espetáculo. O choro é livre. Os meninos só faltam morrer.
E as câmeras de televisão e as máquinas de fotografar e os
celulares estão lá, sempre às portas das escolas, e desta vez não foi
diferente, preparadas para registrar o momento em que os derradeiros
vestibulandos aterrissariam, suando a camisa para passar nas frestas apertadas
dos portões a se fecharem. Portões estes, por sinal, fechados lentamente pelos
porteiros e seguranças, que fazem de tudo também para acrescentar um pouco mais
de emoção ao entretenimento coletivo. Ser brasileiro é isso. Se não é você lá,
suando a camisa, já pode rir, tá permitido. E rimos mesmo.
Nenhum desses espectadores, todavia, com seus registros dos
atrasados, superará pelos próximos anos o jovem paranaense que chegou ao ponto
de levar para a porta de um colégio em Curitiba uma cerveja na mão e um isopor
sobre o qual se sentar. E ali ficou, rindo e admirando o show de atrasados
esbaforidos que aportavam no último minuto para realizar a prova.
Os repórteres, por ali também, atiçando e promovendo o mesmo
entretenimento a que assistia o jovem, aproveitaram o inusitado arranjo e foram
entrevistar o rapazote que se divertia à custa do desespero dos vestibulandos.
Ele então declarou que pretende fazer do show uma tradição,
apanhar suas cervejas, seu isopor, trazer mais amigos. E tem ENEM todo ano,
diversão é que não vai faltar. “Quero ver a galera correndo, se descabelando”,
ele afirmou em entrevista concedida ao portal da UOL.
Bem. Não há muito o que ser dito, há? Enquanto uns choram,
outros se divertem... E assim a vida vai. Mas fica aqui a dúvida: como será que
estava nosso jovem observador no dia em que ele mesmo teve de prestar seu
vestibular?
Se a brasilidade está para a molecagem, bom pensar que, hoje,
pode ser você sofrendo as dores e as misérias dos exames e da passagem para a
vida adulta... Mas, um dia, você terá crescido, tudo isso ficará para trás,
superado. E, mesmo que não cresça, ainda assim sempre restará a possibilidade
de apanhar a cervejinha, o cooler, e se entreter um pouco com a afoiteza
alheia, à porta da escola, no dia do Enem, pelo que promete ser diversão
garantida ao longo dos anos que vêm.
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