“Meu coração é público, senhores!
É como o botequim dali da esquina.
À turba não ilude.
Sempre há de ter lugar aos sofredores,
pois, sendo núcleo da mais triste sina,
tem calma e tem virtude.”
É como o botequim dali da esquina.
À turba não ilude.
Sempre há de ter lugar aos sofredores,
pois, sendo núcleo da mais triste sina,
tem calma e tem virtude.”
Arthur Nery Marinho-
Um poeta em destaque
Sempre procurando
montar um acervo grandioso e com nomes de cidadãos amapaenses, esmiuçamos os
blogs, portais, redes sociais e vamos encontrando preciosidades esquecidas nas
entranhas da historia do Amapá. Essa garimpagem nos trouxe uma homenagem da
escritora, poetisa e jornalista Alcinéia Cavalcante, ao Poeta, músico, jornalista e desportista,
Arthur Nery Marinho nasceu em Chaves (PA), em 1923, mas aos 23 anos de
idade veio para o Amapá e nunca mais saiu daqui. Cantou, tocou e escreveu as
coisas desta terra como se fosse a sua terra natal. (Reinaldo Coelho)
Alcinéa Cavalcante
O poeta Arthur Nery
Marinho faz parte da primeira geração dos modernos poetas do Amapá. Nascido em
Chaves (PA), em 27 de setembro de 1923, veio para o Amapá em 1946. Ao lado de
Alcy Araújo Cavalcante, Álvaro da Cunha, Aluízio Cunha e Ivo Torres, Arthur
desenvolveu importantes projetos culturais.
Está na Antologia Modernos Poetas do Amapá, na enciclopédia Brasil e Brasileiros de Hoje, na Grande Enciclopédia da Amazônia e na Coletânea Amapaense de Poesia e Crônica.
Foi vice-presidente da Sociedade Artística de Macapá, diretor do Jornal Amapá, presidente da Federação Amapaense de Desportos (hoje FAF) e sócio-fundador da Sociedade Esportiva e Recreativa São José e do Grêmio Literário e Cívico Ruy Barbosa.
Está na Antologia Modernos Poetas do Amapá, na enciclopédia Brasil e Brasileiros de Hoje, na Grande Enciclopédia da Amazônia e na Coletânea Amapaense de Poesia e Crônica.
Foi vice-presidente da Sociedade Artística de Macapá, diretor do Jornal Amapá, presidente da Federação Amapaense de Desportos (hoje FAF) e sócio-fundador da Sociedade Esportiva e Recreativa São José e do Grêmio Literário e Cívico Ruy Barbosa.
“Que saibam pois,
meus filhos, sem sigilo,
que fui isto, fui isso e fui aquilo,
porque não tive o dom de ser lacaio”
que fui isto, fui isso e fui aquilo,
porque não tive o dom de ser lacaio”
Compadre de meus
pais, Arthur Nery Marinho frequentava muito nossa casa. Lembro-me que quando eu
era criança eu ficava boquiaberta ouvido-o declamar suas poesias para minha vó
Elvira Araújo.
Nossa casa tinha uma grande varanda, onde minha vó, paralítica, passava a maior parte do dia em sua cadeira de rodas rezando, cerzindo, lendo, fazendo crochê… o poeta chegava, cumprimentava-a e começava a declamar (outro que costumava fazer isso era o Cordeiro Gomes, mas em outro post eu conto). Eu corria para ouvi-lo e a poesia que eu mais gostava era Auto-Retrato, que está publicada no livro Sermão de Mágoas. Ele dava tanta vida ao poema que eu, na inocência da infância, jurava que ele tinha o corpo todo marcado de cicatrizes.
Uma das imagens que ficou gravada é o poeta levantando a barra da calça ao dizer o verso “E por toda parte a perna cortada.” Eu arregalava os olhos na tentativa de ver os golpes em sua perna e morria de pena dele. “Isso deve doer muito”, pensava.
Só na adolescência fui entender o Auto-Retrato do poeta.
Nossa casa tinha uma grande varanda, onde minha vó, paralítica, passava a maior parte do dia em sua cadeira de rodas rezando, cerzindo, lendo, fazendo crochê… o poeta chegava, cumprimentava-a e começava a declamar (outro que costumava fazer isso era o Cordeiro Gomes, mas em outro post eu conto). Eu corria para ouvi-lo e a poesia que eu mais gostava era Auto-Retrato, que está publicada no livro Sermão de Mágoas. Ele dava tanta vida ao poema que eu, na inocência da infância, jurava que ele tinha o corpo todo marcado de cicatrizes.
Uma das imagens que ficou gravada é o poeta levantando a barra da calça ao dizer o verso “E por toda parte a perna cortada.” Eu arregalava os olhos na tentativa de ver os golpes em sua perna e morria de pena dele. “Isso deve doer muito”, pensava.
Só na adolescência fui entender o Auto-Retrato do poeta.
Cresci, fiquei
adulta, meus pais se separaram, morreram e meu contato com o poeta foi
rareando. Mas nas poucas vezes que nos encontramos após a morte de meu pai
sentia o enorme carinho que ele tinha por mim e isso me fazia muito feliz.
“Se alguém me
pergunta onde é que moro,
prego mentira e de vergonha coro,
pois não moro nem dentro de mim mesmo”
prego mentira e de vergonha coro,
pois não moro nem dentro de mim mesmo”
Poucas vezes estive
na casa dele. Era uma casinha tão aconchegante, na rua mais tranquila do bairro
Jacaré-acanga, bem na frente de uma pracinha. Pensava com meus botões: todo
poeta deveria morar num lugar assim, onde há paz, verde, crianças jogando bola,
gente enamorada e canto de passarinhos. Uma das vezes que estive lá foi para
convidá-lo a sair na escola de samba Unidos do Buritizal, em 1992, cujo enredo
era “Alcy Araújo – o poeta do cais”. Fazia pouco tempo que Arthur tinha passado
por uma delicada cirurgia na cabeça. Mas mesmo assim ele topou. Enfrentou o
desafio de ir para a avenida, sambar em homenagem ao compadre, na comissão de frente
da escola que estreava no carnaval. E estreou em alto estilo: foi a
vice-campeã.
Outras vezes
encontrei-o à sombra da “mangueira da Sead”. Ele costumava dar uma paradinha
ali quando ia falar com os secretários de Estado em busca de apoio para a publicação
do livro “Sermão de Mágoa”. E foi ali, embaixo daquela mangueira, numa manhã de
sol bochechudo e céu azulzinho de 1993, que ele me deu a boa notícia:
finalmente Sermão de Mágoa ia ser publicado. Já estava no prelo. Vibrei. E foi
também embaixo da mangueira que ele me deu um exemplar do livro tão logo saiu
da gráfica, antes do lançamento.
“Quero sonhar que
vou pelos caminhos
jogando rosas, destruindo espinhos,
deixando luz em cada escuridão”
jogando rosas, destruindo espinhos,
deixando luz em cada escuridão”
Arthur Marinho
tocou no coreto da antiga Praça da Matriz. Num de seus poemas relembra assim:
“Da igreja o velho coreto
eu avisto, neste ensejo.
Do mestre Oscar vejo a banda
e lá na banda eu me vejo.”
“Da igreja o velho coreto
eu avisto, neste ensejo.
Do mestre Oscar vejo a banda
e lá na banda eu me vejo.”
Em 1993 publicou o
livro de poesias “Sermão de Mágoa”. Morreu em 24 de março de 2003 e alguns
meses após sua morte a Associação Amapaense de Escritores fez o lançamento do
livro de poemas e trovas “Cantigas do Meu Retiro”.
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