Vale uma curtida mais que mil palavras?
Dia desses uma amiga minha comentava
comigo o fato de que esta geração tecnológica vendeu sua vida à cultura dos
likes, ou seja, às curtidas no Facebook. Acontece que, ao ter ela postado
on-line um texto no Facebook, de conteúdo todo engajado e militante, esperava
que uma de suas professoras favoritas curtisse o manifesto, o que acabou não
acontecendo.
Minha amiga então enfrentou uma
grande crise existencial. De repente tudo se tornou a avidez de investigar o
motivo pelo aquele texto, tão maravilhoso, tão potencialmente atraente à
professora de sua admiração, não tinha alcançado o like tão desejado. Teria a
professora visto? Teria a professora discordado dos pontos de vista nele
defendidos? Não era possível! Minha amiga reproduzira, segundo me contou, ao
longo de sua argumentação, quase que exatamente as mesmas opiniões
compartilhadas pela professora a que ela tanto adorava.
Veio então conversar comigo,
queixosa, para em seguida dar-se conta, finalmente, de como as nossas vidas
estão projetadas já ao extremo para se chancelarem e justificarem através das
respostas que nossos posts recebem na Internet. E concordei. Eu mesma, quando
coloco um texto em qualquer rede social, sinto meu coração se expandir e
derreter a cada curtida que recebo. É um exercício de vaidade que pode ser
perigoso.
Minha amiga chegou então à conclusão
de que era melhor começar a dosar sua obsessão para com a professora tão
admirada, e quem sabe assim recuperar o controle sobre a própria vida. Mas o
melhor ainda estava por vir.
Acontece que essa professora, de
fato, viu o texto. Ao encontrar minha amiga, pessoalmente, em algum evento
frequentado pelas duas, comentou que lera o pequeno manifesto e o achara
divino. Minha amiga, assim, alegrou-se, é claro. Mas, ao voltar para casa,
pensando e pensando... Foi abatida pela tristeza: "Mas por que é que,
afinal, ela não curtiu?!".
Quando me contou desse último drama,
morremos de rir, ante o absurdo que as redes sociais introjetaram em nossas
relações. Mesmo depois do declarado apreço da professora, da troca de ideias,
do contato pessoal com a mestre amada, minha amiga, ainda assim, permanecia na
angústia do like que não veio.
É... Parece que nem mesmo um elogio
feito pessoalmente, no tête-à-tête, vale mais do que o muitas vezes indiferente
e distraído like que ganhamos nas redes sociais. Terá isto cura? O peso da
significação que atribuímos a tudo o que acontece nas redes sociais? Fica aí o
mistério. E espero que as próximas gerações consigam se livrar deste mal que já
assola a todos nós.
Nenhum comentário:
Postar um comentário