sexta-feira, 6 de novembro de 2015

ARTIGO José Alberto Tostes

Cidades Flexiexistencialistas
Autor: José Alberto Tostes

            Todos os anos, vou a Portugal participar de uma série de atividades acadêmicas e cientificas nas universidades de Coimbra, Porto e Lisboa. Um dos pontos quase obrigatório é ir a Livraria da Ordem dos Arquitetos, localizada próxima ao Mercado da Ribeira e do Cais do Sodré, área turística com bastante movimentação. Nesta missão procuro adquirir diversos livros, de preferência em outras línguas, além do português. Nesta viagem encontrei um livro bem interessante para aguçar a curiosidade sobre um tema não muito recorrente, chama-se: Cidades Flexiexistencialistas, por si só, já gera um conjunto de interpretações, até começar ler o livro.
            Cidades Flexiexistencialistas aborda um conjunto de outros temas assim destacados:  A cidade desapareceu; Cidades flexíveis; Espaço urbano em festa; A cidade digital substitui a cidade analógica; Super cidades(lugares, não lugares e lugares banais); Cidades tácteis; Deus nas cidades; Cidades: da imagem mental ao espaço público; Esquinas de fumo; A cidade e o tempo; Impérios vazios; Desabafo citadino; Nova cidade velha e Um futuro anunciado no presente da cidade e o sentir.
            Como se nota pelos temas, a perspectiva é discutir a cidade sobre um prisma mais interior, mais existencial, sem dúvida que a literatura sobre cidades evoluiu muito nas duas últimas décadas, são interpretações de todos os tipos e olhares: educacional, filosófica, econômica, semiótica, religiosa, política, transgressora, digital, são inúmeras e múltiplas as possibilidades de pensar a cidade sobre um conjunto de aparatos que nos induz a perceber o lugar, sempre de outra forma, o olhar natural de cada um está atraído  por questões puramente morfológicas, ou seja, física, assim reside nossa percepção sobre a paisagem como todo, inclui o mobiliário urbano e pessoas, porém, pensar a cidade sobre questões existenciais nos coloca em primeiro plano para discutir  nossa relação mais intima com o nosso entorno.
             A primeira mirada sobre o livro Cidades Flexiexistencialistas nos leva a pensar em pura filosofia sobre o ambiente citadino, todavia, o texto nos convida a outro caminho, conceber questões que não estão vislumbradas cotidianamente. Na orelha do livro está descrito um texto: “A Cidade Flexiexistencialista, cuja investigação requer percepcionar as condições contemporâneas de vivenciação da cidade e das suas urbanidades, nas sucessivas questões dos lugares comuns e banais, das áreas históricas cristalizadas. A rapidez da história e também a urgência do pensamento, da ação, da atitude, da vontade de saber que a cidade é a mãe de toda a civilização Seja como for, a cidade comanda a história e a sua capacidade de gerar o lar dos cidadãos, merece a reflexão devida.”
             De acordo com o organizador do livro, “a compilação dos textos em Cidade Flexiexistencialista aborda e reconhece diferentes questões ligadas à manifestação da urbanidade numa idade propicia à mudança, violenta e incontrolável, face às revoluções tecnológicas, econômicas, sociais, gastronômicas e musicais. Tudo altera a cidade e a fortalece, embora às vezes digamos que não nos agrada, a sua flexi adaptabilidade e capacidade de sedução, faz com que seja cada vez mais poderosa e atrativa. Viciante. É este o pressuposto da flexiexistência, não vergar, vingar, triunfar. Viva cidade.”
             Neste artigo relativamente curto não seria possível expressar todo o conteúdo do livro, mas separei alguns fragmentos importantes que despertam no nosso interior as múltiplas interpretações sobre o nosso ambiente citadino. No tema: A cidade desapareceu, o autor define algo interessante sobre como historicamente à cidade desapareceu, na transição histórica evoluiu todo o processo de deslocamento, seja de carro, de avião ou de qualquer outro meio de transporte, criou-se a diversificação cultural, ampliou-se a dimensão em detrimento da escala, define com clareza o nascimento de uma nova ordem. Na periferia das grandes urbes não se fala mais em cidade pela ausência de referencias, o tema está muito vinculado às questões de desterritorialização, não no sentido geográfico, mas de transição sobre como se criou novos paradigmas.
             No tema, Espaço urbano em festa correlaciona, a festa é uma atividade de exceção que vai acontecer num espaço pré-existente ou construído para esse fim de que ela se apropria e transforma temporariamente. Contudo o espaço de festa vai também desenhando a cidade e condicionando o desenvolvimento dos núcleos urbanos através da tensão periférica; dos vazios-tampão; da construção de estruturas e infraestruturas; da qualificação dos espaços e ainda como laboratório da arquitetura onde se experimenta materiais, técnicas e linguagens formais.
             Na cidade digital que substitui a cidade analógica, está descrito na imagem da máquina associada, frequentemente, a um movimento de vanguarda que propõem conceitos inovadores da forma de conceber e de habitar cidades. A máquina tornou-se um pretexto para os profissionais, o que tornou a cidade muitas vezes em um espaço fictício e imaginário se contrapondo ao real.
            As Super cidades aborda, a cidade é global, é uma cidade supra histórica, onde a velocidade de construção e transformação converte as boas intenções em oportunidades perdidas. A capacidade de gerar lugares é afetada pela incapacidade de consolidação temporal da historia. Os Não lugares e os lugares Comuns grassam pela ausência de sedimentação da cultura social e pelos desajustes das premissas de vivência com a revolução dos transportes e comunicações.
             As Cidades tácteis, pensar arquitetura é, sobretudo pensar a cidade. Hoje arquitetura é vista como produtora de objetos e de imagens sedutoras. Deveria pelo contrário, promover a arquitetura de concepção reflexiva, logo de resultado silencioso. As cidades devem ter, de nos fazerem sentir comodamente acolhidos e integrados, deve ser condição primeira dos projetos promotores de cidadania.
             Deus nas cidades é uma abordagem sobre a cidade ocidental que tem sido alvo de diversas intervenções teóricas ao longo da história, mais enquanto objeto material do que objeto emocional; não fará muito sentido repensar a cidade propondo um tecido social pensado ou imaginado, já que existe ou existiu – é a partir deste que a cidade deverá ser repensada. Assim, fica a ideia da cidade deve ser refletida sobre uma memória social.
            Cidades: Da imagem ao espaço público, é preciso pensar e projetar contemporaneamente a cidade, num mundo em constante evolução. A resposta a esta questão assume cada vez mais a dimensão do ato cirúrgico numa redefinição e cozimento das partes, das várias cidades dentro da estrutura urbana global. Esta atitude gera o rumo a uma nova definição?
             Outros temas propostos no livro como: Esquina do fumo; A cidade de o tempo; Impérios vazios; Desabafo citadino; Nova cidade velha; Um futuro anunciado no presente da cidade e o sentir enfatizam um ponto importante para todos nós à capacidade que temos de interpretar, reinterpretar os valores contidos no espaço da cidade. Somos os agentes das mudanças e protagonistas do próprio espaço. No tema sobre o Futuro anunciado está descrito: “Herdamos um pedaço de história difícil e complexo, como outros terão herdado noutros tempos, em outras circunstâncias... Herdamos milhares de anos de civilizações e um último século e meio de plena aceleração. Aceleração tal que nos coloca, agora, para além da mesma. Herdamos cidades trespassadas nos seus limites, na sua identidade. Herdamos perplexidades e agora é o nosso tempo. O que fazer?”
             Portanto, o livro: Cidades Flexiexistencialista é uma provocação, importante, necessária, vivemos um momento contemporâneo de duvidas e incertezas sobre a qualidade do território urbano onde estamos inseridos, são crises de planejamento, de gestão, de ideias e de convicções. Certamente pensar a cidade sob o prisma de múltiplas interpretações nos auxilia a redimensionar inúmeros estágios e ações futuras, mas que obviamente estamos diante de cenários provocadores, para tal, torna-se necessário ir além da mesmice, de pensar a cidade sem reinventa-la.


             

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