Cidades Flexiexistencialistas
Autor: José Alberto Tostes
Todos os anos, vou a Portugal
participar de uma série de atividades acadêmicas e cientificas nas
universidades de Coimbra, Porto e Lisboa. Um dos pontos quase obrigatório é ir
a Livraria da Ordem dos Arquitetos, localizada próxima ao Mercado da Ribeira e
do Cais do Sodré, área turística com bastante movimentação. Nesta missão
procuro adquirir diversos livros, de preferência em outras línguas, além do
português. Nesta viagem encontrei um livro bem interessante para aguçar a
curiosidade sobre um tema não muito recorrente, chama-se: Cidades
Flexiexistencialistas, por si só, já gera um conjunto de interpretações, até
começar ler o livro.
Cidades Flexiexistencialistas
aborda um conjunto de outros temas assim destacados: A cidade desapareceu; Cidades flexíveis;
Espaço urbano em festa; A cidade digital substitui a cidade analógica; Super
cidades(lugares, não lugares e lugares banais); Cidades tácteis; Deus nas
cidades; Cidades: da imagem mental ao espaço público; Esquinas de fumo; A
cidade e o tempo; Impérios vazios; Desabafo citadino; Nova cidade velha e Um
futuro anunciado no presente da cidade e o sentir.
Como se nota pelos temas, a
perspectiva é discutir a cidade sobre um prisma mais interior, mais
existencial, sem dúvida que a literatura sobre cidades evoluiu muito nas duas
últimas décadas, são interpretações de todos os tipos e olhares: educacional,
filosófica, econômica, semiótica, religiosa, política, transgressora, digital,
são inúmeras e múltiplas as possibilidades de pensar a cidade sobre um conjunto
de aparatos que nos induz a perceber o lugar, sempre de outra forma, o olhar natural
de cada um está atraído por questões
puramente morfológicas, ou seja, física, assim reside nossa percepção sobre a
paisagem como todo, inclui o mobiliário urbano e pessoas, porém, pensar a
cidade sobre questões existenciais nos coloca em primeiro plano para discutir nossa relação mais intima com o nosso entorno.
A primeira mirada sobre o livro
Cidades Flexiexistencialistas nos leva a pensar em pura filosofia sobre o
ambiente citadino, todavia, o texto nos convida a outro caminho, conceber
questões que não estão vislumbradas cotidianamente. Na orelha do livro está descrito
um texto: “A Cidade Flexiexistencialista, cuja investigação requer percepcionar
as condições contemporâneas de vivenciação da cidade e das suas urbanidades,
nas sucessivas questões dos lugares comuns e banais, das áreas históricas
cristalizadas. A rapidez da história e também a urgência do pensamento, da
ação, da atitude, da vontade de saber que a cidade é a mãe de toda a
civilização Seja como for, a cidade comanda a história e a sua capacidade de
gerar o lar dos cidadãos, merece a reflexão devida.”
De acordo com o organizador do
livro, “a compilação dos textos em Cidade Flexiexistencialista aborda e
reconhece diferentes questões ligadas à manifestação da urbanidade numa idade
propicia à mudança, violenta e incontrolável, face às revoluções tecnológicas,
econômicas, sociais, gastronômicas e musicais. Tudo altera a cidade e a
fortalece, embora às vezes digamos que não nos agrada, a sua flexi
adaptabilidade e capacidade de sedução, faz com que seja cada vez mais poderosa
e atrativa. Viciante. É este o pressuposto da flexiexistência, não vergar,
vingar, triunfar. Viva cidade.”
Neste artigo relativamente curto
não seria possível expressar todo o conteúdo do livro, mas separei alguns
fragmentos importantes que despertam no nosso interior as múltiplas
interpretações sobre o nosso ambiente citadino. No tema: A cidade desapareceu,
o autor define algo interessante sobre como historicamente à cidade
desapareceu, na transição histórica evoluiu todo o processo de deslocamento,
seja de carro, de avião ou de qualquer outro meio de transporte, criou-se a diversificação
cultural, ampliou-se a dimensão em detrimento da escala, define com clareza o
nascimento de uma nova ordem. Na periferia das grandes urbes não se fala mais
em cidade pela ausência de referencias, o tema está muito vinculado às questões
de desterritorialização, não no sentido geográfico, mas de transição sobre como
se criou novos paradigmas.
No tema, Espaço urbano em festa
correlaciona, a festa é uma atividade de exceção que vai acontecer num espaço pré-existente
ou construído para esse fim de que ela se apropria e transforma
temporariamente. Contudo o espaço de festa vai também desenhando a cidade e
condicionando o desenvolvimento dos núcleos urbanos através da tensão
periférica; dos vazios-tampão; da construção de estruturas e infraestruturas;
da qualificação dos espaços e ainda como laboratório da arquitetura onde se
experimenta materiais, técnicas e linguagens formais.
Na cidade digital que substitui a
cidade analógica, está descrito na imagem da máquina associada, frequentemente,
a um movimento de vanguarda que propõem conceitos inovadores da forma de
conceber e de habitar cidades. A máquina tornou-se um pretexto para os
profissionais, o que tornou a cidade muitas vezes em um espaço fictício e
imaginário se contrapondo ao real.
As Super cidades aborda, a cidade é
global, é uma cidade supra histórica, onde a velocidade de construção e
transformação converte as boas intenções em oportunidades perdidas. A
capacidade de gerar lugares é afetada pela incapacidade de consolidação
temporal da historia. Os Não lugares e os lugares Comuns grassam pela ausência
de sedimentação da cultura social e pelos desajustes das premissas de vivência
com a revolução dos transportes e comunicações.
As Cidades tácteis, pensar
arquitetura é, sobretudo pensar a cidade. Hoje arquitetura é vista como
produtora de objetos e de imagens sedutoras. Deveria pelo contrário, promover a
arquitetura de concepção reflexiva, logo de resultado silencioso. As cidades
devem ter, de nos fazerem sentir comodamente acolhidos e integrados, deve ser
condição primeira dos projetos promotores de cidadania.
Deus nas cidades é uma abordagem sobre a
cidade ocidental que tem sido alvo de diversas intervenções teóricas ao longo
da história, mais enquanto objeto material do que objeto emocional; não fará
muito sentido repensar a cidade propondo um tecido social pensado ou imaginado,
já que existe ou existiu – é a partir deste que a cidade deverá ser repensada.
Assim, fica a ideia da cidade deve ser refletida sobre uma memória social.
Cidades: Da imagem ao espaço
público, é preciso pensar e projetar contemporaneamente a cidade, num mundo em
constante evolução. A resposta a esta questão assume cada vez mais a dimensão
do ato cirúrgico numa redefinição e cozimento das partes, das várias cidades
dentro da estrutura urbana global. Esta atitude gera o rumo a uma nova
definição?
Outros temas propostos no livro
como: Esquina do fumo; A cidade de o tempo; Impérios vazios; Desabafo citadino;
Nova cidade velha; Um futuro anunciado no presente da cidade e o sentir
enfatizam um ponto importante para todos nós à capacidade que temos de
interpretar, reinterpretar os valores contidos no espaço da cidade. Somos os
agentes das mudanças e protagonistas do próprio espaço. No tema sobre o Futuro
anunciado está descrito: “Herdamos um pedaço de história difícil e complexo,
como outros terão herdado noutros tempos, em outras circunstâncias... Herdamos
milhares de anos de civilizações e um último século e meio de plena aceleração.
Aceleração tal que nos coloca, agora, para além da mesma. Herdamos cidades
trespassadas nos seus limites, na sua identidade. Herdamos perplexidades e
agora é o nosso tempo. O que fazer?”
Portanto, o livro: Cidades
Flexiexistencialista é uma provocação, importante, necessária, vivemos um
momento contemporâneo de duvidas e incertezas sobre a qualidade do território
urbano onde estamos inseridos, são crises de planejamento, de gestão, de ideias
e de convicções. Certamente pensar a cidade sob o prisma de múltiplas
interpretações nos auxilia a redimensionar inúmeros estágios e ações futuras,
mas que obviamente estamos diante de cenários provocadores, para tal, torna-se
necessário ir além da mesmice, de pensar a cidade sem reinventa-la.
Nenhum comentário:
Postar um comentário