O HEROÍSMO NO ABANDONO.
Este texto foi copiado da revista Arautos do
Evangelho, janeiro 2015, nº 157, de autoria da freira Irmã Juliana Montanari,
EP, muito mais pela importância contextual e, privilegiadamente, pela passagem
do Dia de Finados, 2/11. O texto traz uma proposta de profunda reflexão sobre a
temporalidade do ser humano como depositário da matéria chamada “ corpo “,
enquanto ser vivo, e da albergação do espírito, comumente titulado de “ alma “.
O texto começa assim : “ Nossa vida
apresenta situações semelhantes as que ocorrem a um navio: somos sacudidos por
ventos e tempestades, e até podemos começar a naufragar... “ Essa chamada quer
levar-nos a entender os mistérios que envolvem “ nascimento “ e “ morte “, ou “
partidas e chegadas “ , na relação Criador e Criatura, onde nosso entendimento
é comparado a um grão de mostarda quando comparado à luz da Eternidade.
Continua o texto : “ As ondas banham a praia numa manhã fresca, quando o Sol
desponta refletindo-se nas águas e dando-lhes um brilho singular.Quantos fatos
admiráveis e misteriosos já ocorreram no mar, este maravilhoso tapete de
esmeraldas e topázios, com o qual Deus quis cobrir dois terços de nosso
planeta.
No cais, um grande navio com a proa
voltada para o oceano parece desafiá-lo, qual corajoso soldado ante o
perigo. Os tripulantes acenam para os
que ficam e preparam-se para a longa
viagem. Em certo momento soltam-se as amarras e a nau começa seu percurso.
Passadas algumas horas, céu e mar encontram-se no horizonte e não é mais
possível ver terra firme. A embarcação, antes imponente, agora parece um
simples e frágil brinquedo das ondas. Contudo,
é nessas circunstâncias que transparece inteiramente a beleza misteriosa
da navegação.
Sozinho em meio àquela vastidão, o navio
recebe as investidas das impetuosas vagas que ameaçam naufragá-lo, mas
mantém-se firme na sua direção; é balouçado pelos ventos das tempestades, e não
se deixa soçobrar. Não obstante, se a partida de uma embarcação suscita
entusiasmo nos corações idealistas, por evocar a glória daqueles que, com
galhardia, lançam-se no risco rumo a novas conquistas, não menos digno de
admiração é o seu regresso ao porto, pois carrega atrás de si as façanhas da
empresa. Não é verdade que, depois de uma arriscada travessia, o navio lembra um guerreiro que
ganhou uma batalha e merece o prêmio da vitória?
Ora, nossa vida também apresenta
situações semelhantes as que ocorrem a um navio. Já na aurora de seus dias, o
Homem lança-se ao mar das incertezas deste mundo, em busca da felicidade. Não a
encontrando, navega errante e, a certa altura do percurso, sente-se solitário.
Julga estar abandonado por todos, ao bel-prazer das ondas traiçoeiras que, ao
invés de proporcionarem-lhe a alegria que falsamente prometem, só lhe aumentam
a frustração. É sacudido pelos ventos das tentações, pelas tempestades dos
problemas e dificuldades, e até mesmo começa a naufragar...
Que devemos fazer para não afundar em
meio ao mare magnum de tribulações que é a vida humana, marcada
pelo pecado original? Juntar as mãos e rezar a Deus com confiança, pois é no
abandono a sua proteção que os ventos e as ondas acalmam-se, nas nuvens afastam-se e o Sol
torna a brilhar. Quando formos assaltados pela impetuosa maré das provações e
dos reveses, lembremo-nos de que Deus permite passarmos por tais situações,
desejoso de que busquemos n’Ele nossa segurança. Se soubermos abandonarmo-nos
em suas mãos, como filhos amorosos, receberemos as forças necessárias para
transpor fiel e valorosamente os piores vagalhões de nossa vida. E quando
chegarmos ao porto celeste, receberemos do Divino Capitão a cora de glória
reservada aos vencedores, aos que deram tudo, aos que foram heróis “.
É realmente profunda essa mensagem, vez
que nossas partidas são os caminhos que escolhemos ao livre arbítrio das nossas
convicções. A viagem até Ele começa com
o nascimento com vida do ser humano e, após o domínio da razão, faz sua escolha
de como caminhar e, apoiado pelo cajado da Fé, mostra-se capaz de reconhecer
que o último degrau da escada escolhida é a morte física do corpo,
desprendendo-se o Espírito que volta ao Criador, realizando-se o cumprimento do
Evangelho : Tú és pó e ao pó voltarás “.
A partir da decisão e da escolha que
fazemos, nossa vida é o navio que poderá estar ancorado no porto ou singrando
os mares desafiadores do nosso destino.
O certo é que um dia, nosso navio aportará para sempre. É esse momento que não
conseguimos compreender ou aceitar, não
importando a forma se mais ou menos traumática ou dolorosa. Não aceitamos e,
assim fazendo, estamos sujeitos ao julgamento à Luz da Eternidade.
A morte não é a última palavra sobre o
destino humano, porque o Homem está destinado a uma vida sem limites, que
encontra a sua raiz e o seu cumprimento em Deus.
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Para reflexão semanal
: “ Nossa vida é uma viagem, por isso devemos desejar felicidades aos que
partem e alegrarmo-nos com os que chegam “.
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