ECONOMIA
Varejistas com criatividade enfrentam a crise econômica
Quando há desaceleração da atividade econômica no país,
todos sofrem o impacto, seja pelo efeito de redução dos repasses ou pelo efeito
das cadeias produtivas organizadas. O impacto é maior nos grandes centros
industriais, porém, nos municípios mais pobres que já convivem com a
insuficiência de recursos, qualquer corte torna a realidade ainda mais
perversa.
Reinaldo Coelho
Todos, quase todos, sabem que a atual crise
econômica brasileira teve início com o descalabro do governo federal ao (mal)
administrar a economia nacional. Com um Pacto Federativo que favorece o governo
central na divisão do bolo financeiro, aonde a maior fatia vai para a “gula” do
Palácio do Planalto, ocupado há 13 anos pelo Partido dos Trabalhadores (PT).
Enquanto isso, os governos estaduais e
municipais recebem as migalhas da mesa de banquete descontrolado e ficam com o
“prato da sobremesa” vazio nas mãos. E é nos municípios que a crise mostra suas
garras, com o desemprego e empresas e o comércio fechando suas portas. O aumento
dos impostos seguidos tem levado o empresário a transferir ao consumidor os
custos e este vai fazendo o jogo de cintura para sobreviver com um salário
corroído diariamente pela inflação.
| MUITOS PEQUENOS COMERCIANTES ESTÃO FALINDO |
Questões antigas que pesam
nos custos das empresas, como a carga tributária, preço dos aluguéis, mão de
obra, foram agravados pela redução do emprego, inflação em alta e pela menor
confiança do brasileiro, que acompanha a alta da inflação e com isso o
empresariado está reduzindo gastos.
| MICROEMPRESÁRIOS FECHANDO AS PORTAS |
O varejo passa por uma das situações mais
difíceis dos últimos anos. Há muitas lojas fechando em bairros de todas as
classes sociais. Tudo isso se insere dentro do ambiente econômico em que
estamos vivendo, que já mostrava fraqueza desde 2013. Enquanto o brasileiro não
sentiu o desemprego na sua casa ou na proximidade dela, foi no embalo do
consumo, que começou em 2006.
O país viveu durante anos uma situação que
foi sendo empurrada com a barriga pelo governo. A população não enxergou o
desemprego de forma explícita e foi tocando a vida até que, em 2015, a crise
que a presidente Dilma diz que não via, se mostrou com toda a força.
E o brasileiro que estava feliz com as
conquistas sociais e que acessou um degrau na pirâmide social, está retornando
uma casa neste jogo impiedoso, ou se equilibrando na atual. Hábitos estão
mudando, pois a crise econômica que atinge praticamente todos os setores da
economia e não excluiu a alimentação fora de casa.
Somente no segundo semestre de 2014 os
comerciantes começaram a se dar conta de que haveria uma inflexão da curva. Em
dezembro, o desempenho do comércio foi muito ruim (queda de 2,6% em relação a
novembro de 2014, a primeira queda após quatro meses consecutivos de expansão,
segundo o IBGE).
Setores poupados e os mais atingidos
De acordo com o economista e consultor,
Nelson Barrizzelli, as grandes redes de varejo atravessarão mais facilmente a
crise. Já os pequenos lojistas, preocupados com preços, não aprenderam a
conhecer melhor a clientela.
“Os setores menos atingidos são o de alimentos e os
ligados à saúde, até porque ninguém pode deixar de comer e de tomar remédio. Todos
os demais foram atingidos em níveis diferentes. Os produtos mais baratos
continuam sendo comprados, como roupas e calçados populares. Nesses setores, a
retração de consumo parece ser menos evidente”.
Os setores de móveis, eletroeletrônicos e
automóveis são os que mais sofrem. Quem vai trocar o carro hoje é quem tem
algum dinheiro, como os pequenos empresários de regiões menos afetadas. As
regiões Norte, Nordeste e Centro-Oeste do país são mais resistentes à crise. As
regiões Sul e Sudeste já estão sendo mais afetadas.
O Tribuna Amapaense conversou com alguns
empresários que fecharam o ponto comercial recentemente. Os motivos são
diversos, mas, de modo geral, a queda do movimento acaba sendo fator comum e
decisivo. Depois de sete anos funcionando no Bairro Renascer, o restaurante Bom
Paladar esta encerrando suas atividades. “Os
preços das mercadorias subiram, as compras parceladas foram canceladas e a clientela
diminui drasticamente. Infelizmente temos de fechar”, lamenta o micro
empresário Batista Gomes.
Ele destaca outro efeito trazido pela crise,
a concorrência dos informais e até da comida de rua, sem regulamentação, pesam
ainda mais nos momentos de menor crescimento da economia. É o efeito cascata,
desemprego e o cidadão passa atuar na informalidade para angariar recursos para
manutenção da família.
Vendas caíram à metade
Setores específicos também sentiram o golpe
da crise. Álvaro Monteiro (38), tem uma loja de material de construções e diz
que as vendas caíram à metade neste ano.
Por conta da crise, ele conta que as vendas
fiadas passaram a ser rotina. "Às
vezes chega uma pessoa e pede fiado para levar o produto e é melhor vender
porque vamos receber um dia. Somos obrigados a usar caderninho, mesmo sem poder",
afirma.
Dono de uma mercearia na cidade, Claudinei
Vieira (36), diz que 40% do que vende é no fiado.
Fiado salva o mês
A doceira Cândida Silva (30), diz que a crise
apertou a família. "Antes, pagava
minhas dívidas sempre certinho no fim do mês, logo quando recebia, mas agora
passamos dois meses sem pagar. Se não fosse o fiado, estaríamos perdidos".
A dona-de-casa Joaquina Maria (48), conta que
passou a comprar fiado com mais frequência neste ano. "Não tem como comprar tudo, vou pegando e
pagando quando der", afirma.
"Se
pudesse, pagava tudo na hora, mas não tem como. Pior coisa do mundo é dever",
diz Carla Nascimento (22), que viu o marido perder parte de renda pela
diminuição dos "bicos" que fazia em casas do bairro onde moram.
Descontos é uma das saídas
Menos dinheiro no bolso, porém, mais poder
para negociar. Ao mesmo tempo em que os consumidores se assustam com os preços
altos dos produtos, há quem está se espantando diante de valores bem abaixo da
média que passaram a ser oferecidos pelo comércio.
Isso porque, no desespero de não ficar no
prejuízo e convencer o cliente a gastar, em plena a retração econômica, são
muitos os lojistas que passaram a “jogar pesado”. São smartphones mais em conta, roupas com descontos de até 70%,
aluguéis negociáveis, academias de ginástica mais acessíveis e até carros com
descontos de até R$ 8 mil.
Pelas ruas


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