quinta-feira, 12 de novembro de 2015

ENTRELINHAS


Um belo tapa na cara
Vários dos textos da coluna Entrelinhas iniciam com uma história e, a partir desta, desenvolve-se o tema. No caso específico deste texto, há uma inversão. Discorreremos sobre o tema primeiro e iremos à história depois. Duas razões levaram-me a essa decisão. Primeiro, a história, forte e bela, escrita por Kate Lane é verídica e apresenta descrições de ações, simplórias como um abraço, que a maioria de nós jamais conseguiria realizar. Segundo, o impacto que causa, inclusive com as conclusões da autora, merece ser o encerramento, e não a abertura de uma análise, por ser “um belo tapa na cara”.
Estamos sempre tentando entender como comportamo-nos na forma como o fazemos. Psicólogos, filósofos, sociólogos, economistas, entre outros, detiveram-se sobre essa questão e apresentam abordagens variadas. Antonio Ciampa, sob a égide da Psicologia, dedicou-se a estudar a identidade e fala sobre como podemos ter a vida negada. Entenda-se por vida, não aquela burocrática que se desenrola num suceder de horas, mas aquela que merece ser vivida, aquela que, em geral, perdemos nas horas do dia a dia. Isso vale para todos, dos mais bem situados no mundo do capital, com suas mansões enormes e todos os produtos de que podem desfrutar, àqueles que sequer sabem o que vão comer no dia seguinte.
Ciampa deixa claro que a identidade é configurada não como algo único, uma essência que devemos descobrir em cada um, mas exatamente o inverso disso. Identidade é metamorfose, é o conjunto de possibilidades de vir a ser. No entanto, ao vivermos, nossa identidade vai se cristalizando e restringindo possibilidades, na medida em que minha forma de ser conforma-se na estrutura social em que estou enredado. As ações que desempenhamos, por sua vez, podem tanto reproduzir quanto modificar essa mesma estrutura social. Pessoa e sociedade vão, portanto, construindo-se mutuamente sob essa condição relacional.
Assim, um gesto, uma fala, uma inação podem ser elementos que gerem novas possibilidades de vir a ser, novas identidades e, portanto, novas estruturas sociais. É na dinâmica do processo mútuo de transformação entre identidade individual e sociedade que estão as estruturas sociais erigidas e as possibilidades de transformação. Acostumamo-nos (fomos construídos socialmente) a agir de determinada forma, olharmos sob determinados ângulos, compreendermos o mundo a partir de certos prismas. Cristalizamos nosso modo de ser e passamos a classificar as coisas como certas ou erradas partindo dos referenciais estabelecidos. E, lutamos para impedir ou restringir que as mudanças venham, que a metamorfose venha, que nossas outras formas de ser venham. Estamos sempre impedindo a vinda do novo, de novas sociedades, de novos indivíduos, de novas formas de agir no mundo. Mas às vezes, de onde menos esperamos, daqueles que pensamos estar ajudando, vem um gesto, uma frase, que nos dá um belo tapa na cara e nos faz romper o cristalizado, mudar nosso quadro relacional e instituir novas possibilidades de ser. Em suma, nova vida! É sobre isso que a história de Kate Lane nos traz, nova vida que surge de uma palavra de cuidado que serve como um “sacode”, “um tapa na cara”.
Bem, dito isso, sem mais delongas (como gostam e cristalizaram os apresentadores), vamos ao “belo tapa na cara” relatado por Kate Lane:
Há cerca de um ano, eu voltava pra casa de bike quando resolvi parar na prainha pra dar um confere naquela cerveja gelada do 04. Tava estacionando a bike no poste quando uma menina chegou perto de mim e cantou um ponto em homenagem à Iansã que carrego nas costas. Negra, moradora de rua, magra, com um sujo vestido florido. Não tinha mais de 17. Disse se chamar Stefania, embora eu até hoje não saiba se ela é menino ou menina. Respeitei a identificação de gênero e engatei na conversa. Teve infância feliz na baixada, em Nova Iguaçu, foi feita de Santo aos 11, no terreiro onde a tia era Ekedi. A mãe, empregada doméstica, alcoólatra, faleceu pouco depois disso. Abusada pelo tio, meteu o pé no mundo. Tá na rua desde então. Dorme junto ao prédio da polícia federal. "Lugar seguro". Se vira pela zona portuária, "agora mais bem frequentada". De uns tempos pra cá, começou a usar craque, o que lhe levou a pouca gordura do seu magro corpo. 
Stefania é povo de rua e eu, como boa ateia, boêmia, admiradora da cultura popular, não deixo de lhe render homenagens, dando uns trocados, quando tenho, ou simplesmente um abraço de boa noite. E toda vez que me vê, lá vem ela cantando um ponto de Iansã.
Ontem, voltando pra casa, encontrei Stefania sentada no início da Rio Branco. Invisível na correria da hora do Rush. Sentia dores na barriga e estava pelando em febre. Não quis ir ao médico. Compramos Floratil e Tylenol. Tomou. Fez cara feia. Pensei nos meus filhos e vi, naquela cara feia de quem não quer tomar remédio, toda a criança que ela não pôde ser, toda a adolescência que lhe roubaram. Dei um abraço e ela disse:
- Ai, tu sempre me abraça! Depois vai ficar aí toda fedida!
Sorri e ela sorriu de volta. E foi uma das coisas mais tristes e bonitas que ouvi na vida. Uma preocupação boba que esfregava na minha cara nosso recorte de classe. Stefania dava uma rasteira no meu comunismo e me colocava no lugar privilegiado da burguesinha que anda pelas ruas da Mauá, oferecendo ajuda aos necessitados. Um abraço que revelava todo meu privilégio de ter moradia, trabalho e dignidade, enquanto ela não podia sequer tomar um banho. Um belo tapa na cara, dolorido e necessário, pra manter viva a consciência de classe.
E isso não me sai da cabeça: o capitalismo é uma merda. O capitalismo precisa acabar!


Autores: Kate Lane Costa de Paiva e Arley José Silveira da Costa

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