quinta-feira, 19 de novembro de 2015

José Alberto Tostes





“Sai agora daí, esse pessoal é nosso”
Autor: José Alberto Tostes

Entre as muitas experiências de trabalho vivenciadas nos municípios do estado do Amapá, existem inúmeros fatos para serem relatados. Daria para escrever um livro, ou quem sabe um romance sobre as características culturais de nossas cidades. São tantos relatos de gestores, servidores públicos ou cidadãos comuns que atestam de forma espontânea a maneira como ocorrem distintas situações.
Afirmei em diversos artigos que um dos lugares onde mais escrevi nos últimos anos foi sobre a cidade de Oiapoque. Neste lugar, sempre houve um farto material para ser relatado. Em aproximadamente 08 anos realizando pesquisas na cidade, as oportunidades de perceber as crenças, histórias, contos, relatos, e de fato, a “verdade” contada em forma de casos. A propósito, um funcionário da prefeitura, responsável pelo trabalho de fiscalização, narrou um episódio que reflete bem o que representa a relação de compadrio, amizade ou descaso com o interesse público:
“A equipe de fiscalização saiu para trabalhar. Entre uma via e outra, encontra-se uma irregularidade; imediatamente se prontifica a notificar os infratores. Em menos de 05 minutos, o chefe da operação recebe um telefonema do prefeito que diz ao mesmo, o seguinte: ”saia agora daí! Esse pessoal é gente nossa”. Tomado pelo impacto  se retira imediatamente.
A frase dita pela autoridade maior do município apenas coincidia ser dita na cidade de Oiapoque, poderia perfeitamente ser aplicada em qualquer cidade do estado do Amapá e do Brasil.
Durante o começo da minha carreira, trabalhei na Prefeitura de Macapá durante um período de 05 anos. Havia muitos relatos curiosos sobre a situação de servidores que eram colocados à margem da administração; o grupo afastado era denominado: “embaixo da mangueira”. Busquei informações sobre esse grupo. A finalidade era contar com algumas pessoas para compor a equipe de trabalho, pois faltava gente suficiente para atender as demandas na época. Foi então, que um diretor me chamou e disse: “ peça qualquer coisa, menos alguém que faça parte da turma debaixo da mangueira”. Este episódio mostrava o que era a face da política no serviço público municipal.
Na Câmara de Vereadores de Laranjal do Jari, em abril de 2007, iria apreciar a matéria sobre o Plano Diretor. Era uma sexta feira; chovia muito em Laranjal. Nossa equipe chegou à cidade por volta das 17 e 30 horas; a sessão estava prevista para 19 horas. Como toda equipe preparada para enfrentar este tipo desafio, chegamos pontualmente no local. Ao perceber as manifestações e o comportamento de cada um, que se apresentava distinto, a impressão que passava era de que nada do texto havia sido lido. Alguns ficavam mexendo no celular, no computador ou até cochilando de forma disfarçada. Pedi a minha equipe que gravasse tudo, para posteriormente, ser editado.
Uma passagem hilária aconteceu na cidade de Mazagão. Havia uma reunião na quadra da escola da cidade com cerca de 200 pessoas, quando um senador da República cumprimenta a todos e diz: “quero destacar entre os presentes, o vereador Calango, detentor de um grande número de filhos na cidade, parabéns! Você é um homem forte e de coragem”. Não foi para menos, todos os presentes no local riram bastante, daquele episódio. Os vereadores em muitos municípios adotam o nome de bicho.  É mais comum do que se pensa, temos de tudo: grilo, rato, mucura, calango, etc. A cidade de Oiapoque, como relatei, sempre tem sido fértil quando o assunto se trata de situações peculiares e distintas. Por ocasião do segundo seminário do Plano Diretor, em maio de 2009, um fato chamou atenção. Uma senhora conversou comigo fora do local do evento e pediu que comunicasse ao prefeito que a mesma estava solicitando 100 reais.
O seminário decorreu normalmente, durante o intervalo comuniquei a um assessor do prefeito sobre o assunto; o mesmo relatou que aquilo era comum no Oiapoque. Todos os dias chegavam à cidade diversas pessoas. O primeiro lugar que buscavam era a prefeitura para pedir algum tipo de recurso. Sobre isso, refleti: em algum momento esse processo começou a ser realizado. Era a visão clientelista estabelecida na fronteira. Portanto, a frase título deste artigo: “Sai agora daí, esse pessoal é nosso” mostra como as relações no Oiapoque, no Amapá e no Brasil são frágeis; dependem do grau de comprometimento de pessoas, políticos, partidos e governantes; uma rede interminável de situações adversas que só prejudica a todos.



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