“Sai agora daí, esse pessoal é nosso”
Autor: José Alberto Tostes
Entre as muitas
experiências de trabalho vivenciadas nos municípios do estado do Amapá, existem
inúmeros fatos para serem relatados. Daria para escrever um livro, ou quem sabe
um romance sobre as características culturais de nossas cidades. São tantos
relatos de gestores, servidores públicos ou cidadãos comuns que atestam de
forma espontânea a maneira como ocorrem distintas situações.
Afirmei em
diversos artigos que um dos lugares onde mais escrevi nos últimos anos foi
sobre a cidade de Oiapoque. Neste lugar, sempre houve um farto material para
ser relatado. Em aproximadamente 08 anos realizando pesquisas na cidade, as
oportunidades de perceber as crenças, histórias, contos, relatos, e de fato, a
“verdade” contada em forma de casos. A propósito, um funcionário da prefeitura,
responsável pelo trabalho de fiscalização, narrou um episódio que reflete bem o
que representa a relação de compadrio, amizade ou descaso com o interesse
público:
“A equipe de fiscalização
saiu para trabalhar. Entre uma via e outra, encontra-se uma irregularidade;
imediatamente se prontifica a notificar os infratores. Em menos de 05 minutos,
o chefe da operação recebe um telefonema do prefeito que diz ao mesmo, o
seguinte: ”saia agora daí! Esse pessoal é gente nossa”. Tomado pelo impacto se retira imediatamente.
A frase dita pela
autoridade maior do município apenas coincidia ser dita na cidade de Oiapoque,
poderia perfeitamente ser aplicada em qualquer cidade do estado do Amapá e do
Brasil.
Durante o começo
da minha carreira, trabalhei na Prefeitura de Macapá durante um período de 05
anos. Havia muitos relatos curiosos sobre a situação de servidores que eram
colocados à margem da administração; o grupo afastado era denominado: “embaixo
da mangueira”. Busquei informações sobre esse grupo. A finalidade era contar
com algumas pessoas para compor a equipe de trabalho, pois faltava gente
suficiente para atender as demandas na época. Foi então, que um diretor me
chamou e disse: “ peça qualquer coisa, menos alguém que faça parte da turma
debaixo da mangueira”. Este episódio mostrava o que era a face da política no
serviço público municipal.
Na Câmara de
Vereadores de Laranjal do Jari, em abril de 2007, iria apreciar a matéria sobre
o Plano Diretor. Era uma sexta feira; chovia muito em Laranjal. Nossa equipe
chegou à cidade por volta das 17 e 30 horas; a sessão estava prevista para 19
horas. Como toda equipe preparada para enfrentar este tipo desafio, chegamos
pontualmente no local. Ao perceber as manifestações e o comportamento de cada
um, que se apresentava distinto, a impressão que passava era de que nada do
texto havia sido lido. Alguns ficavam mexendo no celular, no computador ou até
cochilando de forma disfarçada. Pedi a minha equipe que gravasse tudo, para
posteriormente, ser editado.
Uma passagem
hilária aconteceu na cidade de Mazagão. Havia uma reunião na quadra da escola
da cidade com cerca de 200 pessoas, quando um senador da República cumprimenta
a todos e diz: “quero destacar entre os presentes, o vereador Calango, detentor
de um grande número de filhos na cidade, parabéns! Você é um homem forte e de
coragem”. Não foi para menos, todos os presentes no local riram bastante,
daquele episódio. Os vereadores em muitos municípios adotam o nome de
bicho. É mais comum do que se pensa,
temos de tudo: grilo, rato, mucura, calango, etc. A cidade de Oiapoque, como
relatei, sempre tem sido fértil quando o assunto se trata de situações
peculiares e distintas. Por ocasião do segundo seminário do Plano Diretor, em
maio de 2009, um fato chamou atenção. Uma senhora conversou comigo fora do
local do evento e pediu que comunicasse ao prefeito que a mesma estava
solicitando 100 reais.
O seminário
decorreu normalmente, durante o intervalo comuniquei a um assessor do prefeito
sobre o assunto; o mesmo relatou que aquilo era comum no Oiapoque. Todos os
dias chegavam à cidade diversas pessoas. O primeiro lugar que buscavam era a
prefeitura para pedir algum tipo de recurso. Sobre isso, refleti: em algum
momento esse processo começou a ser realizado. Era a visão clientelista
estabelecida na fronteira. Portanto, a frase título deste artigo: “Sai agora
daí, esse pessoal é nosso” mostra como as relações no Oiapoque, no Amapá e no
Brasil são frágeis; dependem do grau de comprometimento de pessoas, políticos,
partidos e governantes; uma rede interminável de situações adversas que só
prejudica a todos.
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