O plano de demissão voluntária de Michel Temer é um tiro no
pé
Em
2016, já à frente do governo, Michel Temer sancionou no dia 29 de setembro a
Lei nº 13.341, implementando a sua Reforma Administrativa que reduziu de 32
para 24 o número de ministérios, tendo aumentado posteriormente para 28.
Para
TORRES (apud FADUL; SOUZA (2005), a
Reforma Administrativa trata-se de um conjunto de políticas voltadas para a
retomada da performance e da qualidade dos serviços públicos. Podemos dizer
então que uma Reforma Administrativa, no seu sentido mais comum, é um processo
de transformação de atitudes, funções, sistemas, procedimentos e estruturas
administrativas das dependências e entidades do Governo, tornando-as
compatíveis com a estratégia de desenvolvimento, e fortalecendo a capacidade
gerencial do Estado em um contexto de planejamento.
Para o Ministério do Planejamento, Desenvolvimento
e Gestão, houve uma diminuição de 28% no total de ministérios,
desde o início de 2015 – de 39 para 28. O número de Cargos Direção (DAS e
Agências) e Funções de Confiança (FG, FCT e GAEG), representando uma redução de
4.689 cargos o que se traduziu em menos R$ 240.003.869,89 nas despesas na
Administração Pública Federal. Veja a tabela abaixo referente a setembro de
2016:
Fonte: Ministério do Planejamento, desenvolvimento e
Gestão
Ainda de acordo com o Ministério, a maior economia
foi registrada nos gastos com material de consumo com redução de 27,3% no ano e
de 21,4% nos últimos 12 meses terminados em setembro, já descontados a inflação.
As despesas com comunicação e processamento de dados também tiveram forte
queda. Nesse caso, os gastos diminuíram 22,3% de janeiro e setembro, e 16,3% no
acumulado dos últimos 12 meses, em termos reais.
Porém, é importante compreender que foi um a Reforma
Administrativa “para
inglês ver”, expressão essa que é usada no Brasil e em Portugal para
leis ou regras consideradas demagógicas e que não são cumpridas na prática. A
origem da expressão tem várias versões, mas deriva possivelmente de uma
situação vivenciada no Período Regencial da história brasileira referente ao
tráfico de escravos”.
Todavia,
números do próprio Ministério do Planejamento, mostram que o governo de Michel
Temer fez foi uma dança das cadeiras com os Cargos Comissionados e com as
Funções de Confiança dos servidores com e sem vínculo com o governo federal.
Veja a seguir a tabela até maio de 2017:
Quantitativo
de Cargos em Comissão e Funções de Confiança
Fonte:
Ministério do Planejamento, Desenvolvimento e Gestão. (*) Maio/2017.
Na comparação
de 2014 com maio de 2017, último dado disponível no Portal do Ministério do
Planejamento, esta variação foi de -1,19%. Como é possível constatar, a redução
do quantitativo dos DAS foram praticamente compensados com o aumento das
gratificações. Para a ONG Contas Abertas, que já é chamada de “cão de guarda
das contas públicas”, o governo de Michel Temer não consegue fugir das
contradições. Mesmo com mais um corte no orçamento anunciado na semana passada,
o governo elevou o número de cargos de confiança para 20.321 em junho. São
quase 500 cargos a mais do que os registrados em maio deste ano. O aumento dos
cargos desse tipo também elevou o número total de cargos, funções de confiança
e gratificações do governo federal. A quantidade de funcionários nessas funções
chegaram a 99.817 em junho.
Estamos iniciando agosto e a Reforma
Administrativa que propôs a redução do tamanho do governo ficou apenas no
papel. O peso dos gastos com pessoal se avolumam. Não houve cortes em gastos
desnecessários e o governo agora dá a explicação que este aumento
proporcional dos gastos com pessoal decorre, principalmente, da recessão na
economia que gerou queda do PIB nos últimos anos, justificativa muito difícil
de ser entendida pela sociedade.
Em outro contexto, vale destacar que
o
governo Michel Temer sancionou, em 15 de dezembro de 2016, a PEC que limitou os
gastos públicos. Quando promulgada, se transformou na Emenda Constitucional 95
com o objetivo de impor limite para os gastos do governo federal durante 20
anos, a partir de 2017, tendo como base o orçamento do governo em 2016. O gasto
público a partir de então deve ser controlado por lei. O governo federal passa
a limitar esse crescimento apenas ao aumento da inflação. Portanto, com a
sanção desta PEC, não viríamos mais neste país as despesas públicas crescerem
de modo acelerado, acima da inflação. Este fato, na época, foi alardeado por
toda imprensa brasileira.
O governo em vez de sancionar a “PEC que limitou o gasto
público”, não deveria ter primeiro implementado as reformas? A Reforma
Trabalhista já foi aprovada, porém a da Previdência que é a de fundamental
importância deve ficar pelo meio do caminho. A baixa popularidade de Michel
Temer é o reflexo da credibilidade do Governo na sociedade brasileira freando, nesse
sentido, qualquer avanço de mudança. Segundo pesquisa Pulso Brasil, da Ipsos, que desde 2005 publica o
levantamento da popularidade dos presidentes, o governo de Michel Temer é
reprovado por 94% dos eleitores. A
análise, feita com 1,2 mil pessoas em 72 municípios, mostra ainda que 85% dos
entrevistados avaliam a administração do governo federal como ruim ou péssima
(O GLOBO, 25/07/2071).
Também
foi assim com as reformas de FHC, Lula e Dilma, todas elas com pequenas
mudanças e os presidentes com baixa popularidade. À exceção de Lula, que fez a
reforma de 2003 gozando de boa popularidade, mas apenas para cumprir acordos
com FMI referente ao pagamento da Dívida Externa, sendo o foco apenas nos
servidores públicos. A segunda reforma de seu governo não saiu do papel.
Agora, diante de um cenário político nunca registrado na
história do Brasil, onde temos um Presidente da República, em pleno exercício
do mandato, denunciado por corrupção pela Procuradoria Geral da República,
propõe um Plano de Demissão Voluntário (PDV) para os servidores públicos
federais com o objetivo de cortar gastos e, conseqüentemente, atingir a meta do
déficit fiscal.
Como solucionar o problema do déficit fiscal com demissão voluntária de
servidor público? Por que não se debater a Dívida Pública?.
De acordo com estudos da Auditoria Cidadã da Dívida, são destinados 43,94% do Orçamento Geral da União para pagamento de juros e amortizações da Dívida Pública. Veja o gráfico da execução do Orçamento Geral da União de 2016:
De acordo com estudos da Auditoria Cidadã da Dívida, são destinados 43,94% do Orçamento Geral da União para pagamento de juros e amortizações da Dívida Pública. Veja o gráfico da execução do Orçamento Geral da União de 2016:
Fonte: Auditoria Cidadã da
Dívida
O Ministro Henrique Meirelles,
principal defensor da proposta, esquece que em 1996, por ocasião do governo
FHC, o país não estava na difícil situação de hoje. O Brasil crescia pouco, mas
crescia. Com a atual insegurança e instabilidade econômica, poucos terão
interesse em deixar seus empregos. O PDV daquela época já foi um “bombom
envenenado”. O presidente Michel Temer e sua equipe econômica “dá um tiro no
pé” ao fazer esta proposta aos servidores públicos. O PDV de 1996 ofereceu vantagens
que multiplicava salários em forma de indenização para quem aderisse ao plano.
Quanto mais tempo no serviço público, maior a indenização paga pelo governo. O
servidor com mais de 24 anos de serviço, por exemplo, receberia 29 salários a
mais a título de indenização referente aos 24 primeiros anos de trabalho e
ainda um salário mais 80% do seu valor por ano a partir do 24.º ano de
exercício efetivo. Sobre o valor total da indenização, poderia receber mais 25%
se a adesão ao PDV fosse feita nos primeiros 15 dias ou 5% nos dias finais do
programa.
Um plano de demissões voluntárias, nestas condições,
provoca uma verdadeira anarquia administrativa, desqualifica o servidor público
e traz dúvidas quanto a sua eficácia, como foi no passado, em seus efeitos econômicos.
Muito mais eficaz seria um diagnóstico que viesse a indicar onde existem
servidores em excesso e onde a folha de pagamento está inchada. Fora deste
contexto, o objetivo é destruir e não racionalizar.
Fica, então, a
velha discussão sobre um modelo de gestão para o setor público no Brasil, onde
analistas entendem que este modelo não incentiva as alocações eficientes dos
recursos, que já são escassos. A desculpa do governo é sempre a mesma: racionalizar gastos
públicos e proporcionar crescimento econômico. O quadro atual já é considerado
crítico na prestação de serviços públicos à população, em especial na saúde,
educação e segurança pública, o desemprego atinge 13,5 milhões de pessoas,
segundo dados do IBGE, e o que o governo de Michel Temer entende como solução é ainda ampliar este
índice dando um pontapé no servidor público.
Referências:
PALASSI, Marcia Prezotti. O que é Reforma
Administrativa? Disponível em: < http://www.cesadufs.com.br/ORBI/public/uploadCatalago/11163501032012Administracao_Publica_Aula_3.pdf>.
http://www.planejamento.gov.br/



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