Comunidade Lagoa dos Índios, estancada no tempo.
“Precisamos sair desse
marasmo e para isso temos de crescer economicamente para que os nossos jovens
se sintam incentivados em se manter aqui e valorizar as suas raízes e se
livrarem das drogas, aumentando sua autoestima”.
Reinaldo
Coelho
O Brasil tem uma mancha na sua história que há séculos tem sido
difícil e quase impossível de arrumar: A Escravidão Negra. Muito foram os
paliativos aplicados por governos imperiais e republicanos para eliminar essa
nódoa da vida de milhões de seres humanos que foram retirados de suas terras e
transportados pior de que animais para serem ferramentas do desenvolvimento das
províncias e de seus proprietários.
Com essa indigna situação, a formação genética do povo brasileiro
foi adicionada mais um gene: o do negro, agora composta pelo índio, branco e
negro. Além de que começou uma nova formação social, os quilombos, estruturação
de comunidades formadas por negros fugidos das fazendas e das plantações de
café.
Comunidade
Lagoa dos Índios
Todos os Estados, cidades e vilas brasileiras tem um local que
conta a história da luta dos negros brasileiros, são as comunidades
quilombolas. No Amapá temos diversas, porém uma se destaca a Lagoa dos Índios,
localizada na Zona Oeste de Macapá, a cinco quilômetros da Rodovia Duca Serra.
Uma comunidade quase urbana, com mais de 100 famílias que a pesar
de o local ser habitado por descendentes de negros africanos há muitas décadas
atrás e com a possibilidade de até mesmo ter iniciado a ocupação negra com o
término do projeto colonial português na segunda metade do século XVIII,
trazendo moradores da colônia africana do Marrocos e sitiados nas terras de
Mazagão Velho. Não foi formado por escravos fugidos.
Um dos descendentes desses primeiros habitantes negros da Lagoa
dos Índios, {pois, os primeiros foram os indígenas], e morador da comunidade,
Jorge Natividade dos Santos, 74 anos, técnico em contabilidade, ex-guarda
territorial, aposentado e ex-presidente da Associação dos Moradores da Lagoa
dos Índios, falou a reportagem que uma das origens dos ancestrais da comunidade
foi do grupo que se originou em Marrocos e passaram habitar Mazagão Velho. “Nossos antepassados não eram originários de
negros escravos, e sim dos que vieram habitar as terras mazaganenses, onde
alguns adentraram as terras mais ao oeste e aqui se estabeleceram. Ao me eleger
presidente da Associação de Moradores, minha plataforma era transformar aqui em
uma comunidade Quilombola, pois isso veria trazer a legalização das terras e um
crescimento com desenvolvimento social e geração de empregos e rendas para
nossos filhos, infelizmente não consegui, até agora encontra-se em litígio
judicial, com a maioria dos membros da comunidade se recusando a qualificação,
pois impossibilita venda das terras e isso é o que vem acontecendo, dia a dia
as terras de nossos ancestrais estão sendo vendidas”.
Apropriação
indevida
| ESTÃO VENDENDO AS TERRAS DE SEUS AVÓS |
Essa discussão teve como base o Art. 68 ADCT, pois devido a
invasão e destruição das terras que ocupam por décadas é que passaram a lutar
pelo reconhecimento e titulação. Na época a comunidade tinha suas terras desde
o Igarapé da Fortaleza, fazia fronteira com as terras dos negros Congós, que hoje
é um bairro, com a mesma denominação e chegava a Ressaca Lagoa dos Índios.
Porém sem documentação empresários da construção civil, registraram grandes
porções de terras e passaram a usar para projetos imobiliários, perdendo os
legítimos posseiros suas terras de onde tiravam o sustento.
| ACESSO DO RAMAL A COMUNIDADE ESTÁ ABANDONADO E INTRAFEGÁVEL |
A parte Leste da Lagoa dos Índios está ocupada por grandes
empreendimentos comerciais e residências. “Quando
era presidente da Associação cumprimos todos os requisitos para a transformação
em Quilombolas, as famílias já tinham aceitos, o INCRA já havia feito os
estudos e marcações, tínhamos recebido a visita de uma antropóloga que atestou
nossas origens, mas no dia a maioria voltou atrás, devido ao manuseio político
e com a possibilidade de não poderem vender as suas terras, após a certificação
e é isso que está acontecendo”.
Especulação
é o que restou
As ações promovidas para manter o controle do território
mostram-se insuficientes, haja vista, que não evitou nem estar evitando o
processo de especulação imobiliária que tem na bagagem como consequência a
urbanização e o uso indevido do território, o que acabou por retirar boa parte
da área da comunidade, reduzindo a uma pequena porção de terra, restrita,
praticamente ao núcleo da Vila Comunitária.
E é ai que está o maior problema da comunidade, acostumados com as
grandes extensões de terras, onde pescavam, caçavam e criavam cabeças de gado,
hoje um cinturão imobiliário urbano estão apertando as dezenas de famílias que
ali ainda residem.
Para o retorno dessas terras baseados no Art. 68 ADCT, o INCRA
deveria indenizar os atuais posseiros e isso torna a missão impossível. Pois já
existem instalados bairros residências, prédios públicos e diversas empresas,
nesse caso torna-se na prática inviável a capitação de uma vultosa quantia de
recursos e o INCRA não tem verba para bancar supostas indenizações.
Transformação
em Quilombola
| JORGE NATIVIDADE |
A burocracia torna todas as decisões do poder executivo lenta e
interminável, desde 2004 pelos menos 20 comunidades amapaenses de origem
quilombola, das 33 certificadas pela Fundação Palmares, deram entrada no
processo de regulamentação de suas terras no Instituto de Colonização e Reforma
Agrária do Amapá (INCRA). Dessas, apenas quatro conseguiram finalizar o
processo de “titularização”, que foram Curiaú, Conceição do Macacoari, Mel da
Pedreira e São Raimundo do Pirativa. As demais estão há cerca de 13 anos
aguardando o direito de serem reconhecidas como quilombos.
“Essa já foi a bandeira
levantada pela comunidade. Porém, depois de tanto tempo acreditamos que o
reconhecimento e a titularização poderiam prejudicar muitas famílias que
queiram sair daqui e não poderiam vender suas terras. Observamos o exemplo do
Curiaú, que já recebeu o título, e não vimos nenhuma melhora no estilo vida dos
moradores. Não queremos isso pra nós”, avalia Valter Vasconcellos, morador
e agente de saúde da comunidade.
Para Jorge Natividade, um dos líderes da comunidade essa foi uma
escolha dos moradores, que encontram-se na subsistência e com uma vida morosa.
“Temos uma escola estadual, um posto
médico, um centro comunitário e um campo de futebol. A maioria dos herdeiros
está vendendo suas terras.
Porém, a
turma do contra ser quilombola também tem suas posições e justificativas, entre
elas a de uma realidade que talvez seja vivida pelos netos e bisnetos dos
primeiros moradores, que crescem na comunidade e pouco entendem sobre o
processo de titularização, já que quando processo foi aberto, muitos ainda nem
eram nascidos”.
Por ser uma
comunidade dentro da Zona Urbana os nossos objetivos hoje são outros. Não
queremos viver apenas da terra como nossos avós, que pescavam, caçavam e
plantavam para sobreviver. Queremos prosperar, nos formar. Buscar melhores
condições de vida e também viver na área urbana, pois os tempos são outros, e queremos
fartura para os nossos filhos”, explica Valter, que tem duas
filhas que moram e estudam na área urbana de Macapá.
Crescimento
desordenado do entorno
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| ACESSO A COMUNIDADE |
A partir dos anos de 1980, com o aumento
significativo da entrada de pessoas que não faziam parte da comunidade
quilombola e com a instalação de uma fábrica de beneficiamento de goiaba
(atualmente desativada), parte da área recebeu o nome de bairro do Goiabal.
Isso descaracterizou o espaço da comunidade,
principalmente das crianças e dos jovens, que começam a substituir o nome da
comunidade da Lagoa dos Índios pelo do bairro do Goiabal. Os moradores mais
antigos tentam mudar essa concepção junto aos mais novos, porém afirmam que é
uma tarefa difícil.
“Agora temos no entorno do
Ramal de Acesso a Comunidade o Bairro Goiabal, que está crescendo
vertiginosamente sem fiscalização e as construções de residências estão chegando
ao entorno da Ressaca do lado norte da Lagoa dos Índios”, declara Jorge
Natividade.
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| BAIRRO GOIABAL |
A reportagem visitou a comunidade e realmente as obras de
construção de residências são múltiplas e aceleradas, ruas e vielas estão se
formando e já estão na beira da ressaca. E não verifica-se os Alvarás de
Construção da prefeitura de Macapá. “Quando
menos se esperar já está sendo construído palafitas nos locais”, reforçou
Natividade.
O Jorge Natividade explica que ainda não sofreram invasão das
terras da Vila pela resistência, dos mais antigos, que infelizmente estão
desaparecendo. E já na própria Vila da Lagoa dos Índios o distúrbio de
segurança pública chegou.
“Passamos a ter um grande
fluxo de venda de drogas e predomina o uso da bebida entre os jovens, devido a
não terem opções de lazer ou ocupações laborais. As residências passaram a ser
arrombadas por menores sob comando de líderes de gang. Eu mesmo sofri com isso.
Fiz uma viagem e quando voltei minha casa estava arrombada e sem nada dentro”.
Ele conjuntura que isso se deve ao desemprego, a falta de estudos,
e principalmente de perspectiva de vida local, pois os jovens não querem mais
plantar e nem criar. As terras aqui são muito propícias para a agricultura, a
alimentação se torna fácil é uma terra fértil para plantar.
Abandonados
pelo poder público
| RECOLHIMENTO DO LIXO DOMESTICO |
Um dos apelos dos moradores da Vila da Lagoa dos Índios é que o Estado
e o município olhem a comunidade e elaborem projetos voltados para o
crescimento cultural e econômico local. “Precisamos
sair desse marasmo e para isso temos de crescer economicamente para que os
jovens se sintam incentivados em se manter aqui e valorizar as raízes”.
| MANUTENÇÃO DO RAMAL |
A comunidade da Lagoa dos Índios existe e possui
um patrimônio cultural específico. Sua história é constitutiva da história de
diversas outras comunidades, seja através do João Natividade, seja pelo grupo
de Marabaixo, que se apresenta nas festas de santos e em outros eventos. Nesses
momentos, está presente a representação de uma comunidade que pode não estar
localmente ou geograficamente, reunida, mas que existe e é importante
historicamente para o Estado do Amapá e para as demais comunidades. A presença
da comunidade em tela, seus conflitos atuais e ainda sua diferenciação em Lagoa
de Fora e Lagoa de Dentro demonstra a sua transformação no espaço e no tempo,
além do impacto do crescimento da cidade de Macapá.
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