Caridade. Submeta-se!
Refletindo
sobre auxílio ao próximo, como boas obras que servirão de crédito evolucionista
quando do retorno ao nosso mundo de origem, e atônito com as agruras do dia a
dia de nossos irmãos no mundo, servimo-me das sugestões de Irmã Rosália, lá
pelos idos de 1800, quando diz: “Amemo-nos uns aos outros e façamos aos outros
o que quereríamos que nos fosse feito”. Toda a religião, toda a moral, se
encerram nestes dois preceitos. Se eles fossem seguidos no mundo, todos seriam
perfeitos. Não haveria ódios, nem ressentimentos. Direi mais ainda: não haveria
pobreza, porque, do supérfluo da mesa de cada rico, quantos pobres seriam
alimentados! E assim não mais se veriam, nos bairros sombrios em que vivi, na
minha última encarnação, pobres mulheres arrastando consigo miseráveis crianças
necessitadas de tudo.
Ricos!
Pensai um pouco em tudo isso. Ajudai o mais possível aos infelizes; daí, para
que Deus vos retribua um dia o bem que houverdes feito: para encontrardes, ao
sair de vosso invólucro terrestre, um cortejo de Espíritos reconhecidos, que
vos receberão no limitar de um mundo mais feliz.
Se
pudésseis saber a alegria que provei, ao encontrar no além aqueles a quem
beneficiei, na minha última vida terrena!
Amai,
pois, ao vosso próximo; amai-o como a vós mesmos, pois já sabeis, agora, que o
desgraçado que repelis talvez seja um irmão, um pai, um amigo que afastais para
longe. E então, qual não será o vosso desespero, ao reconhecê-lo depois no
Mundo dos Espíritos!
Quero
que compreendais bem o que deve ser a caridade
moral, que todos podem praticar, que materialmente nada custa,
e que não obstante é a mais difícil de se pôr em prática.
A
caridade moral consiste em vos suportardes uns aos outros, o que menos fazeis
nesse mundo inferior, em que estais momentaneamente encarnados. Há um grande
mérito, acreditai, em saber calar para que outro mais tolo possa falar: isso é
também uma forma de caridade. Saber fazer-se de surdo, quando uma palavra
irônica escapa de uma boca habituada a caçoar; não ver o sorriso desdenhoso com
que vos recebem pessoas que, muitas vezes erradamente, se julgam superiores a
vós, quando na vida espírita, a única
verdadeira, está às vezes muito abaixo: eis um merecimento que não
é de humildade, mas de caridade, pois não se incomodar com as faltas alheias é
caridade moral.
Essa
caridade, entretanto, não deve impedir que se pratique a outra. Pelo contrário:
pensai, sobretudo, que não deveis desprezar o vosso semelhante; lembr6ai-vos de
tudo o que vos tenho dito; é necessário lembrar, incessantemente, que o pobre
repelido talvez seja um Espírito que vos foi caro, e que momentaneamente se
encontra numa posição inferior à vossa. Reencontrei um dos pobres do vosso
mundo a quem pude, por felicidade, beneficiar algumas vezes, e ao qual
tenho agora de pedir,
por minha vez.
Recordai-vos
de que Jesus disse que somos todos irmãos, e pensai sempre nisso, antes de
repelirdes o leproso ou o mendigo. Adeus! Pensai naqueles que sofrem, e orai.
Meus
amigos, tenho ouvido muitos de vós dizerem: Como posso fazer a caridade, se
quase sempre não tenho sequer o necessário?
A
caridade, meus amigos, se faz de muitas maneiras. Podeis fazê-la em pensamento,
em palavras e em ações. Em pensamentos, orando pelos pobres abandonados, que
morreram sem terem sequer vivido; uma prece de coração os alivia. Em palavras:
dirigindo aos vossos companheiros alguns bons conselhos. Dizei aos homens
amargurados pelo desespero e pelas privações, que blasfemam do nome do Altíssimo:
“Eu era como vos; eu sofria, sentia-me infeliz, mas acreditei no Espiritismo e,
vede agora sou feliz!” Aos anciãos que vos disseram: “É inútil; estou no fim da
vida; morrerei como vivi”, respondei: “A justiça de Deus é igual para todos;
lembrai-vos dos trabalhadores da última hora!” Às crianças que, já viciadas
pelas más companhias, perdem-se nos caminhos do mundo, prestes a sucumbir às
suas tentações, dizei: “Deus vos vê, meus caros pequenos!”, e não temais
repetir frequentemente essas doces palavras, que acabarão por germinar nas suas
jovens inteligências, e em lugar de pequenos vagabundos, fareis delas
verdadeiros homens.
Essa
é também uma forma de caridade.
Muitos
de vós dizeis ainda: “Oh! somos tão numerosos na terra, que Deus não pode ver-nos
a todos!” Escutai bem isso, meus amigos: quando estais no alto de uma montanha,
vosso olhar não abarca os bilhões de grãos de areia que a cobrem? Pois bem:
Deus vos vê da mesma maneira; e Ele vos deixa o vosso livre arbítrio, como
também deixais esses grãos de areia ao sabor do vento que os dispersa. Com a
diferença que Deus, na sua infinita misericórdia, pôs no fundo do vosso coração
uma sentinela vigilante, que se chama consciência.
Ouvi-a, que ela vos dará bons conselhos. Por vezes, conseguis entorpecê-la,
opondo-lhe o espírito do mal, e então ela se cala. Mas ficai seguros de que a
pobre relegada se fará ouvir, tão logo a deixardes perceber a sombra do
remorso. Ouvi-a, interrogai-a, e frequentemente sereis consolados pelos seus
conselhos.
Meus
amigos, a cada novo regimento o general entrega uma bandeira. Eu vos dou esta
máxima do Cristo: “Amai-vos uns aos outros”. Praticai essa máxima: reunir-vos
todos em torno dessa bandeira, e dela recebereis a felicidade e a consolação.

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