Homenagem aos 260 anos de Macapá
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| Quem diria que o bairro Central de Macapá já foi assim? Pois é. A ponte – onde essas figuras estão fazendo pose – ficava na avenida Mendonça Furtado - ANTIGO BAIRRO DA FAVELA |
Reinaldo
Coelho
A editoria do pioneirismo resolveu nesta
semana que se comemora os 260 anos de Macapá, homenagear todos os pioneiros
macapaenses, com uma crônica típica de um moleque criado no Bairro da Favela e
que em seus escritos nos remetes a retornar a Macapá antiga, onde os moleques
brincavam e tinham felicidade.
Leia a crônica abaixo:
Crônica do Sapiranga
Rala-rala ou
raspa-raspa? Tanto faz
Milton Sapiranga
Barbosa
No dia
05/12/2010, um domingo no mundo, o Geraldo Galvão, “o Galo”, completou 60 anos
de vida, e para comemorar a data,
Geraldo,
o Galo, convidou vários amigos de infância da Favela e outros conquistados
em seu ambiente de trabalho e pela vida afora, tendo a feliz ideia de solicitar
de presente dois quilos de alimentos não perecíveis, para doar para
famílias carentes, que por ele e sua esposa foram previamente
selecionadas.
Entre os convidados da Favela compareceram, além deste cronista, os amigos Alcione Cavalcante e esposa, Carlos e Cláudio Brito, Moacir Simões Tavares e outros tantos.
Papo corria solto, regado a cerveja, feijoada e churrasco, logicamente versando sobre nossas peripécias de moleques e adolescentes muito danados.
De repente a esposa do Geraldo me chamou à parte e mostrou uns litros contendo sucos de taperebá, coco e cupuaçu. Não entendi o porquê ela ter me chamado para ver os litros com sucos, até que ela levantou um guardanapo que estava sobre uma pedra (barra) de gelo e me entregou um ralador dizendo: “faz uns copos de rala–rala pra nós”. Vocês não imaginam a intensidade da minha emoção e a da minha saudade naquele momento. Tive que fazer muito esforço para não chorar. Me pareceu ver o Seu Nélson, o Seu Jarino, o Seu Biló, empurrando seus carrinhos e vendendo rala-rala, que por alguns era chamado de raspa- raspa. Mas seja lá qual for o nome, era gostoso pra “dedéu” e, moleques, jovens e adultos se deliciavam com os sucos que eles ofertavam com gelo ralado, ou seria raspado, na hora?
Entre os convidados da Favela compareceram, além deste cronista, os amigos Alcione Cavalcante e esposa, Carlos e Cláudio Brito, Moacir Simões Tavares e outros tantos.
Papo corria solto, regado a cerveja, feijoada e churrasco, logicamente versando sobre nossas peripécias de moleques e adolescentes muito danados.
De repente a esposa do Geraldo me chamou à parte e mostrou uns litros contendo sucos de taperebá, coco e cupuaçu. Não entendi o porquê ela ter me chamado para ver os litros com sucos, até que ela levantou um guardanapo que estava sobre uma pedra (barra) de gelo e me entregou um ralador dizendo: “faz uns copos de rala–rala pra nós”. Vocês não imaginam a intensidade da minha emoção e a da minha saudade naquele momento. Tive que fazer muito esforço para não chorar. Me pareceu ver o Seu Nélson, o Seu Jarino, o Seu Biló, empurrando seus carrinhos e vendendo rala-rala, que por alguns era chamado de raspa- raspa. Mas seja lá qual for o nome, era gostoso pra “dedéu” e, moleques, jovens e adultos se deliciavam com os sucos que eles ofertavam com gelo ralado, ou seria raspado, na hora?
Ao ver aqueles
produtos fiz uma viagem no tempo, lembrando das guloseimas que
os meninos do meu tempo podiam apreciar. Vi claramente e lembrei
com saudade do Tio Adelino (o Marvado), descendo ou subindo a
Mendonça Furtado tocando um triângulo, com um grande cilindro nas
costas cheio de cascalho (umas folhas finas de uma massa adocicada e
crocante, que nós adorávamos). A molecada torcia pelas folgas do Tio
Adelino do seu plantão na Guarda Territorial a fim de poder
comer cascalho. Me pareceu também ver o Arinaldo segurando um
cabo de vassoura com uma tábua cheia de furos presa em uma das
extremidades e os furos repletos de deliciosos “pirulitos”,
talvez 20 ou 30,
geralmente de maracujá. Tão logo à tabua ficava vazia ele se juntava aos
demais moleques no bate bola no campinho onde hoje está a Escola
Guanabara, que era reservado para turma da Favela e do Centro (Já o
campinho da frente do cemitério era dos garotos do Bairro Alto e da baixa da
Olaria). Lembrei dos homens que carregavam um cavalete nas mãos e um
tabuleiro na cabeça, de zinco ou de madeira, que percorriam a velha Macapá
vendendo “quebra queixo”, que era cortado em porções generosas com uma espátula.
E os mingaus de milho verde, banana, milho branco e farinha de tapioca
que o seu Andrade (pai do meu amigo Vicente Rocha, vendia no canto do
Mercado Central, próximo ao Bar Du Pedro? Se misturados os quatros
sabores na cuia, então era um manjar dos deuses. O seu
Nélson e um outro senhor alto, magro e moreno (sempre vestido impecavelmente de
branco e um quepe na cabeça) cujo nome não me veio à mente, também vendiam
deliciosos mingaus em frente ao frigorífico municipal. Ir ao Mercado
Central e não tomar uma cuia de mingau, em qualquer dos pontos
citados, nem pensar! Recordei da Garapeira do Brotinho, onde adorava tomar
garapa com donzela sempre que ia ao Elesbão comprar caranguejo! Deu
água na boca ao lembrar como era bom tomar um Flip Guaraná com pão
doce após um jogo de bola! Lembrei dos potes com mel que se
comprava na Doca da Fortaleza pra comer com farinha ou com pão quentinho
da padaria do seu Osvaldo ou da padaria do Sandó. Após essas doces e
gostosas lembranças, veio a tristeza e o lamento, por saber que meus
filhos e netos não puderam e nunca poderão
apreciar as guloseimas listadas acima (com exceção da garapa,
donzela e pão doce, que ainda se encontra por aí).
Não posso excluir
dessas lembranças as doceiras da época, em especial a minha querida
e saudosa vizinha Dona Margarida Lino Dias, que fazia como ninguém
sonhos, pastéis, queijadinhas, beijos de moça e cocadas (estas
preparadas com sobra de calda do Flip Guaraná, que seu
irmão, Tio Casemiro, trazia da fábrica).
Aliás que ao lembrar da minha querida vizinha, também lembrei de seu filho Arideu, que nas datas festivas era meu parceiro na venda dos doces e salgados que sua mãe fazia. Uma vez, num dia 13 de Setembro, fomos vender doces na Fortaleza de Macapá, no tempo que aquele baluarte tinha em seu interior um mini zoológico, onde viviam onças, porcos do mato, quatis, urubus rei, gavião real, araras e macacos, muitos macacos, que soltos, faziam mil travessuras com os frequentadores do local.
O Arideu com seu tabuleiro na cabeça, cheio de doces e salgados até à boca, achou de passar embaixo dos galhos de um pé de “mutamba” (assim chamávamos a árvore que fornece uma frutinha doce e que ainda hoje tem um pé na área do Barão do Rio Branco), e aí deu-se a desgraça. Um macaco prego atrevido, sentindo o aroma daquelas delícias, não se fez de rogado e pulou sobre o tabuleiro do Arideu. Foi pastel, queijadinha, cocada, beijos de moça e sonho pra tudo quanto é lado. A macacada fez a festa. Coitado do meu amigo, que com medo da bronca da Tia Margarida, sentou-se à sombra da grande árvore e chorou. Depois que terminei minha venda, voltamos para a Favela e ele veio chorando até chegar em sua casa. Só não rodou no galho de cuieira, devido ao meu testemunho, afirmando a Tia Margarida que ele não tivera culpa do acontecido.
Aliás que ao lembrar da minha querida vizinha, também lembrei de seu filho Arideu, que nas datas festivas era meu parceiro na venda dos doces e salgados que sua mãe fazia. Uma vez, num dia 13 de Setembro, fomos vender doces na Fortaleza de Macapá, no tempo que aquele baluarte tinha em seu interior um mini zoológico, onde viviam onças, porcos do mato, quatis, urubus rei, gavião real, araras e macacos, muitos macacos, que soltos, faziam mil travessuras com os frequentadores do local.
O Arideu com seu tabuleiro na cabeça, cheio de doces e salgados até à boca, achou de passar embaixo dos galhos de um pé de “mutamba” (assim chamávamos a árvore que fornece uma frutinha doce e que ainda hoje tem um pé na área do Barão do Rio Branco), e aí deu-se a desgraça. Um macaco prego atrevido, sentindo o aroma daquelas delícias, não se fez de rogado e pulou sobre o tabuleiro do Arideu. Foi pastel, queijadinha, cocada, beijos de moça e sonho pra tudo quanto é lado. A macacada fez a festa. Coitado do meu amigo, que com medo da bronca da Tia Margarida, sentou-se à sombra da grande árvore e chorou. Depois que terminei minha venda, voltamos para a Favela e ele veio chorando até chegar em sua casa. Só não rodou no galho de cuieira, devido ao meu testemunho, afirmando a Tia Margarida que ele não tivera culpa do acontecido.
Eu e ele, voltamos
muitas vezes a vender doces na Fortaleza, mas o “Dedeu” (como era chamado
por sua avó, Dona Juliana), queria distância das árvores ali
existentes.
Parei! Desculpem,
mas não posso continuar. Estou chorando de saudades da minha infância feliz
na Favela da Macapá de antigamente, com suas guloseimas deliciosas.

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