sábado, 3 de fevereiro de 2018

Pioneirismo Especial

         
Homenagem aos 260 anos de Macapá
 
Quem diria que o bairro Central de Macapá já foi assim? Pois é. A ponte – onde essas figuras estão fazendo pose – ficava na avenida Mendonça Furtado - ANTIGO BAIRRO DA FAVELA
Reinaldo Coelho

A editoria do pioneirismo resolveu nesta semana que se comemora os 260 anos de Macapá, homenagear todos os pioneiros macapaenses, com uma crônica típica de um moleque criado no Bairro da Favela e que em seus escritos nos remetes a retornar a Macapá antiga, onde os moleques brincavam e tinham felicidade. 
Resultado de imagem para sapiranga MILTON BARBOSASapiranga Milton Barbosa, o nosso “Sapiranga” é uma lenda viva de Macapá. Pense num tucuju que conhece bem sua terra natal. Falou da Macapá antiga, Sapiranga conhece todos os personagens. Principalmente os moradores da Favela, Laguinho, Trem, Centro, Bairro Alto, baixada da Olaria, ele sabe tudo, conhece a história de cada um. Sobre o esporte, nem se fala, é autoridade no assunto. Pois é, este é o nosso Sapiranga! – João Lázaro.

Leia a crônica abaixo:

Crônica do Sapiranga
Publicado em 10 de Abril de 2011 às 5:16 p.m., por Alcinéa Cavalcante.
Rala-rala ou raspa-raspa? Tanto faz

Milton Sapiranga Barbosa

No dia 05/12/2010, um domingo no mundo, o Geraldo Galvão, “o Galo”, completou 60 anos de vida, e para comemorar a data,
Geraldo, o Galo, convidou vários amigos de infância da Favela e outros conquistados em  seu ambiente de trabalho e pela vida afora, tendo a feliz ideia de solicitar de presente dois quilos de alimentos não perecíveis, para doar para famílias carentes, que por ele  e sua esposa foram previamente  selecionadas.
Entre os convidados da Favela compareceram, além deste cronista, os amigos Alcione Cavalcante e esposa, Carlos e Cláudio Brito, Moacir Simões Tavares e outros tantos.
Papo corria solto, regado a cerveja, feijoada e churrasco, logicamente versando sobre nossas peripécias de moleques e adolescentes muito danados.
De repente a esposa do Geraldo me chamou à parte e mostrou uns litros contendo sucos de taperebá, coco e cupuaçu. Não entendi o porquê ela ter me chamado para ver os litros com sucos, até que ela levantou um guardanapo que estava sobre uma pedra (barra) de gelo e me entregou um ralador dizendo: “faz uns copos de rala–rala pra nós”. Vocês não imaginam a intensidade da minha emoção e a da minha saudade naquele momento. Tive que fazer muito esforço para não chorar. Me pareceu ver o Seu Nélson, o Seu Jarino, o Seu Biló, empurrando seus carrinhos e vendendo rala-rala, que por alguns era chamado de raspa- raspa. Mas seja lá qual for o nome, era gostoso pra “dedéu” e, moleques, jovens e adultos se deliciavam com os sucos que eles ofertavam com gelo ralado, ou seria raspado, na hora?
Ao ver aqueles produtos fiz uma viagem no tempo, lembrando das guloseimas que os meninos do meu tempo podiam apreciar. Vi claramente e lembrei com saudade do Tio Adelino (o Marvado), descendo ou subindo a Mendonça Furtado tocando um triângulo, com um grande cilindro nas costas cheio de cascalho (umas folhas finas de uma massa adocicada e crocante, que nós adorávamos). A molecada torcia pelas folgas do Tio Adelino do seu plantão na Guarda Territorial a fim de poder comer cascalho. Me pareceu também ver o Arinaldo segurando um cabo de vassoura com uma tábua cheia de furos presa em uma das extremidades e os furos repletos de deliciosos “pirulitos”, talvez 20 ou 30, geralmente de maracujá. Tão logo à tabua ficava vazia ele se juntava aos demais moleques no bate bola no campinho onde hoje está a Escola Guanabara, que era reservado para turma da Favela e do Centro (Já o campinho da frente do cemitério era dos garotos do Bairro Alto e da baixa da Olaria). Lembrei dos homens que carregavam um cavalete nas mãos e um tabuleiro na cabeça, de zinco ou de madeira, que percorriam a velha Macapá vendendo “quebra queixo”, que era cortado em porções generosas com uma espátula. E os mingaus de milho verde, banana, milho branco e farinha de tapioca que o seu Andrade (pai do meu amigo Vicente Rocha, vendia no canto do Mercado Central, próximo ao Bar Du Pedro? Se misturados os quatros sabores na cuia, então era um manjar dos deuses. O seu Nélson e um outro senhor alto, magro e moreno (sempre vestido impecavelmente de branco e um quepe na cabeça) cujo nome não me veio à mente, também vendiam deliciosos mingaus em frente ao frigorífico municipal. Ir ao Mercado Central e não tomar uma cuia de mingau, em qualquer dos pontos citados, nem pensar! Recordei da Garapeira do Brotinho, onde adorava tomar garapa com donzela sempre que ia ao Elesbão comprar caranguejo! Deu água na boca ao lembrar como era bom tomar um Flip Guaraná com pão doce após um jogo de bola! Lembrei dos potes com mel que se comprava na Doca da Fortaleza pra comer com farinha ou com pão quentinho da padaria do seu Osvaldo ou da padaria do Sandó. Após essas doces e gostosas lembranças, veio a tristeza e o lamento, por saber que meus filhos e netos não puderam e nunca poderão apreciar as guloseimas listadas acima (com exceção da garapa, donzela e pão doce, que ainda se encontra por aí).
Não posso excluir dessas lembranças as doceiras da época, em especial a minha querida e saudosa vizinha Dona Margarida Lino Dias, que fazia como ninguém sonhos, pastéis, queijadinhas, beijos de moça e cocadas (estas preparadas com sobra de calda do Flip Guaraná, que seu irmão, Tio Casemiro, trazia da fábrica).
Aliás que ao lembrar da minha querida vizinha, também  lembrei de  seu filho Arideu, que nas datas festivas era meu parceiro na venda dos doces e salgados que sua mãe fazia. Uma vez, num dia 13 de Setembro, fomos vender doces na Fortaleza de Macapá, no tempo que aquele baluarte tinha em seu interior um mini zoológico, onde viviam onças, porcos do mato, quatis, urubus rei, gavião real, araras e macacos, muitos macacos, que soltos, faziam mil travessuras com os frequentadores do local.
O Arideu com seu tabuleiro na cabeça, cheio de doces e salgados até à boca, achou de passar embaixo dos galhos de um pé de “mutamba” (assim chamávamos a árvore que fornece uma frutinha doce e que ainda hoje tem um pé na área do Barão do Rio Branco), e aí deu-se a desgraça. Um macaco prego atrevido, sentindo o aroma daquelas delícias, não se fez de rogado e pulou sobre o tabuleiro do Arideu. Foi pastel, queijadinha, cocada, beijos de moça e sonho pra tudo quanto é lado. A macacada fez a festa. Coitado do meu amigo, que com medo da bronca da Tia Margarida, sentou-se à sombra da grande árvore e chorou. Depois que terminei minha venda, voltamos para a Favela e ele veio chorando até chegar em sua casa. Só não rodou no galho de cuieira, devido ao meu testemunho, afirmando a Tia Margarida que ele não tivera culpa do acontecido.
Eu e ele, voltamos muitas vezes a vender doces na Fortaleza, mas o “Dedeu” (como era chamado por sua avó, Dona Juliana), queria distância das árvores ali existentes.

Parei! Desculpem, mas não posso continuar. Estou chorando de saudades da minha infância feliz na Favela da Macapá de antigamente, com suas guloseimas deliciosas.

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