sábado, 17 de março de 2018

‘Boom’ do agronegócio no Amapá



‘Boom’ do agronegócio no Amapá



Expansão da produção de grãos impulsiona negócios na Cadeia Produtiva de Alimentos no Amapá. Fábrica de Ração já produz 200 toneladas para alimentar bovinos e bubalinos, do rebanho local, e pode exportar para a região Sul e Sudoeste do Brasil e para Europa e Estados Unidos.

Reinaldo Coelho
Joselito Abrantes 

O desenvolvimento industrial e agrícola não é alternativa exclusiva, mas complementar, e acontece mutuamente e em consonância com os demais setores de atividade, em âmbito local seja em âmbito mundial. A agropecuária envolve as atividades humanas destinadas ao cultivo da terra (agricultura) e à criação de animais (pecuária). Abrange não só a produção de alimentos destinados ao consumo humano, mas também a alimentação de animais e a produção de matérias-primas industriais. 
A agricultura colabora essencialmente das seguintes maneiras: fornecendo alimento e matéria prima para os outros setores da economia; criando demanda para bens produzidos em setores não-agricultura — fomentando um mercado financeiro destinado a atender os setores de produção agrícola ou procura por maquinário na indústria –; adicionando capacidade de poupança e investimento; ajudando na inserção no comércio internacional; estabelecendo uma oferta de emprego.
Marcado por uma geografia particular, o Estado tem a qualidade de ser banhado pelo maior rio do mundo em volume d'água e pelo Oceano Atlântico, simultaneamente, além de estar mais próximo dos principais centros consumidores da América Central, América no Norte e Europa.
Esta posição estratégica em relação às demais Unidades Federativas pode tornar viável, do ponto de vista do trânsito fluviomarinho, a implantação de atividades comerciais com os mercados nacional e internacional.
A somatória da nova rota da soja mais o preço das terras no Amapá aliado a adequação do terminal portuário na Companhia Docas de Santana e a instalação do Terminal de Uso Privado da Cianport, na Ilha de Santana, transformaram a vantagem comparativa de localização estratégica do Estado do Amapá em uma vantagem competitiva na área da produção de alimentos oriundos do agronegócio, bem como da logística de transporte de grãos provenientes do Centro Oeste.
Governador do Estado do Amapá, Waldez Góes (P|DT)

A implantação do complexo Cianport, joint-venture das empresas Agrosoja e Fiagril, que atuam no Mato Grosso, e optaram pelo Amapá como ponto de transbordo da sua produção, abandonando as caras rotas para os portos do sul-sudeste brasileiro. Já se encontram em operação três silos no Porto de Santana, com capacidade superior a 50 mil toneladas, além da unidade industrial de beneficiamento de grãos a ser implantada na ilha Santana. A chegada deste empreendimento estimulou decisivamente investimentos no setor.
Em relação a logística, estudos recentes comprovam que a exportação da soja pelo Porto de Santana até Rotterdã, na Holanda, o frete custa cerca de US$ 75/ton, enquanto partindo do Paraná via Porto de Paranaguá o frete para o mesmo trecho importa em US$ 125/ton. Já em relação a Mato Grosso, com a mesma logística do Paraná, o custo do frete corresponde a US$ 185/ton.


A economia do agronegócio está crescendo exponencialmente no Amapá. Dados da APROSOJA confirmam que a área plantada com grãos passou de 2,4 mil hectares em 2012 para aproximadamente 19 mil hectares em 2017, representando um crescimento de 764% nesse período de 06 anos. A produção, que era de menos de 8 mil toneladas, há três anos, fechou 2017 com 57 mil toneladas, um aumento de 975% no período atingindo a cifra de R$ 57 milhões, com um crescimento de 627% em relação a 2012. Destaca-se ainda que a produtividade (saca/hectare) saltou de 40 sacas em 2012 para 50 sacas em 2017 (crescimento de 25%).
Entre 2016 e 2017 a produção de soja subiu 28,5% no Estado, mas nas exportações o produto dobrou a participação perante o mercado internacional. Segundo números da balança comercial, divulgados pelo Governo Federal, o salto foi de U$$ 10,53 milhões para US$ 22,14 milhões em vendas para o exterior em um ano.
Considerando um cenário favorável com a superação dos principais gargalos que obstaculizam um maior dinamismo do segmento como a regularização fundiária e a celeridade do licenciamento ambiental dados da APROSOJA projetam para o ano de 2022 alcançar 100 mil há de área plantada, com uma produção de 278 mil toneladas e um impacto no PIB do Amapá de R$ 347 milhões.

Dentre os principais fatores que estão contribuindo para o boom do agronegócio no Amapá, destacamos: a proximidade da produção em relação ao porto da Companhia Docas de Santana e do Terminal de Uso Privado em implantação pela empresa Cianport, com infraestrutura de escoamento relativamente adequada; a constituição de toda uma cadeia de fornecimento de elementos básicos para a produção como calcário, fertilizantes e defensivos que permitem a produtividade do solo; a relativa disponibilidade de terras no cerrado amapaense, estimadas pelo Zoneamento Agrícola do Cerrado em aproximadamente 900 mil hectares, dos quais 400 mil tem potencialidade para a produção de grãos; a incipiente, mas crescente estrutura de secagem e armazenagem disponibilizada pela iniciativa privada, dentre outros fatores.

Atraindo investidores


Entre 2012 e 2017 o agronegócio da soja atraiu cerca de 100 empresas para o Amapá e gerou aproximadamente 1.200 empregos. São muitas as vantagens que podem advir deste processo, por exemplo: a viabilização de segmentos correlatos ao plantio e beneficiamento de grãos, como a piscicultura, avicultura e suinocultura, que podem se tornar rentáveis pelo preço das rações (subproduto dos grãos) que tendem a baratear, conforme ilustração abaixo.

 Integração entre sistemas agroindustriais de milho e soja

O plantio de grãos deve promover uma movimentação econômica indireta de praticamente o mesmo valor da movimentação direta. Equivale dizer que o Estado do Amapá pode vir a ter, muito rapidamente, uma movimentação econômica 40% superior a atual.
Em relação à geração apenas de empregos diretos restritos a etapa de cultivo no campo pode-se evidenciar que a mão de obra existente na zona rural dos municípios com potencial de produção de grãos é insuficiente para atender a necessidade dessas novas lavouras. Devemos ter o fenômeno do ÊXODO URBANO. A renda rural média dos trabalhadores nas áreas produtoras de grãos (Itaubal) em 2013 foi de R$ 1.230,00/mês, sendo que nenhum trabalhador recebeu abaixo de R$ 850,00/mês. Ou seja, a renda rural deve ser multiplicada 3 ou 4 vezes.

Produção de alimentos

Dos alimentos consumidos no Amapá cerca de 85% vem de outros Estados. O governador Waldez Góes, tendo sua origem profissional no campo, como técnico agrícola, atuando na extinta Assistência Técnica e Extensão Rural do Amapá (ASTER), sempre direcionou sua preocupação em impulsionar o setor agropecuário do Estado e tirar os amapaenses da dependência da produção agrícola de outras unidades.
Para isso organizou uma equipe técnica de alto nível, que passou a  elaborar os projetos estratégicos para o desenvolvimento e crescimento econômico do Amapá. E, principalmente, a geração de emprego e renda. Um dos primeiros segmentos beneficiados foi o setor primário com a lavoura, com incentivos para o aumento da produção de grãos que daria o suporte para a verticalização da cadeia produtiva de alimentos.

Produção de Grãos        

A agricultura de grãos no Amapá deve impulsionar o deslocamento populacional da zona urbana para a rural, contribuindo para o aumento da densidade populacional e o desenvolvimento socioeconômico da zona rural.
Dentre as vantagens competitivas para a expansão da produção de grãos destacamos: grandes virtudes edafoclimáticas, inclusive com perspectiva de 2 safras por ano; Baixo custo de implantação dos projetos; Alto nível de competitividade logística; Significativo ganho econômico para o Estado; Altíssimo ganho social local e regional; Baixíssimo impacto ambiental; Conflitos fundiários relativamente reduzidos; e Estrutura cooperativista.

Fábrica de Ração


No último ano o Amapá produziu 50 mil toneladas de Soja, sendo que  partefoi vendida para o mercado mexicano, países da europa e Oriente Médio, gerando uma arrecadação de R$ 60 milhões com exportação, apesar de algumas dificuldades. Outra parte está sendo direcionada para a produção de ração e outros subprodutos da cadeia de alimentos.
O presidente da AGROSOJA amapaense, Daniel Seben, explica que nos próximos cinco anos o Amapá deverá chegar aos 100 mil hectares de plantação de soja.
E para a transformação de grãos em ração animal já está em pleno funcionamento a primeira fábrica de ração instalada no Distrito Industrial, gerando mais de 200 empregos diretos. A fabricação de ração animal vai provocar mudanças significativas na economia local, pois o produto que é utilizado hoje para criação de animais vem de outras regiões do país com preços elevados e os produtores ainda sofrem com a espera pela mercadoria.
No entanto parte dos grãos produzidos no Estado já estão sendo usados para a produção de ração de bois e búfalos. O proprietário da fábrica Edson Vilares explicou a reportagem que a produção mensal é de 200 toneladas. “Já temos alguns pecuaristas que já estão implementando o farelo de soja nas suas rações”.
A ração que a empresa produz fica no Estado, o que acaba se tornando uma vantagem para os pecuaristas locais que deixam de importar o produto com um preço muito mais elevado, afetando a competitividade das empresas. Quem afirma isso é o presidente da ACRIAP, Jesus Pontes. “Barateando o custo dos insumos, o Estado criará um ambiente propício e atrativo para novos negócios, inclusive beneficiando toda a agricultura familiar, pela difusão tecnológica que chega no campo. Pois a redução dos custos será expressiva, pois o custo do frete para o Amapá é enorme. Teremos uma queda de 80% nos nossos custos, que será repassado aos consumidores que obviamente passarão a consumir os produtos locais com os preços mais acessíveis e ainda utilizando o Selo Amapá e os incentivos da Zona Franca Verde”.
Este será o início da verticalização na economia amapaense. Pois assim como a fábrica de ração outras indústrias também se instalarão no estado e ampliarão cada vez mais o processo de verticalização e garantir que as riquezas fiquem no Estado.

Câmara Setorial de Produção de Alimentos

Economista Joselito Abranches, vice presidente da
Agência de Desenvolvimento Econômico do Amapá2
A reportagem entrevistou o economista Joselito Abrantes, vice-presidente da Agência de Desenvolvimento Econômico do Amapá, sobre a cadeia produtiva de alimentos e as ações de apoio do governo estadual. Uma dessas ações foi a instalação da Câmara Setorial de Produção de Alimentos e sua importância.
“Para impulsionar e estruturar o fortalecimento dessa cadeia produtiva o Governo do Estado instituiu aCâmara Setorial de Produção de Alimentos composta por 32 instituições públicas e privadas do setor produtivo”.
A Câmara Setorial tem o governador como presidente e constitui-se de um fórum composto por entidades representativas dos elos das cadeias produtivas, que tem por finalidade propor, apoiar e acompanhar ações para o desenvolvimento das atividades dos segmentos produtores de alimentos, além de servir como órgão consultivo do governo. Com o funcionamento da Câmara Setorial espera-se: melhor estruturação dos diferentes elos das cadeias produtivas; promover o diálogo organizado entre o setor privado e o setor público; aprimoramento das políticas públicas e dos serviços voltados aos setores de produção de alimentos; solução de conflitos por meio da negociação, dentre outras ações.
O economista Joselito destacou que a Câmara atua em três eixos principais: a produção de alimentos e grãos, a produção pesqueira e a pecuária, por meio de reuniões mensais visando destravar gargalos e implementar ações na busca pelo desenvolvimento. “Dentre os propósitos da Câmara, que funciona como um Fórum, está a verticalização da produção de grãos, frutas, pescado, pecuária, suinocultura, avicultura, dentre outros segmentos econômicos.
A Câmara conta com um Plano de Ação aprovado por seus conselheiros, inicialmente, voltado para a produção de grãos, sendo que as ações prioritárias que estão sendo implementadas dizem respeito à regularização fundiária das áreas agrícolas do Estado; implantação de instrumentos ágeis e legalmente adequados, de emissão das licenças ambientais para implantação de projetos, e a conclusão do Trabalho de Zoneamento Agrícola do Amapá. O Plano conta com outras ações como a implantação de um programa de atração de investimentos para atrair negócios para o Estado, de empresas ligadas ao setor, tanto de fornecedores de máquinas e equipamentos, quanto indústrias e exportadores; também estamos priorizando a modernização da Legislação Tributária e Fiscal do Estado, criação de programa de certificação socioambiental internacional para a produção local e outros”.
Porém, a pauta da Câmara Setorial não se restringe apenas aos grãos, pois ela é composta por representantes de instituições voltadas para o setor produtivo e com essa vertente da produção de alimentos como a cadeia da pesca, tanto a artesanal quanto a industrial, a aquicultura, assim como o segmento de polpas de frutas.
“Com a integração dessas entidades tenho certeza que todos focarão seu planejamento com esse propósito, priorizando as questões técnicas, sem vaidades, deixando as questões políticas de lado, vislumbrando um projeto de estado e não de governo e com isso gerar emprego e renda pensando nas gerações atuais e futuras, pois é isso que o Amapá está precisando, ou seja, sair da economia do contracheque e criar as condições necessárias para que a iniciativa privada de fato alavanque a economia do Estado”.
Joselito Abrantes ressalta o desdobramento do agronegócio beneficiando a cadeia alimentar: com a expansão da soja e do milhovamos superar um dos principais gargalos que dificultam a produção de alimentos no Amapá que é a produção de ração; com ela estão sendo criadas as condições para alavancarmos a suinocultura, avicultura e piscicultura, bovinocultura, bubalinocultura, dentre outros segmentos. “E tudo cria um ambiente ainda mais propício para a verticalização dessa produção aqui no Amapá. O próprio sistema capitalista preconiza isso, ou seja, cria as condições para o fortalecimento do mercado com a inserção de outras cadeias produtivas se complementam e a rede de negócios toda se retroalimenta”.
Uma das preocupações da equipe técnica econômica do governo amapaense é com referência ao destravamento dos principais gargalos. “Também, essas questões dos marcos regulatórios estão sendo trabalhados pelos órgãos do governo como a nova lei das terras já sancionada pelo governador, que trata doordenamento territorial, cujos procedimentos para a regulamentação fundiária serão divulgados para a sociedade até o final do mês de março do corrente ano. “É uma legislação moderna e alinhada com uma legislação recente sancionada pela Presidência da República sobre regulamentação fundiária na Amazônia que foi intensamente debatida com a sociedade e com os Órgãos de controle”. Quanto ao licenciamento ambiental o IMAP está trabalhando na proposta de uma nova legislação que modernize as ações e crie uma segurança jurídica para os empreendedores e sociedade.

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