‘Boom’ do agronegócio no Amapá
Expansão da produção de
grãos impulsiona negócios na Cadeia Produtiva de Alimentos no Amapá. Fábrica de
Ração já produz 200 toneladas para alimentar bovinos e bubalinos, do rebanho
local, e pode exportar para a região Sul e Sudoeste do Brasil e para Europa e
Estados Unidos.
Reinaldo Coelho
Joselito Abrantes
Joselito Abrantes
O desenvolvimento
industrial e agrícola não é alternativa exclusiva, mas complementar, e acontece
mutuamente e em consonância com os demais setores de atividade, em âmbito local
seja em âmbito mundial. A agropecuária envolve as atividades humanas destinadas
ao cultivo da terra (agricultura) e à criação de animais (pecuária). Abrange
não só a produção de alimentos destinados ao consumo humano, mas também a
alimentação de animais e a produção de matérias-primas industriais.
A agricultura
colabora essencialmente das seguintes maneiras: fornecendo alimento e matéria
prima para os outros setores da economia; criando demanda para bens produzidos
em setores não-agricultura — fomentando um mercado financeiro destinado a
atender os setores de produção agrícola ou procura por maquinário na indústria
–; adicionando capacidade de poupança e investimento; ajudando na inserção no
comércio internacional; estabelecendo uma oferta de emprego.
Marcado por uma geografia
particular, o Estado tem a qualidade de ser banhado pelo maior rio do mundo em
volume d'água e pelo Oceano Atlântico, simultaneamente, além de estar mais
próximo dos principais centros consumidores da América Central, América no
Norte e Europa.
Esta posição estratégica em
relação às demais Unidades Federativas pode tornar viável, do ponto de vista do
trânsito fluviomarinho, a implantação de atividades comerciais com os mercados
nacional e internacional.
A somatória da nova rota da soja
mais o preço das terras no Amapá aliado a adequação do terminal portuário na
Companhia Docas de Santana e a instalação do Terminal de Uso Privado da
Cianport, na Ilha de Santana, transformaram a vantagem comparativa de
localização estratégica do Estado do Amapá em uma vantagem competitiva na área
da produção de alimentos oriundos do agronegócio, bem como da logística de
transporte de grãos provenientes do Centro Oeste.
| Governador do Estado do Amapá, Waldez Góes (P|DT) |
A implantação do complexo
Cianport, joint-venture das empresas Agrosoja e Fiagril, que atuam no Mato
Grosso, e optaram pelo Amapá como ponto de transbordo da sua produção, abandonando
as caras rotas para os portos do sul-sudeste brasileiro. Já se encontram em
operação três silos no Porto de Santana, com capacidade superior a 50 mil
toneladas, além da unidade industrial de beneficiamento de grãos a ser
implantada na ilha Santana. A chegada deste empreendimento estimulou
decisivamente investimentos no setor.
Em relação a logística, estudos
recentes comprovam que a exportação da soja pelo Porto de Santana até Rotterdã,
na Holanda, o frete custa cerca de US$ 75/ton, enquanto partindo do Paraná via
Porto de Paranaguá o frete para o mesmo trecho importa em US$ 125/ton. Já em
relação a Mato Grosso, com a mesma logística do Paraná, o custo do frete
corresponde a US$ 185/ton.
A economia do agronegócio está
crescendo exponencialmente no Amapá. Dados da APROSOJA confirmam que a área
plantada com grãos passou de 2,4 mil hectares em 2012 para aproximadamente 19
mil hectares em 2017, representando um crescimento de 764% nesse período de 06
anos. A produção, que era de menos de 8 mil toneladas, há três anos, fechou
2017 com 57 mil toneladas, um aumento de 975% no período atingindo a cifra de
R$ 57 milhões, com um crescimento de 627% em relação a 2012. Destaca-se ainda
que a produtividade (saca/hectare) saltou de 40 sacas em 2012 para 50 sacas em
2017 (crescimento de 25%).
Entre 2016 e 2017 a
produção de soja subiu 28,5% no Estado, mas nas exportações o produto
dobrou a participação perante o mercado internacional. Segundo números da
balança comercial, divulgados pelo Governo Federal, o salto foi de U$$ 10,53
milhões para US$ 22,14 milhões em vendas para o exterior em um ano.
Considerando um cenário favorável
com a superação dos principais gargalos que obstaculizam um maior dinamismo do
segmento como a regularização fundiária e a celeridade do licenciamento
ambiental dados da APROSOJA projetam para o ano de 2022 alcançar 100 mil há de
área plantada, com uma produção de 278 mil toneladas e um impacto no PIB do
Amapá de R$ 347 milhões.
Dentre os principais fatores que
estão contribuindo para o boom do agronegócio no Amapá, destacamos: a
proximidade da produção em relação ao porto da Companhia Docas de Santana e do
Terminal de Uso Privado em implantação pela empresa Cianport, com
infraestrutura de escoamento relativamente adequada; a constituição de toda uma
cadeia de fornecimento de elementos básicos para a produção como calcário,
fertilizantes e defensivos que permitem a produtividade do solo; a relativa
disponibilidade de terras no cerrado amapaense, estimadas pelo Zoneamento Agrícola
do Cerrado em aproximadamente 900 mil hectares, dos quais 400 mil tem
potencialidade para a produção de grãos; a incipiente, mas crescente estrutura
de secagem e armazenagem disponibilizada pela iniciativa privada, dentre outros
fatores.
Atraindo investidores
Entre 2012 e 2017 o agronegócio
da soja atraiu cerca de 100 empresas para o Amapá e gerou aproximadamente 1.200
empregos. São muitas as vantagens que podem advir deste processo, por exemplo:
a viabilização de segmentos correlatos ao plantio e beneficiamento de grãos,
como a piscicultura, avicultura e suinocultura, que podem se tornar rentáveis
pelo preço das rações (subproduto dos grãos) que tendem a baratear, conforme
ilustração abaixo.
Integração entre sistemas
agroindustriais de milho e soja
O plantio de grãos deve promover
uma movimentação econômica indireta de praticamente o mesmo valor da
movimentação direta. Equivale dizer que o Estado do Amapá pode vir a ter, muito
rapidamente, uma movimentação econômica 40% superior a atual.
Em
relação à geração apenas de empregos diretos restritos a etapa de cultivo no
campo pode-se evidenciar que a mão de obra existente na zona rural dos
municípios com potencial de produção de grãos é insuficiente para atender a
necessidade dessas novas lavouras. Devemos ter o fenômeno do ÊXODO URBANO. A renda rural média dos
trabalhadores nas áreas produtoras de grãos (Itaubal) em 2013 foi de R$
1.230,00/mês, sendo que nenhum trabalhador recebeu abaixo de R$ 850,00/mês. Ou
seja, a renda rural deve ser multiplicada 3 ou 4 vezes.
Produção de alimentos
Dos alimentos consumidos no Amapá
cerca de 85% vem de outros Estados. O governador Waldez Góes, tendo sua origem
profissional no campo, como técnico agrícola, atuando na extinta Assistência
Técnica e Extensão Rural do Amapá (ASTER), sempre direcionou sua preocupação em
impulsionar o setor agropecuário do Estado e tirar os amapaenses da dependência
da produção agrícola de outras unidades.
Para isso organizou uma equipe
técnica de alto nível, que passou a elaborar
os projetos estratégicos para o desenvolvimento e crescimento econômico do
Amapá. E, principalmente, a geração de emprego e renda. Um dos primeiros
segmentos beneficiados foi o setor primário com a lavoura, com incentivos para o
aumento da produção de grãos que daria o suporte para a verticalização da
cadeia produtiva de alimentos.
Produção de Grãos
A agricultura de grãos no Amapá
deve impulsionar o deslocamento populacional da zona urbana para a rural,
contribuindo para o aumento da densidade populacional e o desenvolvimento
socioeconômico da zona rural.
Dentre as vantagens competitivas
para a expansão da produção de grãos destacamos: grandes virtudes
edafoclimáticas, inclusive com perspectiva de 2 safras por ano; Baixo custo de
implantação dos projetos; Alto nível de competitividade logística; Significativo
ganho econômico para o Estado; Altíssimo ganho social local e regional;
Baixíssimo impacto ambiental; Conflitos fundiários relativamente reduzidos; e Estrutura
cooperativista.
Fábrica de Ração
No último ano o Amapá produziu 50
mil toneladas de Soja, sendo que
partefoi vendida para o mercado mexicano, países da europa e Oriente
Médio, gerando uma arrecadação de R$ 60 milhões com exportação, apesar de
algumas dificuldades. Outra parte está sendo direcionada para a produção de
ração e outros subprodutos da cadeia de alimentos.
O presidente da AGROSOJA amapaense,
Daniel Seben, explica que nos próximos cinco anos o Amapá deverá chegar aos 100
mil hectares de plantação de soja.
E para a transformação de grãos
em ração animal já está em pleno funcionamento a primeira fábrica de ração
instalada no Distrito Industrial, gerando mais de 200 empregos diretos. A
fabricação de ração animal vai provocar mudanças significativas na economia
local, pois o produto que é utilizado hoje para criação de animais vem de
outras regiões do país com preços elevados e os produtores ainda sofrem com a
espera pela mercadoria.
No entanto parte dos grãos
produzidos no Estado já estão sendo usados para a produção de ração de bois e
búfalos. O proprietário da fábrica Edson Vilares explicou a reportagem que a
produção mensal é de 200 toneladas. “Já temos alguns pecuaristas que já estão
implementando o farelo de soja nas suas rações”.
A ração que a empresa produz fica
no Estado, o que acaba se tornando uma vantagem para os pecuaristas locais que
deixam de importar o produto com um preço muito mais elevado, afetando a
competitividade das empresas. Quem afirma isso é o presidente da ACRIAP, Jesus
Pontes. “Barateando o custo dos insumos, o Estado criará um ambiente propício e
atrativo para novos negócios, inclusive beneficiando toda a agricultura
familiar, pela difusão tecnológica que chega no campo. Pois a redução dos
custos será expressiva, pois o custo do frete para o Amapá é enorme. Teremos
uma queda de 80% nos nossos custos, que será repassado aos consumidores que
obviamente passarão a consumir os produtos locais com os preços mais acessíveis
e ainda utilizando o Selo Amapá e os incentivos da Zona Franca Verde”.
Este será o início da verticalização
na economia amapaense. Pois assim como a fábrica de ração outras indústrias
também se instalarão no estado e ampliarão cada vez mais o processo de
verticalização e garantir que as riquezas fiquem no Estado.
Câmara Setorial de Produção de Alimentos
![]() |
| Economista Joselito Abranches, vice presidente da Agência de Desenvolvimento Econômico do Amapá2 |
A reportagem entrevistou o
economista Joselito Abrantes, vice-presidente da Agência de Desenvolvimento
Econômico do Amapá, sobre a cadeia produtiva de alimentos e as ações de apoio do
governo estadual. Uma dessas ações foi a instalação da Câmara Setorial de
Produção de Alimentos e sua importância.
“Para impulsionar e estruturar o fortalecimento dessa
cadeia produtiva o Governo do Estado instituiu aCâmara Setorial de Produção de
Alimentos composta por 32 instituições públicas e privadas do setor produtivo”.
A Câmara Setorial tem o
governador como presidente e constitui-se de um fórum composto por entidades
representativas dos elos das cadeias produtivas, que tem por finalidade propor,
apoiar e acompanhar ações para o desenvolvimento das atividades dos segmentos
produtores de alimentos, além de servir como órgão consultivo do governo. Com o
funcionamento da Câmara Setorial espera-se: melhor estruturação dos diferentes
elos das cadeias produtivas; promover o diálogo organizado entre o setor
privado e o setor público; aprimoramento das políticas públicas e dos serviços
voltados aos setores de produção de alimentos; solução de conflitos por meio da
negociação, dentre outras ações.
O
economista Joselito destacou que a Câmara atua em três eixos principais: a
produção de alimentos e grãos, a produção pesqueira e a pecuária, por meio de
reuniões mensais visando destravar gargalos e implementar ações na busca pelo
desenvolvimento. “Dentre os propósitos da
Câmara, que funciona como um Fórum, está a verticalização da produção de grãos,
frutas, pescado, pecuária, suinocultura, avicultura, dentre outros segmentos
econômicos.
A Câmara conta com um Plano de Ação aprovado por
seus conselheiros, inicialmente, voltado para a produção de grãos, sendo que as
ações prioritárias que estão sendo implementadas dizem respeito à regularização
fundiária das áreas agrícolas do Estado; implantação de instrumentos ágeis e
legalmente adequados, de emissão das licenças ambientais para implantação de
projetos, e a conclusão do Trabalho de Zoneamento Agrícola do Amapá. O Plano
conta com outras ações como a implantação de um programa de atração de
investimentos para atrair negócios para o Estado, de empresas ligadas ao setor,
tanto de fornecedores de máquinas e equipamentos, quanto indústrias e
exportadores; também estamos priorizando a modernização da Legislação
Tributária e Fiscal do Estado, criação de programa de certificação socioambiental
internacional para a produção local e outros”.
Porém, a pauta da
Câmara Setorial não se restringe apenas aos grãos, pois ela é composta por
representantes de instituições voltadas para o setor produtivo e com essa
vertente da produção de alimentos como a cadeia da pesca, tanto a artesanal
quanto a industrial, a aquicultura, assim como o segmento de polpas de frutas.
“Com a integração
dessas entidades tenho certeza que todos focarão seu planejamento com esse
propósito, priorizando as questões técnicas, sem vaidades, deixando as questões
políticas de lado, vislumbrando um projeto de estado e não de governo e com
isso gerar emprego e renda pensando nas gerações atuais e futuras, pois é isso
que o Amapá está precisando, ou seja, sair da economia do contracheque e criar
as condições necessárias para que a iniciativa privada de fato alavanque a
economia do Estado”.
Joselito Abrantes
ressalta o desdobramento do agronegócio beneficiando a cadeia alimentar: com a expansão
da soja e do milhovamos superar um dos principais gargalos que dificultam a
produção de alimentos no Amapá que é a produção de ração; com ela estão sendo
criadas as condições para alavancarmos a suinocultura, avicultura e
piscicultura, bovinocultura, bubalinocultura, dentre outros segmentos. “E tudo cria um ambiente ainda mais propício
para a verticalização dessa produção aqui no Amapá. O próprio sistema
capitalista preconiza isso, ou seja, cria as condições para o fortalecimento do
mercado com a inserção de outras cadeias produtivas se complementam e a rede de
negócios toda se retroalimenta”.
Uma das preocupações
da equipe técnica econômica do governo amapaense é com referência ao destravamento
dos principais gargalos. “Também, essas questões dos marcos regulatórios estão
sendo trabalhados pelos órgãos do governo como a nova lei das terras já sancionada
pelo governador, que trata doordenamento territorial, cujos procedimentos para
a regulamentação fundiária serão divulgados para a sociedade até o final do mês
de março do corrente ano. “É uma legislação moderna e alinhada com uma
legislação recente sancionada pela Presidência da República sobre
regulamentação fundiária na Amazônia que foi intensamente debatida com a
sociedade e com os Órgãos de controle”. Quanto ao licenciamento ambiental o
IMAP está trabalhando na proposta de uma nova legislação que modernize as ações
e crie uma segurança jurídica para os empreendedores e sociedade.








Nenhum comentário:
Postar um comentário