VILLI E PABLO TRINDADE
Filho deficiente visual tem no pai o exemplo e força para superar através do ciclismo
Reinaldo Coelho
Duas mãos no guidão, dois pés nos pedais e
olhar concentrado. Será que é apenas dessa maneira que a pedalada pode
acontecer? Muitos são os que têm provado que não. Seja competindo, como meio de
transporte, ou por puro lazer, a bicicleta tem feito parte da vida de muitos
deficientes. O ciclismo fortaleceu e superou as deficiências de milhares de
pessoas no redor do mundo.
Hoje estaremos contando uma história de
superação e inclusão que tem dois personagens unidos pelo laço sanguíneo e pelo
amor ao esporte. São a dupla Villi e Pablo Henrique Trindade (pai e filho) que
tem no ciclismo a alavanca dessa união e amor pelo esporte.
Villivaldo Trindade da Silva ou Villi
Trindade, nasceu na região do Marajó, no Rio Cururu, município paraense de
Chaves, em 16 de novembro de 1979, portanto, 39 anos. Filho de um tradicional
vaqueiro marajoara, Vivaldo Gomes da Silva e da dona de casa, Osvaldina Aires
da Trindade, o mais velho de cinco irmãos. “Como irmão mais velho, tinha a obrigação
de ajudar na criação dos irmãos mais novos e no abastecimento do lar. Nossa
rotina começava as quatro horas e terminava as 10 da noite. Eu trabalhava com
pesca e com búfalo”.
Villivaldo conta que começou a estudar aos 11
anos de idade, pois era difícil estudar e trabalhar, pois não tinha escola na
sua comunidade. “O estudo entrou na minha vida aos 11 anos de idade. Onde
morávamos éramos alfabetizado, não tinha outras séries. Vir estudar em Macapá,
no Distrito de Fazendinha, na Escola José do Patrocínio”.
Mesmo dentro da mata amazônica, nas
profundezas dos caudalosos rios que formam a maior bacia hídrica do mundo, os
sonhos acontecem e traçam os destinos dos caboclos ribeirinhos, que mesmo no
afã da pesca e do trato com o gado, quer crescer e alçar voos maiores, o de
Villi Trindade, era navegar nas águas do mundo, queria ser marinheiro, mas não
mercante, Fuzileiro Naval e servir o Brasil, utilizando o que mais sabia,
navegar. “O meu sonho de servir na
Marinha do Brasil, foi que me trouxe para Macapá, pois somente em um centro
urbano poderia prestar concurso. Tinha duas opções, Macapá ou Belém, optei pela
capital amapaense e aportei com minha família em Fazendinha e daí comecei a
construir a ponte para realizar este sonho e consegui”.
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| Pablo Henrique cruza a linha de chegada e vence a prova. Sonho realizado! (Foto Jonhwene Silva-GE-AP) |
A vinda para Macapá mudou toda a estrutura da
família Trindade. “Minha família que
adotou meu sonho e acreditou em mim, me apoiarem e aqui meu pai, se tornou
magarefe (que abate e descora boi em matadouros) no matadouro da prefeitura de
Macapá. E me tornei lenhador, cortava lenha para as panificadoras e estudava,
vendia “chopp de frutas’ e vendi as vísceras que meu pai trazia, para termos
uma renda melhor”.
Foram 3 anos como ambulante e aos 14 anos
Villi Trindade, com o peso da responsabilidade de manter uma família, que fazia
parte, mas não era a sua, passou a trabalhar como ‘segurança particular’ de
boates e festas locais. “Comecei a trabalhar no antigo TeleClube, na Dympus,
trabalhei na noite. E melhorei muito a vida da minha família, pois tinha um bom
salário”.
Não abandonou seus estudos. Saiu da Escola
José Patrocínio e na 8ª série passou a estudar na Escola Maria Angélica Pereira
Góes e passou no teste da Escola Profissionalizante Graziela Reis de Sousa,
para Técnico em Enfermagem. “Fiz nesta mesma época o concurso para a Marinha do
Brasil e fui aprovado em primeiro lugar”.
Encontrando o esporte
Villi Trindade ao ser aprovado para estudar na
Escola Graziela Reis de Souza, no Centro de Macapá, teve de superar um problema
crucial, o transporte, não tinha renda para manter o transporte coletivo e
optou pela bicicleta. Tinha de enfrentar mais de 40 quilômetros (ida e volta)
diariamente, mas não esmoreceu. “Tive de sair do serviço de segurança e minha
indenização foi uma bicicleta, uma Pro Elite, a melhor marca na época. Aprendi
a andar de bike na minha infância e aos 18 anos comecei a pedalar na Rodovia
Juscelino Kubitschek e um fato surreal aconteceu”.
Este fato foi o start para que o ciclismo
entrasse na vida desse atleta, ele conta que ao vir para estudar em Macapá
cruzava com ciclistas que treinavam e entre eles um senhor de idade, sempre o
ultrapassava e ele se ‘invocou’ e tentou superá-lo e nunca conseguia e mais
tarde foi descobrir que aquele ciclista era o ícone do ciclismo amapaense
Serápio Hyacinth, hoje nome de uma corrida ranqueada nacionalmente e que ele já
disputou.
“Eu não entendia como aquele ‘velho’ conseguiu
me dar uma ‘peia’ que fiquei com vergonha de mim mesmo. Tinha 16 anos. Então eu
conheci outro ciclista o Sebinho (falecido) santanense, e ele me olhou e disse:
- Cara, você com uma perna dessa, ninguém te vence no ciclismo. Fiquei
empolgado. Como fazia Educação Física a tarde, na antiga Praça Zagury e
encontrei uma turma de ciclistas treinando vindo para Fazendinha e encostei
nessa turma e cheguei, cansado, mas cheguei junto com eles. Isso me marcou, por
não ter verba para pagar transporte, minha opção pela ciclismo mudou minha vida
para melhor, pois continuei trabalhando, passei a vender peixe com meus irmão
me ajudando”. A participação na criação dos irmãos, na responsabilidade de
comprar material escolar para eles estudarem ensinou a Villi Trindade a ser
‘pai’.
Villi Trindade, aprovado no concurso da
Marinha do Brasil, foi servir na Base Naval de Belém e após um ano voltou a
Macapá e conheceu a jovem Debora Lopes Ferreira, 32 anos hoje, nascida em Breves
(PA) moradora em Santana. “Tinha 22 anos quando voltei e encontrei um par de
belos olhos azuis, loira muita bonito e bateu essa vai ser a mãe dos meus
filhos e foi e estamos juntos até hoje”.
Esse relacionamento teve idas e vindas, devido
a constante viagens de Villi Teixeira como Fuzileiro Naval, teve de atuar em
diversos serviços oficiais da Marinha do Brasil. “Fui para localidades, que não
posso revelar, por exigência militar e vir realidades absurdas. Estive em um
lugar muito distante, que me marcaram e que nunca o ser humano poderia ser
submetido. A fome a miséria. Foi ai que ao olhar as crianças ali sofrendo, me
veio o meu filho que estava para nascer e que não queria que ele passa por
isso. Tomei uma decisão que todos acharam absurda, pedi baixa da Marinha como Cabo
e tinha uma carreira direcionada, fui condecorado por bravura, e tenho meu nove
gravada na Base Naval de Val-de-Cãs, pois em uma missão salvei a vida de três
militares”.
A motivação da saída era ter uma família,
Villi queria ter uma família e tinha de voltar e se reunir a eles e mais ainda
quando soube que seu filho tinha nascido com deficiência visual e ele sentiu
que precisava ser o guia de seu filho. “A notícia foi chocante, mas me agarrei
a Deus e lhe disse vou sair de onde estou e Lhe peço a oportunidade de ser a
visão desse garoto e Ele me deu e mais dois rebentos, Evelyn, de 14 anos, Lane Graziele de 12 e o
pequeno Vitor, de 8 anos”.
O encontro de pai e filho com o esporte
Nasceu Pablo Henrique Trindade, em 26 de
fevereiro de 2002, na maternidade Mãe Luzia em Macapá, de saúde perfeita, com
deficiência visual. “Com esse nascimento, e a união com a Debora, me trouxe
mais uma responsabilidade a criação dos irmãos dela, me aprimorando como pai e
chefe de uma família. Tinha o exemplo de meu pai, um homem exemplar”.
Como Villi atuava como segurança as artes
marciais eram um instrumento obrigatório de defesa pessoal e ele resolveu levar
Pablo Henrique, aos cinco anos de idade, para conhecer o tatame e foi muito
criticado. “A vida esportiva de Pablo começou pelo Jiu jitsu na academia ‘Cova
dos Leões’ que frequentava. Tínhamos uma projeto ‘Filhote’ e o carro chefe era
o Pablo, pois ele era um exemplo de superação, ele deficiente batia de frente
com os adversários e o forte dele era o golpe ‘Ezequiel”.
Neste entretanto, Villi Trindade já estava
competindo pelo Ciclismo Mountain Bike desde os 18 anos e foi Campeão Amapaense
em 2010, seu primeiro título. “Atuei pela Pedal Leve, e minha primeira
competição foi atrás da UNIFAP, na Trilha do Urubu fui o quarto colocado,
superando os melhores da época. Acredito que pelo alegria da conquista
contagiou o Pablo que me pediu para pedalar, eu quero ser um campeão do
ciclismo igual o senhor”.
Vilivaldo Trindade, foi Campeão em 2010, 2011
e 2013 correu pela Elite, mas foi campeão pela Master e 2014 fechou o ciclo com
4 títulos da Federação de Ciclismo do Amapá.
Villi conta que reforçou a Pablo Henrique, que
ele mesmo deficiente, tudo o que ele quisesse ele poderia fazer e ser. “Eu
serei sua visão, basta você se esforçar que vamos conseguir. Passei a treiná-lo
nas áreas do balneário, pois se ele caísse não se machucaria”.
O pedido pegou a todos de surpresa mas a
vontade do filho foi realizada, e todos os esforços foram feitos. “Coloquei ele
na minha bicicleta e o levei para estrada para que sentisse o vento e nessa
hora o entusiasmo foi muito. Depois fomos para uma área com chão de areia e
comecei as primeiras lições. Não foi fácil, foram muitas quedas até que ele
conseguisse pedalar sozinho. Muitas pessoas falaram que era impossível mas eu
acreditei no meu filho”, comentou o pai emocionado. O menino pedala sozinho e
para que não saia da rota é guiado através da fala.
Como não tinha condições de compra uma
bicicleta, recebeu a ajuda de um amigo que deu uma. “Pablo aprendeu a cair para
depois pedalar e orientando ele rapidamente absorveu e passou a pedalar. Tive
ajuda do Adalpã, Otaviano Freitas e sua esposa Helena Freitas e o Fernando
Freitas e o finado Sebinho. Em 2014 percebi que ele estava preparado e o
inscrevi na Antônio Assmar, mas não como deficiente, porem a organização o
colocou nessa categoria”.
Pablo Henrique se tornou uma das atrações da Corrida
Antônio Assmar, que acontece nos dias 31 de janeiro em Macapá. Já participou de
três provas e em 2016, pela primeira vez, da equipe Tumucumaque, na categoria
deficiente.
“Já participei de provas contra cadeirante mas
eu queria mesmo é que tivesse meninos da minha idade disputando comigo. Eu
gosto de competir muito, aprendi a gostar com o meu pai”.
Vili e Pablo Henrique realizavam os
treinamentos quase que diariamente, mas devido ter sido demitido da empresa de
Segurança onde era Inspetor e até hoje, dois anos depois de ter recebido seus
direitos trabalhistas, mesmo acionando a justiça do Trabalho. Villi Tindade
teve que vender as três bicicletas e estão há dois anos sem competir pelo
ciclismo.
Mesmo sem suas bikes, Villi e Pablo Henrique
não desistem e o jovem de 16 anos disputa o Atletismo e diz que entre o
Ciclismo e o Atletismo, fica com os dois. Pablo também pratica jiu-jítsu,
natação e skate. Tudo supervisionado por Vilivaldo que não esconde o quanto se
orgulha do filho.
O garoto Pablo Henrique é tímido e de poucas
palavras disse que gostou da sensação de vitória e já tem alguém por que o
coração se acelera e deficiente visual como ele e participa das competições de
atletismo. Na vida de atleta de Pablo Henrique Trindade, foi Campeão de
Arremesso de Peso, de Dardo e de Corrida de pista 400 metros e Campeão
Brasileiro de Jogos Escolares de Arremesso de Dardo, representando a Associação
Bruno Mesquita.
“Parabéns meu filho pela prata nos jogos paraolímpicos,
o Amapá ti espera para abraçá-lo, muito obrigado professor Bruno Mesquita e
todos da equipe que estão se empenhando por essa modalidade no estado”,
eufórico Vili Trindade postou nas redes sociais essa declaração ao sucesso do
filho.
É muito gratificante ver um filho realizando um
sonho que para muitos seria impossível. Mas está aí a prova, Pablo Henrique meu
filho conseguiu e serve de exemplo para muitas outros que não acreditam nos
seus sonhos. Tudo é possível, basta somente acreditar que tudo se realiza, -
finalizou Vili Trindade.












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