Mea culpa, quem fez
Trucidou-se a alta estima
de Williane, Miss Amapá, uma moça, que suponho ser bela em função
do concurso que conquistou, onde o maior mérito é a beleza física.
E a ração dos ataques virulentos nas redes sociais foi motivada
pela informação equivocada de que o Marabaixo – manifestação
folclórica afro-amapaense – havia surgido em função de um
afrodescendente que nasceu no bairro Marabaixo em 1984. É um
despautério, sim é; não resta a menor dúvida, porém sejamos
honestos e não onestos. De quem é a culpa da desinformação da
menina? Em parte dela, mas diria que colocando a culpa no campo da
proporcionalidade, ela fica com a menor parte e a educação do Amapá
fica com a maior parte. E arrisco: se em dez moças três responderem
corretamente o que é Marabaixo, troco de nome. Isso lógico, você
apanhando essas moças de forma aleatória.
Falta sim, valorizarmos
nossa cultura, nossa gente, nossas coisas. É o berço dessa
preocupação deveria ser a escola, mas com certeza não é. Estamos
negligenciando nossa história, nossas raízes e nossas tradições.
Falo de forma massiva, lógico que não ignoro os movimentos mantidas
as duras penas por famílias afro-amapaense como a Gongo, Ramos,
Pavão, Naira e os movimentos do nosso interior. A UNA – União dos
Negros do Amapá é a mantida as turras pelo jovem Yuri Soledade, da
família Ramos.
O último grande feito
foi a criação da Academia Amapaense de Batuque e Marabaixo,
composta por uma plêiade de negros ilustres. Precisa abrir e
considerar que o negro não é só aquele que traz o privilégio de
ter nascido com a tez escura, todos nós tem o sangue africano nas
veias, digo a maioria do povo brasileiro e o amapaense não foge a
regra.
Precisamos de mais, muito
mais. Precisamos que nas escolas nossa cultura seja ensinada, sem o
preconceito às vezes velado outras vezes escancarado que percebemos.
Marabaixo é coisa de preto, coisa de bebedor de pinga. Fecha esse
barracão onde esses pretos fazem barulho à noite inteira. Lá se
foi o barracão do pavão ser maculado, sob a obediência covarde dos
que cumpriram a esdrúxula ordem de quem era intruso em Terras
Tucujú, apesar de cumprir função pública destacada no Amapá, mas
quem foi cumprir a ordem sabia que ali acontece anualmente uma
manifestação sagrada em louvor ao Divino Espírito Santo e a
Santíssima Trindade e a parte profana com o Marabaixo e os bailes.
Mas é assim. Atirar
pedra é muito fácil, assumir sua omissão e o silêncio sobre as
coisas que nos dizem respeito de perto é que é difícil. Aí para
lavar a alma daqueles críticos do fato, sem nunca se preocupar com o
contexto encontrou na definição infeliz motivo de sobra para os
ataques.
Alguns
até gozaram, foram ao êxtase ao deitar crítica a ignorante,
apedeuta, obtusa, burra que disse tamanha asneira. Quem repartiu a
culpa? Quem disse: não! Nós temos que inserir definitivamente a
história do negro em nossas grades curriculares, até porque a lei
10.639/03 assim já determina. Quem em sã consciência vai além de
Castro Alves e Zumbi dos Palmares. Meia dúzia. É risível esse
número. Essa adjetivação de que o Marabaixo surgiu no bairro do
mesmo nome em 1984 é um pouco de responsabilidade de cada um de nós.
Quem é João Barca, Ladislau, Natalina, Gertrudes, Zena Costa,
Jurandir Carudo, Pavão, Julião Ramos, Tia Zefa, Sacaca e etc. São
nomes apenas para muitos e, poucos sabem da contribuição cultural
legada por eles a todos nós.

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