sábado, 26 de janeiro de 2019

RECANTO LITERÁRIO





 
VERSO & OSREVNA. 

O LIVRO PÓS-CURA. DITO E PARIDO A PARTIR DE JANEIRO DE 2018, À MEDIDA EM QUE O CÂNCER DESAPARECIA NO RETROVISOR.

Encontrei as moedas do pão que sempre deixas entre o velho receptor de TV e o conversor de sinais. Estava lá também o velho rol de compras onde sempre esqueces o requeijão cremoso e o papel higiênico neutro. Sem perfume.

Na porta do quarto a pequena sandália que te comprei no Ver-o-Peso. Sobre a cama as peças íntimas displicentemente largadas ainda modulam a tua presença.
Agora é recolher os teus pertences em caixas cinzentas organizar tudo em meticuloso ordenamento cronológico sentar na soleira da porta e soletrar mentalmente o sambinha melancônico de Luiz Ayrão
:Noites e noites espero por você que não vem. Cada minuto que passa mais aumenta o meu sofrer. oOo FICA COMIGO
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Hoje eu vi o sol se pondo e era uma bola amarela avermelhando lá por detrás das matas do Curiaú.
Uma lua quase cheia prateava os telhados da BR-156 e me deixava triste.
É que se indo o sol parecia levar consigo todas as minhas esperânsias e vir a ser feliz... oOo LUSCO-FUSCO
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Quando eu vivia sozinho nunca perdi a metade da meia e o par da sandália estava sempre no mesmo lugar. Os cachorros da vizinhança latiam alto quando eu chegava trêbado descendo a ladeira da Pedro Baião mijando cobrinhas e meu Fila Brasileiro sempre respondia quatro comas acima da matilha.
Havia sempre um pão de anteontem para espetar no garfo e esquentar no gás até que o cheiro bom do trigo torrado colorisse o ar da casa toda.
Os bares os amigos os violeiros da noite rodeavam minha casa que se expandia, expandia  e expandia até que a Orla e o Bar do Abreu fossem engolidos pelo meu endereço.
Eu que sempre fui semitonado ouvia cabisbaixo a voz bonita dos meus cantores da noite e repetia baixinho para que só eu ouvisse
:"Mas veio o tempo negro e, à força, fez comigo o mal que a força sempre faz. Não sou feliz, mas não sou mudo. Hoje eu canto muito mais!" oOo RUA SÃO JOSÉ NÚMERO 02
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Se uma andorinha só não faz verão por que você não chega de mansinho e senta bem pertinho do meu coração? Se uma andorinha só não faz verão por que o teu carinho faz beicinho quando o meu carinho põe a mão? Se uma andorinha só não faz verão por que tu vais embora rapidinho da minha ilusão?
Chega juntinho! Traz o teu carinho! Vem de mansinho. Senta aqui pertinho que uma andorinha só não faz verão! oOo MANHÃS DE DEZEMBRO
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Esta saudade que me dói o peito feito ferroada de arraia miúda! Foi assim que rabisquei teu nome no amarfanhado papel d'água marajoara!
Letra após letra berrei n'águabarrenta este teu nome Telma -Líquida cortina tabatinga de saudade.
Não sei de nada mais...
Só que te quero eque te quero agora e nao estás aqui... oOo NAVEGANTE
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Desde a madrugada um pensamento me incomoda. -Como pude aceitar por tanto tempo esta vida salobra que arrasto comigo feito sombra?
Minhas sandálias estão fundas. Marcadas por meus calcâneos e o dorso de meus pés têm a listra das tiras que os protegem do sol. Nos aniversários sirvo suco de groselha com bolo de maniva. Para aquecer a alma cachaça de plástico
e torresmo de ontem. Reciclo pilhas ao sol do meio-dia. O arroz do almoço é o risoto do jantar e isso me revolta como todo o resto desta minha vida salobra que feito sombra arrasto comigo.
Recuso-me a ser assim. Rejeito isso. Não. Esta não é a minha realidade! Não sou isso. Sou um magnata. Um milionário cativo num corpo desprovido de posses que não é meu. oOo SUICIDÈE

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