VERSO
& OSREVNA.
O LIVRO PÓS-CURA. DITO E PARIDO A PARTIR DE JANEIRO DE 2018, À
MEDIDA EM QUE O CÂNCER DESAPARECIA NO RETROVISOR.
Encontrei
as moedas do pão que sempre deixas entre o velho receptor de TV e o conversor
de sinais. Estava lá também o velho rol de compras onde sempre esqueces o
requeijão cremoso e o papel higiênico neutro. Sem perfume.
Na
porta do quarto a pequena sandália que te comprei no Ver-o-Peso. Sobre a cama
as peças íntimas displicentemente largadas ainda modulam a tua presença.
Agora
é recolher os teus pertences em caixas cinzentas organizar tudo em meticuloso
ordenamento cronológico sentar na soleira da porta e soletrar mentalmente o
sambinha melancônico de Luiz Ayrão
:Noites
e noites espero por você que não vem. Cada minuto que passa mais aumenta o meu
sofrer. oOo FICA COMIGO
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Hoje
eu vi o sol se pondo e era uma bola amarela avermelhando lá por detrás das
matas do Curiaú.
Uma
lua quase cheia prateava os telhados da BR-156 e me deixava triste.
É
que se indo o sol parecia levar consigo todas as minhas esperânsias e vir a ser
feliz... oOo LUSCO-FUSCO
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Quando
eu vivia sozinho nunca perdi a metade da meia e o par da sandália estava sempre
no mesmo lugar. Os cachorros da vizinhança latiam alto quando eu chegava
trêbado descendo a ladeira da Pedro Baião mijando cobrinhas e meu Fila
Brasileiro sempre respondia quatro comas acima da matilha.
Havia
sempre um pão de anteontem para espetar no garfo e esquentar no gás até que o
cheiro bom do trigo torrado colorisse o ar da casa toda.
Os
bares os amigos os violeiros da noite rodeavam minha casa que se expandia,
expandia e expandia até que a Orla e o
Bar do Abreu fossem engolidos pelo meu endereço.
Eu
que sempre fui semitonado ouvia cabisbaixo a voz bonita dos meus cantores da
noite e repetia baixinho para que só eu ouvisse
:"Mas
veio o tempo negro e, à força, fez comigo o mal que a força sempre faz. Não sou
feliz, mas não sou mudo. Hoje eu canto muito mais!" oOo RUA SÃO JOSÉ
NÚMERO 02
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Se
uma andorinha só não faz verão por que você não chega de mansinho e senta bem
pertinho do meu coração? Se uma andorinha só não faz verão por que o teu
carinho faz beicinho quando o meu carinho põe a mão? Se uma andorinha só não
faz verão por que tu vais embora rapidinho da minha ilusão?
Chega
juntinho! Traz o teu carinho! Vem de mansinho. Senta aqui pertinho que uma
andorinha só não faz verão! oOo MANHÃS DE DEZEMBRO
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Esta
saudade que me dói o peito feito ferroada de arraia miúda! Foi assim que
rabisquei teu nome no amarfanhado papel d'água marajoara!
Letra
após letra berrei n'águabarrenta este teu nome Telma -Líquida cortina tabatinga
de saudade.
Não
sei de nada mais...
Só
que te quero eque te quero agora e nao estás aqui... oOo NAVEGANTE
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Desde
a madrugada um pensamento me incomoda. -Como pude aceitar por tanto tempo esta
vida salobra que arrasto comigo feito sombra?
Minhas
sandálias estão fundas. Marcadas por meus calcâneos e o dorso de meus pés têm a
listra das tiras que os protegem do sol. Nos aniversários sirvo suco de
groselha com bolo de maniva. Para aquecer a alma cachaça de plástico
e
torresmo de ontem. Reciclo pilhas ao sol do meio-dia. O arroz do almoço é o
risoto do jantar e isso me revolta como todo o resto desta minha vida salobra
que feito sombra arrasto comigo.
Recuso-me
a ser assim. Rejeito isso. Não. Esta não é a minha realidade! Não sou isso. Sou
um magnata. Um milionário cativo num corpo desprovido de posses que não é meu.
oOo SUICIDÈE

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