Conto
"Marido carinhoso"
Da autora Amapaense Ane Chaves
Dando
continuidade aos contos de Janeiro, nessa edição temos um conto produzido pela
nossa autora Ane Chaves, que é Amapaense, já com vários títulos publicados.
Ane se inspira nas experiências de sua
vida para escrever suas obras. Levando ao mundo o universo das palavras onde a
leitura é um infinito de desejos, fantasias e prazeres.
Marido carinhoso
"Cheguei
em casa às três horas da tarde, eu havia saído do trabalho as treze, mas por
conta de um engarrafamento causado por um acidente entre dois carros, tive uma
tarde infernal. O calor estava insuportável, e eu, caindo de sono. Tomei banho
e me deitei na cama apenas enrolada na toalha, pensando em como o dia tinha
sido estranho e assustador.
Nunca presenciei tantos acidentes em um único dia.
Primeiro, o pneu traseiro do meu carro furou, e no exato momento em que parei
no acostamento, um motoqueiro avançou o sinal vermelho e deu de frente com uma
van que entrou na contramão. Tenho certeza que se o meu pneu não tivesse
furado, eu teria sido atingida pela van.
Depois, um motorista mal-educado me cortou quando eu
ia estacionando meu carro. O filho da mãe me roubou a vaga na maior cara de
pau. Nem tive tempo de encontrar outro local vazio para estacionar, na verdade,
ainda estava manobrando o carro quando me assustei com o forte estrondo, e o
barulho de vidro se quebrando. Alguém acabara de se atirar da janela do décimo
quinto andar, e a pessoa caiu bem em cima do carro do motorista ladrão de
vagas. Ele tinha acabado de sair do carro, ficou com as duas mãos na cabeça,
olhando para o cadáver e o estrago que o causara. E eu, fiquei horrorizada com
a cena que acabara de presenciar. Era para eu estar naquela vaga de
estacionamento. Será que meu anjo da guarda estava me protegendo da morte?
Fosse como fosse, eu cheguei no trabalho com os nervos
à flor da pele. Precisei tomar uma água e respirar fundo, antes de receber meu
primeiro paciente. Como psicóloga, eu deveria estar calma para atendê-los. E
repeti a mim mesma, que tudo aquilo não passara de coincidência. Todos os dias pessoas tiram a própria vida e
acidentes acontecem. Tinha oito consultas agendadas para aquela manhã, sendo
que um, acabou cancelando de última hora.
Adormeci segundos depois, deitada de frente para a
parede. De repente, acordei com as carícias de meu marido percorrendo meu corpo
nu, e seus suaves beijos em minha nuca. Ele sempre me despertava com seus
beijos carinhosos. E eu nunca reclamava de suas carícias provocantes, por mais
que estivesse me sentindo cansada. Nos apaixonamos desde o primeiro momento em
que nos conhecemos.
“Amor, você é pesado, sai de cima de mim.”
Senti seu corpo frio se afastar de minhas costas e
ouvi o som da porta do quarto bater quando ele saiu. Sentei de salto na cama,
olhando em volta, exasperada. Lembrando que, eu já estava viúva há cinco
anos".


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