sábado, 26 de janeiro de 2019

EU, CASMURRO


    
Conto "Marido carinhoso"
Da autora Amapaense Ane Chaves




 Dando continuidade aos contos de Janeiro, nessa edição temos um conto produzido pela nossa autora Ane Chaves, que é Amapaense, já com vários títulos publicados. Ane  se inspira nas experiências de sua vida para escrever suas obras. Levando ao mundo o universo das palavras onde a leitura é um infinito de desejos, fantasias e prazeres.

                       Marido carinhoso
  "Cheguei em casa às três horas da tarde, eu havia saído do trabalho as treze, mas por conta de um engarrafamento causado por um acidente entre dois carros, tive uma tarde infernal. O calor estava insuportável, e eu, caindo de sono. Tomei banho e me deitei na cama apenas enrolada na toalha, pensando em como o dia tinha sido estranho e assustador.
Nunca presenciei tantos acidentes em um único dia. Primeiro, o pneu traseiro do meu carro furou, e no exato momento em que parei no acostamento, um motoqueiro avançou o sinal vermelho e deu de frente com uma van que entrou na contramão. Tenho certeza que se o meu pneu não tivesse furado, eu teria sido atingida pela van.
Depois, um motorista mal-educado me cortou quando eu ia estacionando meu carro. O filho da mãe me roubou a vaga na maior cara de pau. Nem tive tempo de encontrar outro local vazio para estacionar, na verdade, ainda estava manobrando o carro quando me assustei com o forte estrondo, e o barulho de vidro se quebrando. Alguém acabara de se atirar da janela do décimo quinto andar, e a pessoa caiu bem em cima do carro do motorista ladrão de vagas. Ele tinha acabado de sair do carro, ficou com as duas mãos na cabeça, olhando para o cadáver e o estrago que o causara. E eu, fiquei horrorizada com a cena que acabara de presenciar. Era para eu estar naquela vaga de estacionamento. Será que meu anjo da guarda estava me protegendo da morte?
Fosse como fosse, eu cheguei no trabalho com os nervos à flor da pele. Precisei tomar uma água e respirar fundo, antes de receber meu primeiro paciente. Como psicóloga, eu deveria estar calma para atendê-los. E repeti a mim mesma, que tudo aquilo não passara de coincidência.  Todos os dias pessoas tiram a própria vida e acidentes acontecem. Tinha oito consultas agendadas para aquela manhã, sendo que um, acabou cancelando de última hora.   
Adormeci segundos depois, deitada de frente para a parede. De repente, acordei com as carícias de meu marido percorrendo meu corpo nu, e seus suaves beijos em minha nuca. Ele sempre me despertava com seus beijos carinhosos. E eu nunca reclamava de suas carícias provocantes, por mais que estivesse me sentindo cansada. Nos apaixonamos desde o primeiro momento em que nos conhecemos.
“Amor, você é pesado, sai de cima de mim.”
Senti seu corpo frio se afastar de minhas costas e ouvi o som da porta do quarto bater quando ele saiu. Sentei de salto na cama, olhando em volta, exasperada. Lembrando que, eu já estava viúva há cinco anos".


Nenhum comentário:

Postar um comentário

ARTIGO DO GATO - Amapá no protagonismo

 Amapá no protagonismo Por Roberto Gato  Desde sua criação em 1988, o Amapá nunca esteve tão bem colocado no cenário político nacional. Arri...