sexta-feira, 21 de junho de 2013
Dos medos e anseios desse maravilhoso furdunço.
Há exatos sete dias, publicou-se na coluna Antenados uma espécie de apelo à consciência do brasileiro. A pretexto da Copa, voltamos a gritar as angústias de antes: se não estamos preparados para sustentar a nós mesmos, que dirá à Copa; o Brasil precisa acordar, deixar a acomodação de lado; precisamos gritar e não nos conformar com toda a fanfarronice política reinante.
Bem, foram sete dias suficientes para que o Brasil, surpreendentemente, acordasse. De lá para cá, um rebuliço geral em nossa Nação. Estamos em estado de graça, ainda que feridos, e sangrando, e lacrimejando. Nunca o Brasil ouviu tantas vozes se juntarem nas ruas. Já não somos o país dos carnavais.
Continuamos não preparados para uma Copa (e não é Copa o que queremos), é verdade, mas estamos mais do que preparados (enfim, enfim!) para gritar contra nossa precariedade. E exigir que algo seja feito. Um dos problemas da hipocrisia que enfrentávamos, antes dessa última semana, era a insistência com que pedíamos melhorias, sem, contudo, nos mobilizar por isso. Não podíamos cobrar, porque nem mesmo queríamos levantar da poltrona; estávamos em débito, primeiramente, com a gente mesmo. Mas, estourada as manifestações, vimo-nos finalmente livres para sermos os monstros apavorantes que os governantes corruptos e as autoridades omissas deverão temer.
É muito cedo para falar sobre as consequências definitivas de todas essas manifestações no Brasil. Em São Paulo, pelo menos, a tarifa do transporte público voltou a baixar. Os vinte centavos permanecerão nos bolsos dos brasileiros. Essa foi uma primeira vitória. Mas, como o movimento cresceu e deixou de ser apenas uma questão paulista, ainda há muito que esperar.
A indefinição dos protestos - ou melhor, a mixórdia de apelos, gritos de guerra, bandeiras de luta e problemas lançados à cara dos culpados - pode ser encarada, é verdade, como um estorvo aos objetivos que buscamos. A mescla de interesses pode até mesmo acabar por sabotar o movimento. São Paulo mobilizou-se contra o reajuste da passagem, organizou-se em torno de um propósito comum, de termos práticos e bem definidos. Veio à solução, ao que parece. Mas falta agora saber: o que será feito dos outros gritos? Que fim terão as outras lutas e bandeiras, muito mais complexas, menos práticas, de soluções menos instantâneas?
É de se esperar que, nessa balbúrdia toda, e balbúrdia saudável, muitos tentem fazer da revolução incipiente mais uma maquinação partidarista. Os esquerdistas temem a extrema direita - mesmo que já não saibamos mais quem é gauche, quem é droite, quem é oposição, quem é situação -, temem que eles possam aproveitar-se da liquidez dos protestos, da vastidão de vozes e da falta de um líder para centralizar a coisa e dominar as mentes. Os de direita, se é que não é tudo um grande centro, temem as bandeirinhas vermelhas que aqui e ali aparecem tremulando na multidão, anunciando o pesadelo comunista extremado que tanto os assusta.
Mas, de modo geral, já não queremos saber de partido. Esta luta são de inteiros. Não é política, não no sentido que a política assumira até agora para os brasileiros. Só existe um lado a se lutar, neste momento: o das mudanças, boas, eficazes e definitivas. O mais difícil já aconteceu: acordamos! Agora, de pé, não cairemos. Pode até ser que o fervor arrefeça, os ânimos se acalmem, venha o diálogo, no lugar das pauladas, ou então, mais tristes de tudo, pode ser que o entusiasmo se transforme em vaidade e orgulho. Pode ser que nos enamoremos de nós mesmos e, narcisistas, esqueçamos o objetivo principal de tudo isso. Pode ser até que usem a vigor - ou "vandalismo", como chamou a mídia - dos protestos para deslegitimar o processo revolucionário que se deflagra. Pode.
Entretanto, de todas as variáveis possíveis para o futuro, uma certeza está garantida, e apenas o fato de já a termos conosco, promove alento. Essa certeza, meus compatriotas, é a de que o Brasil, hoje, mudou de rumo. Se para caos ou bonança, ainda saberemos, o tempo está aí, e corre. De todas as sensações a se experimentar, a mais importante agora é sem nos deixar engrandecer com a soberba de nossa própria mobilização, nos alegrar por termos finalmente saído da letargia e não descansar até ver o novo se sagrar.
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