sexta-feira, 16 de agosto de 2013





Aquilo que você já não lembrava


Creio que meu público leitor (vulgo família) não aprecie muito quando me coloco filosófica ou ruminante demais em meus textos para o jornal... Mas eu acredito na legitimidade da primeira inspiração - embora aprimorada em momentos posteriores -, venha ela nos trajes que vier.


Minha inspiração hoje então clama para que eu divague um pouco sobre assuntos de infância. Mais precisamente sobre aquele sentimento que frequentemente experimentamos e que é mais ou menos assim: "Tão bom quando a gente era criança e não tinha que se preocupar com nada!". Eu, bicho nostálgico que sou, quase sempre me flagro seguindo os eflúvios da infância, pensando nesse tempo que era lindo e que já foi embora para sempre.


Mas, por outro lado, analisando com mais afinco e não me deixando enganar por impressões imprecisas, não penso que a infância tenha sido integralmente esse terreno tão fértil e tão fácil que a nossa mente de adulto costuma nos fazer rememorar com saudades.
Não era como se não tivéssemos medos, monstros, preocupações. Eles podiam ser bobos, é verdade, mas, pensem só... Eram muito mais apavorantes! Não desenvolvêramos ainda essa couraça que agora nos protege das extremidades pontiagudas do mundo, e até os mais insignificantes pensamentos, lugares, sentimentos e objetos de então nos assustavam. As coisas que enfrentamos na infância têm potencial para serem as mais dolorosas de toda a vida.


Nossos medos eram o quê? O sapo, a aranha na parede. Ser esquecido na escola. Os inimigos do colégio, que jogaram seu estojo no vaso sanitário e derramaram suco no seu uniforme. O pesadelo recorrente. Pedir a conta. Cumprimentar os mais velhos. Atender ao telefone. Pensar que seus pais deixaram você com seus avós porque planejam nunca mais voltar da festa...
É um mundo de medos que não conhecem limites. Ao mesmo tempo, toda criança é mais corajosa do que qualquer adulto pode perceber ou lembrar. Não tenho reservas ao afirmar que a infância, mesmo sendo coisa tão tenra, nos molda de uma maneira tão apertada e inexorável que chega a sufocar.


Experimentamos avassaladora saudade dos tempos pueris porque nossa mente filtra as lembranças. Ademais, devemos admitir que os adultos tentavam nos poupar de muita coisa, e isso hoje nos faz falta, essa ignorância... Não sabíamos bem dos dramas da família, do bairro, do planeta ou da novela das 8. Vivíamos numa bolha que, aos olhos dos crescidos, era sempre muito confortável e muito segura. Mas essa bolha de segurança e paz estourava a cada hora, a cada minuto!


A infância de alguém que hoje guarda as memórias mais doces, tendo desfrutado de um lar estável e amoroso, e que já não se lembra das incompreensões e dificuldades da meninice, mesmo essa pessoa , ela sofreu, e muito. Pode até ter sentido dores de natureza diferente das de crianças que cresceram em casas destruídas, que tiveram seu tempo roubado, que foram arrancadas da própria inocência, mas, mesmo assim, também sofreu.
Os medos da infância, ainda que tenham vindo de motivações díspares para cada um de nós, eram tão cortantes quanto, ou mais cortantes que os de agora (porque já estamos amestrados, acostumados à implacabilidade das circunstâncias). Perto dos sofrimentos da infância, crescer é um alívio...


O que quero dizer com tudo isso? Não sei bem. Ou melhor, sei, mas não direi, para que você mesmo decida como pensar, e que pense na criança que você foi, e que observe bem as crianças que hoje cercam você. Quanto a mim, quando olho para uma delas, mesmo na minha incompreensão de pessoa crescida e com memórias esmaecidas, consigo ver que ali, atrás daqueles olhos, já se esconde um mundo de lágrimas muito bem justificadas. E lamento por, à minha época, não ter sabido que me era permitido chorar sem soar ingrata...

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