Quantas horas devemos trabalhar?
A mãe chega com a filha para o
atendimento médico. Deveria ter vindo mais cedo, pensa ao olhar o tamanho da
fila. Após horas de espera, entra no consultório. Relata os sintomas da criança:
apatia, desânimo, irritação, sonolência e adoecimento frequente. O médico
começa a anamnese. Perguntas sobre a vida da criança se sucedem e a mãe
pacientemente responde questão após questão. Espera pela receita, mas em vez
disso recebe um relato. Segundo o médico, os sintomas da filha não são
diferentes dos de outras crianças que atendera e que trabalhavam nas indústrias
locais. Definitivamente, diz ele, crianças de oito anos não devem trabalhar mais
de dez horas por dia!
Relatos médicos defendendo que as
crianças trabalhassem menos de dez horas por dia não é ficção, ocorreram de
fato. Embora atualmente os infantes não possam trabalhar no Brasil, as centrais
sindicais têm reivindicado a redução da carga horária de trabalho sem redução
salarial para os adultos. Tramita no Congresso Nacional, há 18 anos, uma
Proposta de Emenda Constitucional, a PEC 231/95, que trata do tema. Os
empresários, em sua grande maioria, são contra. Entre os trabalhadores, a
redução é aceita, mas há aqueles que exclamam de imediato: “Isso é coisa de
quem não quer trabalhar!” Excluindo o processo ideológico que está embutido em um
trabalhador fazer tal afirmação, cabe perguntar se devemos trabalhar 4, 6, 8,
10 ou 12 horas por dia. Em geral, por força do hábito e de nosso contexto
social, estamos arraigados à lógica das 8 horas diárias, mas esta quantidade de
horas é justa e correta? Afinal, qual a tábua de referência que deve nos guiar na
determinação da adequada extensão da jornada de trabalho?
No
final do século XIX, período em que a Revolução Industrial instituiu uma nova
lógica de trabalho, eram comuns jornadas de 11, 12 e até 13 horas diárias,
durante seis dias por semana e sem direito a férias. A pessoa chegava para
trabalhar ao nascer do sol e retornava para casa na escuridão da noite. Isto
quando voltava, pois não era incomum o trabalhador, exaurido, dormir no local
de trabalho. Homens, mulheres e crianças eram todos submetidos a este insalubre
e insano regime de trabalho. Os patrões tinham absoluto domínio sobre o
trabalhador, não havia legislação restritiva, e isto se expressava na forma de
uma exploração esdrúxula que avançava sobre o limite da capacidade de
resistência física dos trabalhadores.
Sob
o peso desta exploração explodiram fortes movimentos reivindicatórios. As
greves que se opunham a esta configuração da vida laboral na emergente
sociedade industrial tinham como objetivo limitar a duração da jornada de
trabalho, controlar o trabalho das crianças e proibir o trabalho noturno de
mulheres e crianças. A política de resistência por meio de greves e paralisações
foi vitoriosa e conseguiu estabelecer limites às extensões das jornadas de
trabalho. O Brasil, a partir da década de 30, também por conta de
manifestações, regulamentou o teto de 48 horas semanais via legislação
trabalhista. Esta definição permaneceu até 1988, quando a Constituição Federal
estipulou o novo limite em 44 horas.
Apesar da redução, a jornada em
vigência no Brasil é uma das mais extensas do mundo. Países como Suécia,
Alemanha e França têm jornadas de trabalho de menos de 40 horas semanais. A
Inglaterra, berço da Revolução Industrial e onde as explorações foram muito
intensas, apresenta uma jornada de 32 horas semanais. Estes países não
quebraram por terem determinado reduções da jornada de trabalho, ao contrário, houve
benefícios. Na França, por exemplo, a instituição de 35 horas resultou em
melhora na produtividade dos empregados.
Aos
que alegam os custos envolvidos como um impedimento para implantar a redução, é
bom lembrar alguns fatos. O trabalhador brasileiro é mal remunerado, pois o custo
da mão de obra nacional é de aproximadamente 6 dólares por hora, enquanto alcança
valores entre 25 e 30 dólares por hora em países como EUA, Inglaterra, Itália,
Canadá e Austrália. Assim, a redução da jornada, que provocará um aumento
inferior a 2% no custo de produção, de forma alguma tornará os salários pagos
aos brasileiros impeditivos para a competição de nossas empresas no mundo
globalizado. Além disso, a redução de 44 para 40 horas de trabalho semanais pode
vir a gerar mais 2,5 milhões de postos de trabalho. Em efeito cascata teremos abertura
de postos de trabalho, mais emprego formal, mais pessoas com poder de compra,
maior dinamismo da economia e combate à crise. O trabalhador, por sua vez, terá
tempo para a formação profissional, o lazer e o convívio com a família.
O
Estado deve intervir no sentido de impedir que a ideologia da competição
excessiva que permeia o mundo das empresas se volte contra o trabalhador. A
legislação precisa assegurar que cada um de nós exerça suas atividades sem que isso
signifique trabalhar ao longo de todo o dia e não encontrar com a família,
salvo ao retornar para casa tarde da noite, exaurido e sem forças para brincar,
educar e interagir com os filhos. Assim, apoiemos a PEC 231/95 e lutemos pela redução
da jornada de trabalho sem redução do salário. Agora, mesmo vitoriosos nesta
luta, ainda cabe perguntar: Quantas horas devemos trabalhar?
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