Menino velho em noite de Natal
Quando você é pequeno, aquela pergunta: "Se pudesse ser um animal, qual seria?". Você, no auge de seus seis, sete anos, responde: "Se eu pudesse ser um animal... Eu seria um leão!". Porque o leão é o rei da floresta! Você nunca nem mesmo viu um... Mas talvez seja isso. O encanto.
E dali a alguns anos perguntam de novo: "Que animal você seria?". Meio desconfiado, você responde: "Acho que... Uma águia". Ah, já vejo! A história norte-americana lhe encanta, estudou na escola, está com isso na cabeça.
Mas supera. E passam-se os anos, sim, porque eles passam. E quando, numa noite de Natal, reúnem-se os primos ao redor de você, e de novo aquela antiga brincadeira, aquela em que cada um escolhia um Power Ranger, um sabor de sorvete, e, por fim, um magnífico ser da fauna, você, tranquilo, responde: "Eu seria um elefante...". E por que isto, meu camarada? "Acho que porque os elefantes não esquecem".
E nessa resposta séria há tanto!... Já se vê, você mudou. O menino que antes queria o leão feroz, a águia irrefreável, hoje quer apenas o impassível e solene, grave e reservado, quem sabe carinhoso, manso elefante. Que mistério há neste bicho que o ex-leão-menino agora deseja ser?
É que passou o tempo e o menino cresceu. Já não há tanto prazer em matar manadas pela savana, ser o rei do mundo... Já não há o encanto de voar por todos os céus e jamais voltar para casa, sempre além, sempre longe... Não. Você já não se sente capaz, nem tem vontade. Ah, mas lembrar-se!... O que você quer agora é ter a incrível capacidade de guardar na memória todos os castelos de areia que construiu. A vida vai se fazendo menos cheia de ocorrências e tão mais cheia de lembretes... Você está crescendo, rapaz. E eu entendo por que ter a memória dum elefante. Porque é aí que se guardam os tesouros. Há esperança na lembrança, ou ainda, doce contentamento em ressaborear o que se viveu.
Vêm outros Natais. A noite tranquila, a espera pela madrugada, a ceia, a família, tudo como outrora... Contudo, já não há tantos presentes sob a árvore. As crianças cresceram. E a família, que era tão grande, vai diminuindo... Alguns partiriam, poucos chegaram. A contagem é um tanto dura. "Feliz Natal!". Abraçam-se. Então se reúnem naquela madrugada, depois da ceia, os primos. E a brincadeira que virou tradição toma conta da conversa. Vocês já não se viam há algum tempo... Muitos estão morando longe. A maioria ali já tem barba suficiente para se passar por um legítimo Noel. E, em meio à brincadeirinha natalina que os acompanhou durante anos, chega a sua vez de responder: "Que animal você seria?".
Não sabe. A verdade é que, se pudesse, diria ainda "um elefante". A vontade, inclusive, aumentou. Um elefante tão grande que se firmasse no chão com as quatro patas, no chão do passado, do presente, e jamais pudesse ser arrancado. Um elefante que nunca se esquecesse do rosto de todas as pessoas que amou e que partiram, um elefante que não pudesse ser derrubado pelas intempéries, um elefante que salvasse doentes e feridos, um elefante que não esquece do que foi bom. Você, menino velho, quer, mais do que nunca, o talento do paquiderme...
Mas há algo mais dentro de ti. E esse algo não te deixa dizer as palavras. A questão já não é mais sobre o animal que se quer ser, e sim sobre o animal que, neste momento, você sente que é. Então, súbita, vem uma lembrança... Lembrancinha apagada, sumida... E você conta aos seus primos, na esperança de que eles entendam a agonia nostálgica, sem que para isso você exponha seus sentimentos todos e acabe soando muito filosófico, um tanto piegas. E conta: "Vocês lembram de quando a gente era criança e uma vez encontrou um siri aí na jardim da vovó...?".
Balançam a cabeça, afirmando que sim. Há um momento de silêncio antes que todos ao redor possam lembrar exatamente daquele acontecimento. Ora, o jardim da casa da vovó dava para uma lagoa, e um dia, os primos brincando por ali, acabaram encontrando um sirizinho afogado numa pequeníssima poça d'água, poça que talvez tenha se formado quando a lagoa subiu muito de nível, deixando bastante lama atrás de si. Era época de Natal, época de chuva. Choveu tanto que a lagoa cresceu... Depois recuou, mas o sirizinho ficou. Morreu afogado.
Aí você pigarreia um pouco, ao terminar a história. Não quer falar. Mas um de seus primos, uma prima, na verdade, ela ergue a cabeça, olha para todos, e diz: "Eu também me sinto assim...". Há um tácito entendimento. É o tempo que passa. Aqueles que você ama vão ficando fracos, velhos. Você também. Voava longe, caçava feroz, agora só quer um canto onde possa se eternizar, ao lado dos que ama... Poderá um dia? Fica apenas a sensação da impotência, afogados no tempo. E todos pensam em uníssono: "Eu sou aquele sirizinho...".
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