Hora de defender a PM
O jogo de futebol entre Vasco da Gama e Atlético Paranaense, esse buscando uma vaga na Taça Libertadores da América, aquele esperneando contra a agonia do rebaixamento, demorou muito mais que o usual. Houve conflito nas arquibancadas e, de ambos os lados, indivíduos encurralados por torcedores do time adversário foram surrados impiedosamente. Alguns ficaram desacordados e foram socorridos posteriormente. O caos começou aos 17 minutos do primeiro tempo e o jogo ficou interrompido por mais de uma hora em virtude da agressão e do atendimento aos feridos. A batalha campal foi tão feroz que só não teve mortes por pura sorte.
A Polícia Militar (PM) estava do lado de fora do estádio e chegou para conter o conflito 10 minutos após seu início. O posicionamento da PM era oriundo de uma sugestão do Ministério Público (MP) que alegou ser aquele evento de ordem privada e que, portanto, a segurança no interior do estádio deveria ser efetivada por empresas particulares. Segundo a leitura do MP, à PM caberia, como órgão de segurança pública, fazer o trabalho de policiamento em espaços públicos como os acessos ao estádio. Após o ocorrido muita gente criticou a PM e o MP por assumirem a posição de deixar o evento particular sob a segurança de empresas privadas. A própria presidente do país se arvorou em fazer essa alegação. Não poderiam estar mais errados.
A PM tem estado no olho do furacão, em especial no ano de 2013. Elevado número de morte de cidadãos perpetrados pela corporação e uso excessivo de força contra manifestantes são apenas algumas das críticas apontadas contra a instituição. O desgaste da corporação é tão grande que uma das soluções apontadas tem sido a desmilitarização da polícia. Entretanto, no caso da violência no final do Brasileirão 2013, é preciso defender a PM, pois sua postura foi absolutamente correta.
O uso de segurança particular em eventos privados é regra mundo afora, inclusive nos estádios. E também o é no Brasil quando não se trata de jogos de futebol. Seguindo essa lógica, a determinação do MP informava ser obrigação do mandante do jogo promover a segurança interna e assim foi feito. Entretanto, a PM de Santa Catarina, estado onde ocorreu o jogo, disse que a equipe de segurança privada estava mal preparada. E realmente estava. As informações dão conta de que havia 100 seguranças munidos apenas de camisetas com a identificação da empresa e braços fortes. Na hora que começou o conflito, os funcionários da empresa de segurança correram para longe do tumulto. E que ninguém os critique! É necessário dizer que qualquer um correria, pois braço largo não resolve problema em meio à multidão em turba. Para conter um conflito naquelas proporções é necessário pelo menos uma equipe que tenha preparo, treinamento conjunto e equipamento adequado. Nada disso estava disponível, nada!
É importante destacar que nesse caso, como em quase todos, a mídia evitou criticar a iniciativa privada. Todos os problemas foram apontados como da esfera pública, especificamente PM e MP. Curioso isso, os empresários contrataram uma equipe de segurança privada em número, equipamento e treinamento insuficiente para fazer o serviço e a esfera pública é quem recebe toda a culpa.
Nesse contexto, uma pergunta deve ser feita: Para onde seguem os imensos recursos arrecadados por quem promove o evento? Para os bolsos dos empresários envolvidos! Esse lucro poderia ser utilizado para o estabelecimento de um esquema de segurança eficiente, mas isso diminuiria o lucro. Contratar poucos indivíduos com braços enormes e deixá-los espalhados pelo estádio na esperança que não haja conflito, está longe de ser uma estratégia de segurança. Mas isso ocorre porque é custoso investir em equipamentos, pagar salários aos seguranças e estabelecer treinamento permanente. Então, em vez de dividir parte dos lucros e ofertar um serviço adequado à população, é mais fácil criticar as entidades públicas. Lamentável que a presidente do país, uma servidora pública em exercício, se alinhe com essa postura.
Mas sempre pode piorar! Alguns alardeiam que deveria haver pagamento à PM ou ao governo do Estado pelos organizadores para que os órgãos de segurança atuem em eventos privados. Isso significaria destinar os esforços públicos para atender a iniciativa privada e deixaria o sistema público de segurança ainda mais carente de pessoal. Deve haver uma taxação na forma de imposto sobre a arrecadação destes eventos e a segurança pública deve ocorrer apenas nos espaços públicos. Em eventos privados, segurança privada. Caso contrário, cada evento irá solicitar a presença da PM, ou seja, teríamos a privatização definitiva da segurança pública. Se for assim, cada um de nós pode exigir um membro da PM fazendo a segurança no interior de nossas casas. Se todo cidadão tiver esse direito, isso significaria que todos nós seríamos policiais militares para atender a demanda? Se assim for, quero alertar que ainda não recebi meu soldo nem fui informado da minha patente!
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