Irene
Neste começo do mês de janeiro sempre carregado por um contexto de muita chuva e forte umidade, lembrei de um episódio ocorrido em Havana-Cuba, quando estive cursando o doutorado. A televisão cubana divulgou que em três dias iria passar o furacão Irene, as consequências seriam devastadoras, tal fenômeno era considerado com alta intensidade. O Ministro foi a televisão e recomendou a toda população que armazenasse água e alimentos para um período de três dias, e alertou para ninguém saísse de casa até cessar o perigo, assim foi feito. No prédio onde residia, cumprimos rigorosamente as recomendações, após passados três dias os resultados da passagem do furacão Irene tinha sido devastador: árvores tombadas, a rede elétrica completamente destruída, a cidade sem energia e faltava água.
Passados mais dois dias graças ao trabalho de mobilização social do Estado, empresas e a população em geral foi possível restabelecer a ordem para o caos que se apresentava, logo pensei em nossa cidade de Macapá, se tal episódio semelhante tivesse ocorrido teríamos muita dificuldade para amenizar os possíveis danos. Este episódio evidenciou para mim, algumas reflexões importantes, por maior que seja a adversidade, o grau de mobilização da sociedade é fundamental para superar os múltiplos transtornos ocasionados.
Qualquer chuva com maior grau de intensidade nas cidades de Macapá e Santana provocam profundos danos, todos os anos tem sido assim, mas cadê aquele trabalho de mobilização social que deveria em tese começar antes de iniciar o período invernoso, vivemos permanentemente em estado de "calamidade". Destaquei em artigos anteriores que estudos realizados pela Organização das Nações Unidas comprovou que gasta-se mais de 50% de recursos para restaurar ou revitalizar ambientes degradados, este fato tem contribuído para endividar cada vez mais estados e municípios.
O exemplo de Havana, quando ocorreu a passagem do furacão Irene evidencia que precisamos investir mais em mobilidade social e capital social. Se considerarmos que Cuba é um país que há décadas atravessa uma grave crise econômica, por outro lado graças ao sentimento de integração popular, muitos dos problemas cotidianos e citadinos são superados. O que fazer diante de tal situação que nos coloca muito mais como vitimas, do que propriamente como protagonistas de mudanças efetivas para sociedade.
Devemos lembrar que a sociedade atual está ficando cada vez mais isolada, com isso a violência e outras adversidades vem tomando conta de tudo, não tem sido fácil este contexto. Estudos recentes em relação ao estágio atual dos municípios amazônicos com a coordenação da Universidade Federal do Pará através do Alto Núcleo de Estudos Amazônicos e com a participação da UNIFAP, tem evidenciado que os maiores problemas do desenvolvimento social está relacionado a formação de capital humano e social.
O preço da desmobilização social é muito elevado, tudo passa pelo sistema político vigente no Brasil, excesso de paternalismo, comprometimentos e loteamento dos interesses políticos e partidários. O resultado é a falta de bom senso para tudo, começa desde um político que desvia recursos públicos, a um cidadão que joga qualquer tipo de produto em um canal. Vivemos uma crise ética, será que falta recurso mesmo? Creio que na prática, o que falta é exatamente melhorar os níveis de governança local.
O aprendizado com a passagem do furacão Irene na cidade de Havana em Cuba, mostrou, é preciso estar antenado com todo o contexto, cada setor, deve saber exatamente qual é o seu papel. As primeiras chuvas que caíram fortemente sobre Macapá nestas duas primeiras semanas de janeiro, mostram nossas fragilidades, não existem mais associações atuantes nos bairros que não sejam apenas interessadas nos benefícios dados pelos políticos e pelos partidos.
Cada um, procura resolver o seu problema da forma mais individualizada possível, é o sujeito que constrói a calçada gerando algum tipo de barreira para a passagem da água, é o lixo jogado nas vias públicas, sacos, entulhos e por último o aterro indiscriminado de áreas úmidas que tem a função de controlar o ciclo das águas. Não será preciso ser um grande especialista para saber o que irá acontecer nas próximas semanas. Por enquanto, iremos presenciar em Macapá diversos "furacões Irenes", porém sem a intensidade daquele furacão que presenciei em Havana.

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