sexta-feira, 17 de janeiro de 2014

Os números não mentem?

Desde pequenos, escutamos que os números não mentem. Porém, os números não escapam de manipulações que tentam entortar contas a partir de contos. O homem sequer sonhava com eleições, contagem dos miseráveis e dos homicídios, muito menos de acidentes de trânsito, mas lá pelo século VI, Santo Agostinho já alertava aos bons cidadãos contra os matemáticos e todos aqueles que faziam profecias vazias. Segundo Santo Agostinho, eles tinham feito pacto com o diabo para obscurecer o espírito e manter o  homem no cativeiro do inferno.
Agora, já no século XXI, pactos demoníacos à parte, o brasileiro ainda hoje encara os resultados das estatísticas com uma  dose de ceticismo. Não importa o que se pretende retratar, seja a popularidade dos políticos, a saúde, a educação, a segurança ou a economia do país, estados ou municípios, os números que são calculados, tanto pelos órgãos oficiais como por institutos independentes, são, senão diabólicos, pelo menos tratados como casos misteriosos.
O brasileiro tem os seus motivos, está sempre acostumado a assistir infindáveis bate-bocas sobre a validade dos números que lê. Parece que por trás de uma pesquisa que é divulgada corre sempre uma polêmica. Já escutamos por aí que quando dois especialistas falam, os que não são do ramo abaixam a orelha, o pior é que por aqui muitos gestores vem a público falar sobre pesquisas e não são especialistas, achando que com uma calculadora de bolsa se faz estatística. Não sabem sobre a metodologia aplicada, qual a amostra, suas variáveis nem a margem de erro e ficam nadando num mar de argumentos sem a técnica do conhecimento científico.
Afinal, podemos ou não confiar nos números? Eles não mentem? A dúvida é tanta que o brasileiro já incorporou uma nova palavra ao seu vocabulário: chutometria. A palavra pode ser definida como medir alguma coisa através de chutes, ou seja, por palpites. Todavia, nem tudo é tão obscuro ou vago no mundo das estatísticas. A verdade é que elas são ferramentas fundamentais para a compreensão da realidade. O problema é interpretá-las corretamente. 
Mesmo tomando todas as precauções, as estatísticas podem ser perigosas para quem lê desavisadamente. Uma simples palavra mal definida também pode ser responsável por grandes disparates estatísticos. Números soltos podem apresentar resultados positivos ou negativos, de acordo com os interesses de quem os publicam, principalmente em assuntos que representam alguma ameaça a vida. Cria uma sensação de insegurança na população.
Aqui  no Amapá, o que nos tem chamado a atenção são os dados divulgados relativos a segurança pública. Notícias midiáticas transformadas em dados estatísticos, sem nenhum estudo (pesquisa)  realizado para que pudéssemos aferir o resultado que são divulgados. Em março (2013), foram divulgados pelo Governo do Amapá a informação de que em Macapá os números de homicídios haviam sido reduzidos em 34,48%, porém, nenhum estudo foi publicado. Já em abril do mesmo ano,  um estudo denominado "Altos Estudos Sobre a Criminalidade no Estado do Amapá", realizado pelos alunos do Curso de Direito da Universidade Federal do Amapá - UNIFAP, nos revelou que de 2003 a 2012, o número de homicídios em Macapá aumentou 1000%.
O fato é que os dados contidos no Anuário Brasileiro de Segurança Pública - 2013, referente ao Amapá, foram tratados na publicação como informações poucos confiáveis, depois admitido pelo próprio gestor da pasta aqui no Amapá que havia um equívoco nas informações, onde ajustes foram feitos e outros dados foram divulgados. Agora a pesquisa de uma ONG mexicana (…) aponta Macapá como a 36ª cidade mais violenta do mundo. O certo é que hoje em Macapá, se formos fazer uma abordagem junto aos nossos  familiares, aos amigos ou no local de trabalho, existirá sempre uma pessoa que foi ou conhece alguém bem próxima vítima da violência, o que é um dado muito grave.
Escuto hoje (15/01) no debate pelo rádio que o número de homicídios em janeiro, portanto apurado somente a metade do mês, já é idêntico a todo o mês de dezembro de 2013.  Enquanto isso, vamos continuar sendo contaminados com  informações dos mais variados institutos de pesquisa, por conta da ausência aqui no estado de um órgão produtor de informações  que possa  estar retratando objetivamente e fielmente a nossa realidade.
Essas informações são despejadas diretamente em cima do cidadão que se vê perdido pela quantidade de números contraditórios produzidos pelas diversas instituições. A obra Os Números (Não) Mentem, de Charles Seife, professor em matemática pela Universidade de Yale e jornalismo pela Universidade de Nova York, define o conceito da obra: trata-se da "arte de empregar argumentos matemáticos enganosos para provar algo que o nosso coração diz ser verdade - ainda que não seja". Na mesma obra, o autor cita uma série de exemplos, tirados, sobretudo, da história americana. Ele mostra como "um punhado de técnicas poderosas" podem forjar a realidade e fazer a sociedade "engolir inverdades".

Torturar os números, para que confessem o quer que seja, não tem nada a ver com ideologia. As falácias numéricas surgem em todos os governos, de direita ou esquerda. Distorcer números  muitas vezes pode ser um bom negócio para os governantes de plantão, que escondem debaixo do tapete as verdades sobre suas incompetências e arrogâncias de suas gestões, esmagando cada vez mais com impostos os cidadãos que estão à espera de políticas e serviços públicos de qualidade.

Nenhum comentário:

Postar um comentário

ARTIGO DO GATO - Amapá no protagonismo

 Amapá no protagonismo Por Roberto Gato  Desde sua criação em 1988, o Amapá nunca esteve tão bem colocado no cenário político nacional. Arri...