Ilusória nação furta-cor
No Ceará, o dia 25 de Março é feriado em honra à assinatura da Carta Magna que aboliu a escravatura. E foi este o primeiro Estado brasileiro a abrir mão do regime.
Sabemos, hoje, que a libertação definitiva dos escravos não veio unicamente por via de angelical conscientização. Os negros, quando de sua liberação, ainda eram vistos por muitos como animais, mercadorias, objetos pessoais, e não seres humanos arrancados de sua própria liberdade e autonomia.
Daí, a decisão de abolir a escravidão veio muito mais embalada na percepção de que o sistema escravagista já não era rentável para a economia, e que o Brasil precisava buscar uma maneira mais eficaz e arrojada de se desenvolver.
Embora não tiremos de um Estado o reconhecimento por ser o primeiro território a abrir mão de um regime excruciante, não somos tolos em desconsiderar os outros pretextos que trouxeram para o negro essa tardia e questionável liberdade. Questionável em sua efetividade, sim, porque ainda hoje pairam por aqui os fantasmas dos feitores e senhores de engenho.
A Lei Áurea, que decretou de forma definitiva, enfim, o findar da escravidão em todo o território brasileiro, veio em Maio do ano de 1888. E é, para nós, hoje - ou pelo menos deveria ser -, triste e aterrador pensar que estamos já no segundo século posterior a essa data, e as absurdas noções referentes à imagem do negro permanecem quase que inalteradas, embaçadas por estereótipos violentos de inferioridade.
Retiraram-se os grilhões, mas as marcas das tenazes nas peles permaneceu... Não devem ser esquecidas, realmente. Mas também não devem, como agora, perpetuar um estigma que se enraíza nos nichos mais profundos da nossa mente. Como lutar contra o preconceito?
Aqui vai o relato de dois fatos desses últimos dias. Deixo-os registrados para que os leitores reflitam comigo. O primeiro deles se deu da seguinte maneira: a noite já avançada, eu e minha tia, aqui em Fortaleza, nos encontrávamos numa rua vazia àquela hora. Esperávamos o ônibus para casa. Pouquíssimas pessoas andavam por ali.
Embora fosse um lugar amplo e iluminado, a Avenida Monsenhor Tabosa, todas as suas lojas já haviam fechado. Restava apenas aquela sugestão de medo e cabreiragem característica dos que moram em grandes cidades.
Eu, de frente para a rua, naquela imensidão desértica, vi, às costas de minha tia, vir se aproximando um rapaz, roupas simples, normais, calção e camiseta, o andar um tanto afoito, um olhar desconfiado... Meus julgamentos foram disparando.
Era negro. Mal-vestido. Semblante sisudo. Andar ladino. Sim, sancionei: bandido. A lembrança me incomoda, pela profunda crueldade dos estereótipos que desnuda... No pânico súbito, deixei meu dinheiro da passagem cair no chão. E sussurrei para minha tia: "Caramba, que susto!".
Ela então se voltou e viu o rapaz. Ele percebeu o que se passava, é claro. O medo, a desconfiança... Fora transformado em vilão! E o que fez ele? Com toda a elegância, passou por nós, e disse a mim, inabalável: "Fica à vontade, senhora". Continuou seu caminho. A vergonha...!
Dias depois, outro ocorrido. Veio-me essa ideia de tingir os cabelos de louro... Quando cheguei à faculdade, desfilando o estilo novo, uma das colegas logo me cumprimentou com o comentário que reproduzo aqui: "De primeira, não gostei. Porque tu é preta, né... Gente preta não combina com essa cor de cabelo". Opiniões, opiniões... Olha só o que refletem!
É claro que, no fundo, veio ecoar em mim a ofensa. Mas, muito mais, tive certa pena e tristeza por ela. Argumentei por breves momentos, coisa leve, tentando medir o tamanho de seus preconceitos. Eram gigantes demais para a minha boa vontade. Logo a conversa cessou. E fiquei então me perguntando... Quem foi que estipulou as cores como se tivessem donos exclusivos?
Absurdo... Nessas duas situações, fui de um extremo a outro. Recebi o preconceito, mas também o executei, impiedosamente! Minha gente, onde estão os limites? Quando é que vamos abandonar esses paradigmas violentos contra a carne do outro? Que há de tão ofensivo na melanina alheia? Coisa a se pensar... De vítimas a vilões, nunca escaparemos dessas catalogações malditas?

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