Sempre quando se discute a questão urbana na Amazônia, buscamos a explicação lógica para analisar o caráter do contexto local. Nos últimos dez anos, tive a oportunidade de participar em várias cidades da região, de diversos eventos regionais com a finalidade de discutir, entender, sistematizar e propor encaminhamentos e alternativas para as cidades amazônicas. Tais eventos ocorreram em Belém, Boa Vista, Macapá, Manaus, Palmas e Porto Velho. Na cidade de Belém, ocorreu a maior parte das reuniões com a participação de diversas instituições e setores da sociedade civil.
Entre tantos assuntos discutidos neste período de 10 anos, predominaram vários: a questão da violência do campo; a influência dos grandes projetos; a debilidades das áreas urbanas; concentração de riqueza nas capitais; a falta de integração das políticas públicas. Um tema sempre recorrente tratava da paisagem das cidades, mais especificamente, das pequenas cidades localizadas às margens dos rios, com um modo de vida, fora do padrão caracterizado como urbano no Brasil.
Os eventos realizados sempre oportunizaram o encontro de técnicos, pesquisadores, professores e autoridades de todos os estados amazônicos, a troca de ideias e informações sempre deixou clara a discussão sobre a identidade e características dessas cidades, que tem no rio e na floresta a base de sua organização espacial. Para diversos pesquisadores, o ambiente amazônico é algo que parece sempre transitório, prevalece à improvisação, nada de acordo com Oliveira (2004) é perene, e as coisas sãotemporárias e inacabada.
Na visão de Oliveira(2004) o caráter peculiar das cidades, decorre de um sistema caótico, com poucos equipamentos urbanos, as cidades estão mergulhadas na inércia. Todavia, essa inércia pode ser aparente, quase sempre concepções anteriormente formuladas para realidades de um ambiente urbano em movimento. Na Amazônia, isso pode não ser encontrado à primeira vista, e talvez nem na última.
Para vários autores, existem diversas formas de pensar o urbano na Amazônia. Em um destes encontros realizados na cidade de Belém em 2009, foi levantada a reflexão: há uma questão urbana na Amazônia? Para muitos dos presentes, destacaram que não há uma única, mas sim, múltiplas questões. Não existe uma definição clara e absoluta, diferentemente da analise dascidades médias, onde o critério é demográfico, porém, este critério é capaz identificar o grupo ou a faixa a qual a cidade pertence.
Oliveira aponta características para as cidades na região: a baixa articulação com as cidades do entorno; as atividades econômicas quase nulas, o predomínio de trabalho ligado aos serviços públicos; a pouca capacidade de oferecimento de serviços, mesmo os básicos, ligados à saúde, à educação e à segurança; a predominância de atividades caracterizadas como rurais. Os princípios defendidos por Oliveira se aplicam perfeitamente a realidade das cidades estudadas na faixa de fronteira no Amapá, todavia, com as ressalvas de que este Estado tem peculiaridades que devem ser mais bem estudadas.
Outro ponto teórico discutido é com base nas ideias de Vicentini (2004), sobre o efeito de um parâmetro histórico-cultural mais ampliada que destaque a temporalidade emergente presentes na história do cotidiano e nas raízes culturais, conjugada às transformações nos modos de produção e em suas relações sociais, que apontam a compreensão do processo de constituição das cidades na Amazônia - historicamente vinculado a um sistema econômico, político e cultural mundializado - que guarda suas especificidades e a apropriação antrópica peculiar.
Os eventos realizados na região permitiram ao longo dos anos, a formação de uma rede de cooperação, ainda são tímidos os resultados produzidos, na sua grande maioria estão vinculadas as universidades através dos trabalhos acadêmicos e científicos, porém, é um significativo avanço. No contexto atual, é possível dimensionar a realidade urbana e rural na Amazônia em função de um conjunto de trabalhos interessantes, graças aos cursos criados na área de pós-graduação.
Neste tempo, diversos trabalhos foram publicados, possibilitando aumentar o repertório sobre a compreensão da problemática urbana na região. Um processo importante tem sido a socialização das experiências, entretanto, ainda falta à possibilidade de um congresso amazônico para tratar com maior profundidade as múltiplas questões amazônicas discutidas em Belém no ano de 2009. No ano de 2013, na cidade de Manaus, oportunizou-se a discussão de outro tema da maior relevância: existe sobre a Amazônia predominância da discussão do verde em detrimento da realidade urbana, isso cria uma série de fatores contraditórios em relação aos possíveis avanços na discussão de políticas públicas consistentes.

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