sexta-feira, 14 de novembro de 2014

ARTIGO DO TOSTES



JOSÉ ALBERTO TOSTES

                Em um recente debate sobre as questões do estado do Amapá, um grupo de mestrandos do Curso de Mestrando em Desenvolvimento Regional enfatizaram pontos importantes para discussão, de que forma os produtos das dissertações de mestrado e teses de doutorado podem contribuir para alavancar o conhecimento, bem como contribuir de maneira efetiva com a construção de políticas públicas comprometidas e duradouras? O eixo da discussão foi pautado em três tópicos: Planejamento, questões institucionais e econômicas e o terceiro tópico, questões ambientais.
                A questão levantada por um dos mestrandos estava relacionada a produção de mais de 100 dissertações de mestrados por todos os programas da UNIFAP, o questionamento era: Como todo este conjunto de trabalhos contribuíram para alcançar a ponta na melhoria da qualidade de vida da população, bem como auxiliar o desenvolvimento de novas ações e estratégias? O debate foi trilhado no sentido de não imputar a academia a responsabilidade que cabe aos gestores públicos, e a toda a sociedade civil, dita organizada, sem dúvida, o papel da academia é de produzir e disseminar o conhecimento, porém é preciso levar em conta que a participação de setores da mesma academia tem profundas limitações para interferir na conjuntura política e econômica.
               Os governos deveriam em tese, serem os primeiros a buscarem a parceria com a universidade, todavia, ao longo dos anos está busca tem sido muito mais de caráter imediatista do que algo planejado antecipadamente, isso tem um preço. É preciso levar em conta que a produção científica, de fato, precisa de meios mais acessíveis de divulgação pública, todo o conhecimento precisa ser melhor acessado, além dos muros da universidade. Em várias universidades brasileiras e do exterior esta participação tem sido mais efetiva, entretanto, deve-se destacar que isso ocorre por conta do financiamento público e privado para aqueles projetos considerados de alto interesse social.
               No caso local, é preciso observar como a política na área de Ciência e Tecnologia é conduzida, geralmente o orçamento para produção de pesquisa e outros projetos técnicos é muito baixo, colocar editais públicos para este setor tem sido sofrível, explica em parte a dissociação dos entes institucionais de um proposito maior, o desenvolvimento do estado do Amapá, muito embora, na composição do Colegiado do Curso de Mestrado em Desenvolvimento Regional, participam instituições como o IEPA e a EMBRAPA. Portanto, o tema do debate mais justo deve ser, como a academia pode sensibilizar todos os setores da sociedade para o maior aproveitamentos dos resultados obtidos através das pesquisas?
               São tantos trabalhos produzidos que poderiam perfeitamente auxiliar na condução de novas referências para os mais diversos segmentos. Ressalto o trabalho sobre a Mesorregião Norte do Amapá, mais precisamente sobre o município de Oiapoque, onde foi materializado diversos estudos nestes 10 anos, a universidade buscou neste período participar de forma efetiva, mas esbarrou nos velhos entraves que ainda assolam o Brasil, desmandos, corrupção, falta de interesse, conchavos e para completar, o total desconhecimento de regras, leis e documentos.
               Logo no contexto atual, onde existem enormes expectativas sobre a Mesorregião Norte do estado do Amapá, um dos motivos é a chamada porta de entrada com a União Europeia (Guiana Francesa/França). Tal possibilidade está na concretização da abertura oficial da Ponte Binacional que ligará o Oiapoque/Brasil a Guiana Francesa/França, que promoverá o incremento da atividade turística com a União Europeia, Guiana Inglesa, Suriname e Região do Caribe, e também da finalização da pavimentação da BR 156. Os resultados obtidos através do ISMA (Índice de Sustentabilidade Municípios Amazônicos) evidenciam a imensa necessidade de investimentos sociais e infraestrutura geral. Outra questão, pouco debatida, são as políticas de desenvolvimento para a faixa de fronteira, onde existem muitas discordâncias com o afastamento das comunidades da elaboração e execução de políticas nestas áreas fronteiriças, que necessitam de ajustes importantes, principalmente para o setor ambiental onde é crucial a captação de recursos para a manutenção preventiva de áreas consideradas estratégicas.
               Oiapoque detém em seu território os Parques Nacionais de Cabo Orange e Montanhas do Tumucumaque, este último, o maior parque nacional brasileiro com floresta tropical contínua.  Nessa região, apesar da exuberância de florestas e as belezas das planícies inundáveis, balneários, corredeiras, o turismo ainda é pouco desenvolvido.  Observa-se que no Parque Nacional do Cabo Orange, já se desenvolve o Ecoturismo, ainda não consolidado em parceria com agentes brasileiros e franceses. O município de Oiapoque recebe muitos visitantes que vêm de Saint George na Guiana Francesa, porém os fluxos de guianenses e franceses têm sido prejudicados pelas dificuldades estruturais existentes na cidade de Oiapoque, onde não há planejamento e controle de entrada de visitantes. Os conflitos se instalam com as atividades ilegais, migração clandestina e ocupações desordenadas.
              A melhoria da qualidade de vida dos habitantes da Mesorregião Norte poderá ser mensurada em função dos investimentos previstos e que devem ser pautados em uma escala gradual, de acordo com as necessidades previstas, poderá ocasionar, também, outros investimentos públicos e privados que irão possibilitar a significativa melhoria dos setores econômicos e dos Índices de Desenvolvimento Humano dos municípios. As atividades econômicas alternativas e sustentáveis podem representar um crescimento expressivo como fenômeno social poderoso de desenvolvimento nas áreas com menos acesso, claramente no sentido em termos de produto e valor agregado. Outro aspecto implica as mudanças quanto ao rendimento no nível de vida e estrutura socioeconômica no local de destino.
             Associado a estes fatores, emerge novos ritmos de trabalho e de distribuição de renda, que quando bem distribuídos, têm aspecto positivo com o desenvolvimento de atividades alternativas, possibilitando à comunidade o crescimento na sociedade com o exercício de seus direitos e deveres individuais e coletivos, além de oportunizar o desenvolvimento econômico e social, utilizando-se dos seus próprios recursos.
              Para que ocorra o desenvolvimento, é preciso priorizar a satisfação de algumas necessidades humanas no que diz respeito à saúde, educação, lazer, emprego e renda. Os indicadores em relação aos aspectos de receita própria nos municípios integrantes da Mesorregião Norte refletem imensas fragilidades de captação de recursos. Na prática, são provenientes de múltiplas fragilidades institucionais. Os municípios apresentam saúde financeira crítica, explica os baixos índices relacionados as áreas de educação, saúde e geração de emprego e renda. Outro fator importante, e que contribui para explicar tais adversidades estão relacionados à formação de capital humano e social, sendo um dos itens bem desfavoráveis em relação à qualidade do quadro funcional existente.
              Como reflexão final, deve-se ponderar as críticas para à universidade, é preciso olhar de forma mais estrutural o papel que cabe a cada um dos atores na sociedade, a academia é um destes, e não somente o único. Na minha opinião, muitos trabalhos produzidos ajudaram na elaboração de outros documentos oficiais, projetos, planos e programas, inclusive na obtenção de recursos por parte dos municípios, hoje, a academia se faz presente em boa parte do território do estado do Amapá, porém é preciso ir mais longe, entender que o debate é mais estrutural e menos conceitual.


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