sexta-feira, 14 de novembro de 2014

ENTRELINHAS

PM e retaliação


Comecemos esclarecendo questões importantes. Ninguém em são consciência deseja que um servidor público como um policial militar seja morto no exercício da profissão. Todos esperam que ao final do dia ele retorne ileso para sua família, beije sua esposa, brinque com seus filhos e aproveite sua vida da melhor forma possível. Mesmo que certo militar seja uma daquelas peças danificadas que prejudicam o funcionamento da engrenagem, ainda assim ninguém deseja que lhe ocorra o mal. Todos querem o combate à criminalidade e esperam que a polícia exerça seu papel de forma que as ruas sejam pacíficas e seguras para que os “cidadãos de bem” possam transitar. Divergências há, entretanto, sobre como esse combate deve ser executado. Alguns defendem que a PM pode e deve agir de forma truculenta, enquanto outros entendem que, sendo representante do Estado no âmbito da segurança, a polícia deve agir dentro dos estritos parâmetros da legalidade.
Essas divergências ficaram explícitas quando Belém passou, há poucos dias, por uma situação que parece prestes a ocorrer em várias cidades brasileiras. Um cabo da PM do Pará foi morto por criminosos que, segundo relatos, agiram em retaliação às ações truculentas do militar. Dizem alguns que o referido policial era um miliciano e que, portanto, agia de forma ilegal, mas não há, até agora, nada que confirme essa informação. Isso, portanto, deve ser desconsiderado da análise, uma vez que se presume a inocência até prova em contrário. De qualquer forma, membros do tráfico mataram um integrante da PM e os policiais sob a Lei de Talião, aquela do olho por olho, entraram em vários bairros pobres da cidade promovendo uma busca frenética pelos envolvidos. As informações sobre os ataques da polícia eram postadas no site da ROTAM, um grupamento da PM, pelos próprios militares. Indicavam os bairros em que haviam entrado e que estavam em perseguição de vários criminosos.
A partir desse momento, relatos os mais diversos surgiram nas redes sociais apresentando cifras astronômicas de pessoas mortas e feridas, incluindo inocentes. As informações apresentadas pela PM divergem desses números, indicando um valor muito menor e afirmando que todos os indivíduos perseguidos eram criminosos conhecidos. Quando os relatos começaram a pipocar, avaliações sobre o caso surgiram de todos os lados. Claro que sem os dados, tudo não passa de especulação, mas ainda assim é relevante que vejamos o que era dito.
De um lado surgiam aqueles que bradavam “bandido bom é bandido morto!”. Estes defendiam a ação da polícia afirmando que é preciso dar um fim a essa situação e entendendo que isso só será possível se a PM rasgar a noite e os bairros pobres da cidade atacando qualquer pessoa que possa vir a ter qualquer relação com o crime. Ou seja, onde há suspeita de ilícitos, a polícia pode entrar na casa, revistar, virar tudo do avesso, ameaçar e mesmo matar. De preferência que essa atuação seja na lógica do mata primeiro e verifica depois. Estas pessoas são as mesmas que alegam que o pessoal dos direitos humanos só aparece pra defender bandido e que não faz qualquer ação quando um policial é ferido ou morto no exercício da profissão.

Do outro lado apareciam aqueles para quem a polícia deve cumprir sua função, mas dentro da legalidade. Entendem que entrar nos bairros pobres tratando todos com violência como se fossem criminosos é uma evidência de que há discriminação do Estado com as pessoas segundo sua renda. Estes lembravam que quando a mesma PM começa a ser mais rigorosa com questões de trânsito (que afeta as pessoas com um pouco mais de posse), por exemplo, aqueles que defendem a violência indiscriminada da polícia começam a reclamar. Ou seja, quando a PM é rígida e ríspida sobre uma parcela da população sem posses e que, em razão de necessidades mora próximo de criminosos, a polícia está certa em ser truculenta, mas se age da mesma forma com as pessoas com mais recursos, então ela é abusiva e autoritária. Nesses casos, para evitar os excessos, brada-se por direitos humanos contra a PM. É óbvio que os policiais merecem a proteção dos direitos humanos, mas há uma questão que precisa ser colocada. Quando se reivindica os direitos humanos, a cobrança é feita ao Estado ou às estruturas legais como organizações e empresas, não há como cobrar dos criminosos que ajam de forma a manter estes direitos. A reivindicação cai no vazio.
Por fim, sob a ótica de quem defende a PM como representante do Estado, não é possível que a cidade possa ser tratada como uma terra sem lei. A argumentação é a de que todos devem ser tratados com urbanidade e respeito, independente de onde mora ou da quantidade de dinheiro que possua. Todos, cidadãos e policiais militares devem sair de casa e voltar para seus filhos e suas vidas, serem respeitados pelo Estado, inclusive com salário dignos. O Estado não pode obedecer a lógica de que bandido bom é bandido morto sob pena de que seu braço armado perca legitimidade e seja considerado apenas mais uma gangue. Afinal, independente da posição que cada um tenha assumido, o que todos esperam é que as cidades não sejam praças de guerra, mas ambientes de convivência pacífica e prazerosa.




Arley J. S. da Costa
Professor de Psicologia
UFF - Universidade Federal Fluminense 
PUVR - Pólo Universitário de Volta Redonda
(21) 980256523

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