FIES e endividamento familiar
“É
fundamental democratizar o acesso e ampliar as vagas – na perspectiva de sua
universalização – nas Instituições de Ensino Superior públicas, com a
correspondente ampliação de recursos orçamentários para garantir a vigência da
concepção de universidade (...), da qualidade de suas atividades acadêmica e da
permanência estudantil” (Caderno 2 - Proposta do ANDES-SN para a Universidade
Brasileira).
Democratizar
o acesso do ensino superior no Brasil é imprescindível e tem sido o interesse
de várias entidades, entre elas o Sindicato Nacional dos Docentes das
Instituições de Ensino Superior (ANDES-SN) e o movimento estudantil. O Brasil
possui um histórico de Instituições de Ensino Superior cuja oferta de
matrículas sempre esteve aquém da demanda, o que resultou na definição de
ocupação de vagas através de vestibulares, hoje unificados sob o controle do
governo federal através do ENEM. As universidades federais estabeleceram-se
como instituições de excelência, mas oferecem um quantitativo de vagas
insuficiente para atender a demanda de pessoas com interesse em cursar o ensino
superior, de modo que as disputas nos vestibulares são extremamente acirradas
tanto pelo número de candidatos como pelo nível de conhecimentos necessários
para obter aprovação. Resulta dessa configuração, um enorme contingente de
pessoas que não consegue acesso ao ensino superior.
Para
atender esse contingente que permanece nos vestíbulos de acesso, o governo
passou a fortalecer a iniciativa privada. Fruto dessa política, houve um
incremento considerável das instituições de ensino superior privadas nas
últimas décadas. As universidades públicas perderam a significativa
predominância do número de alunos que detinha, e hoje 3 em cada 4 matrículas
são efetivadas nas particulares. O crescimento das instituições privadas, embora
vigoroso, não ocorreu livre de problemas. Uma das questões mais significativas enfrentadas
é a elevada taxa de inadimplência, o que dificulta consideravelmente seu funcionamento
e manutenção.
Obedecendo
a lógica de incentivar o avanço da iniciativa privada no ensino superior, o
governo instituiu alternativas para auxiliar as instituições particulares em
dificuldade com a inadimplência. Surgem, então, o Programa Universidade para
Todos (Prouni) e o Programa de Financiamento Estudantil (Fies) que juntos
respondem por aproximadamente 1,7 milhão de alunos, ou seja, quase um terço do
total das matrículas no sistema privado de ensino superior. O Prouni é uma forma de incentivar as
privadas, fazendo com que o dinheiro não saia dos seus caixas. Em tese, o
governo oferta isenções fiscais em troca de vagas. No Fies, o governo injeta
recurso diretamente nas instituições particulares, de forma a reduzir a
inadimplência e empurrar para o estudante e sua família uma dívida que há de
ser paga após a conclusão da graduação.
Aqueles
que lutam pela educação como direito e não como mercadoria, defendem que a
educação seja pública, de acesso universal e mantida pelo Estado. O Brasil,
entretanto, ao favorecer a iniciativa privada no ensino superior caminha na
direção oposta dessa ideia. Além disso, ao instituir e incentivar o Fies, cria
um modelo que em várias partes do mundo tem resultado em endividamento de parte
significativa das famílias, revoltas populares e dificuldades econômicas. Crises
ocorreram no Chile, por exemplo, onde a população foi às ruas reivindicar
mudanças. O levante popular ecoou no governo e a presidente Michele Bachelet,
que tem aceitado parte das reivindicações, declarou que levará ao parlamento
uma projeto de reforma educacional que acabará com o caráter mercantilista e endividador
da educação superior do país. Alemanha voltou a estabelecer a gratuidade em
suas universidades públicas por entender que o acesso à educação superior não
deva depender de empréstimos que endividam a população.
Além do
Chile e Alemanha, outros países vêm repensando esse modelo que coloca o
financiamento da educação superior como obrigação das famílias e não do Estado.
Os questionamentos surgem da absurda situação instalada nesses países. Nos
Estados Unidos, por exemplo, cerca de 2/3 dos estudantes estão em dívidas com
seus financiadores. A dívida média é de 62 mil reais, sendo que o valor total
alcança mais de um trilhão de dólares. No Reino Unido, a dívida alcança 177
bilhões de reais e estima-se que 40% (69 bilhões) nunca serão pagos. Isso gera
problemas financeiros crescentes, inclusive afetando os cofres públicos e as
reservas monetárias do país. Por isso, vários países ao longo do globo começam
a repensar o modelo de manutenção do ensino superior através do endividamento
familiar.
Na
contramão do que ocorre no mundo, o Brasil intensifica o modelo que vem
naufragando. Considerando os endividamentos internacionais e aqueles que
começam a se estabelecer no país, o futuro não é dos mais promissores.
Deveremos visualizar o aumento do endividamento no Brasil a partir de 2015, já
que o Fies ampliou-se vigorosamente a partir de 2010 e os estudantes começarão
a pagar (ou a não dar conta de pagar), após a conclusão de seus cursos. Assim,
antes que os problemas alcancem valores estratosféricos como os dos Estados
Unidos, é importante que nossos
governantes observem os problemas que se avolumam mundo afora, abandonem essa
política suicida o mais brevemente possível e passem a investir 10% do PIB na
educação já!
Nenhum comentário:
Postar um comentário