quinta-feira, 11 de junho de 2015

ANTENADOS




A propósito, um aniversário


Bem no meio do mês de junho, aí está o aniversário da colunista que aqui vos fala. E sempre me intrigou essa coisa dos aniversários. Sou aquela chata inconfessa que fica perguntando a si mesma por que é que parabenizamos as pessoas no dia em que fazem anos. É por que nos alegramos de ela existir? É por que ela tem arrasado poderosamente nesta missão que é viver, sem sequer ter pedido para se alistar na campanha? Acho que as respostas passam um pouco por aí.
Mas essa minha chatice de questionar o sentido dos aniversários é apenas um disfarce. Porque eu na verdade sou a própria doidinha dos aniversários. Não posso ver um aniversário pela frente, que já quero abraçá-lo. Até gravo datas de pessoas aleatórias. E quando se trata do meu próprio, é claro, tudo para mim se torna mais especial.
Mas disfarço a euforia, porque conforme você vai crescendo, parece que assimila um código de conduta que diz: não faça muito auê, você só está ficando velho! Então sigo caladinha todo o ano, até bem próximo do dia 14, quando na verdade já decorei inclusive o dia da semana em que meu aniversário vai cair, desde o mês de janeiro.
A propósito desse aniversário, então, sempre me ponho muito contemplativa, cheia de teorias, autoanálises, projeções futuras, nostalgias. Eu que nem gosto pouco de falar sobre o que vai na minha própria cabeça, hein? Encontro campo fértil no mês das minhas primaveras.
E estive fazendo este meu balanço anual, porque é chegada a hora, e vim pensando todas as coisas até esses 21 anos. Penso recorrentemente que o número pode ser bem emblemático. Minha própria mãe me deu à luz com 21 anos. Vinte e um é a definitiva maioridade.
 Dentre outras coisas, também, penso em tudo o que conquistei ou não até aqui. Não foi uma vida agitada e toda glamorosa, mas teve seus momentos. Fico me perguntando como deve ser curioso para uma pessoa de, sei lá, quarenta, sessenta anos ver uma criaturinha dessas vir falar sobre conquistas tendo mal vivido duas décadas!
Mas conto sim minhas glórias. Aprendi a fazer brownie, por exemplo. Embora a massa ainda fique um pouco solada. E consegui pescar um peixinho, certa vez, com um pedaço de mortadela na isca, depois de muita, muita espera impaciente e tentativas mal fadadas. Teve outras coisas também, é claro. Aprendi a pintar as unhas da mão direita, não deixar o macarrão empapado, ter menos restrições a novidades e mais coragem de dizer não, quando necessário, ainda que permaneça em mim um certo pavor do desagrado alheio.
Em contrapartida, me tornei mais desorganizada e caótica. Meu quarto, por exemplo, neste momento, está uma bagunça sem precedentes. E a cada semana eu quebro meu próprio recorde.  Outro dia, quando percebi, tudo o que tinha comido fora um pé-de-moleque e um caramelo. Porque também me distraio, vou adiando a fome, as obrigações, tenho preguiça. Meus amigos se assustam. Meus primos dizem que posso não durar muito. E a lista das pequenas vitórias e batalhas segue infinita.
É que ainda estou aprendendo. A crescer, essas coisas. Circunstâncias vão nos forçando. Às vezes lerdamente, e você relutando a todo custo sair do entre-lugar, porque no entre-lugar não há a obrigação de se definir, se afirmar, erguer-se sobre os próprios pés. 
Tem gente que consegue com mais rapidez, mais facilidade. Um dia, quando vai ver, acorda todo adulto. Mas só Deus sabe o que é que se operou ali dentro...
Meu ritmo é mais lento, reconheço. Cito aqui uma pérola de meu avô, que nas últimas férias, enquanto eu me desculpava pela demorava em colocar a prótese de sua perna, foi logo me dizendo, gracioso: "Minha filha, eu não tenho pressa pra nada! A única pressa é viver. O resto é festa!".
Gosto desse mote. De certo modo, rejo minha vida por ele. Embora, muitas vezes, me pegue mesmo bastante ansiosa e apressada ao pensar futuros, planos, coisas que quero alcançar ou devo, mas não consigo porque ainda não é o tempo ou porque não sei como fazer.
Mas hoje olho para trás e pelas pequeninas coisas, detalhes que mudaram aqui e ali, vejo que já sou outra, bem diferente. Não pode mesmo um mesmo homem banhar-se  no mesmo rio duas vezes, me diz Heráclito, porque o rio já não é o mesmo, as águas correram, e o homem, o homem também mudou, desde um segundo atrás. E vai mudar novamente, no próximo instante, ainda que nem se perceba. E assim se faz a vida.
 E eu torço para que os meus rios sejam sempre rios de águas vivas, de alegrias que se mantenham bem fundas em mim, de coisas boas e bonitas que se realizam sim. E espero que a menina a se banhar neste rio seja, de uma vez por todas, uma espécie de meiga mulher gigante: resoluta, destemida, porém para sempre gentil, sem nunca ferir com espadas, sem nunca morrer com pedrinhas na testa, por ter sido demasiadamente arrogante ou ingênua. A gente vai tentando.

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