Os números impressionantes
da violência no Brasil
Sérgio Mauro
Os números impressionam: notícias
recentes divulgadas pela mídia revelam que o Brasil poderá ultrapassar a marca
histórica de 60 mil homicídios em 2017! Não se tratando apenas de meras
conjecturas numéricas, friamente calculadas, estamos falando de uma verdadeira
guerra interna que está às nossas portas, mesmo que, por sorte ou por possuir
mais meios para nos defendermos de situações violentas, nunca tenhamos
presenciado ou nos envolvido num conflito ou em episódios do gênero!
Impossível elencar e analisar em um
único artigo ou até mesmo em um volumoso tratado todos os fatores que levam o
ser humano à agressividade contra os seus semelhantes (ou contra os animais).
Se aceitarmos a hipótese de que inicialmente habitávamos as selvas e depois,
num longo processo, fomos obrigados a viver em bandos com regras precisas de
convivência, oralmente transmitidas e, em seguida, codificadas em leis que se
tornaram o auge do que comumente chamamos de civilização, precisamos também
admitir que o animal selvagem que está em nós se manifesta esporadicamente
todas as vezes que os nossos instintos são provocados ou estimulados de maneira
inadequada.
Tomando como provável a afirmação do
parágrafo anterior, pode parecer impossível solucionar o problema da violência
humana. No entanto, é bom não esquecer a lição de Ítalo Calvino que nos
convidava a não aceitar passivamente o inferno social em que vivemos, e sim
buscar possíveis paraísos dentro dele. Para encontrar tais paraísos, devemos
atenuar, minimizar e, em certos casos, controlar adequadamente os instintos que
nos levam à agressividade. Mas de que modo podemos fazê-lo e com quais meios?
Certamente, não há outro modo ou ao
menos ainda não se descobriu um modo melhor que o apelo a instituições de
controle social, normalmente aceitas pela sociedade. Há os que devem escrever
as leis e há também os que devem mandar aplicá-las; há os que devem reprimir,
quando necessário, e da maneira correta, os que se recusam a aceitar as regras.
Periodicamente, as regras devem ser revistas , adaptando-as aos costumes dos
tempos, mas sempre respeitando normas mínimas de convivência, baseadas em
tolerância e respeito. Enfim, é necessário constituir sistemas que vigiem e
controlem os responsáveis pela vigilância e pelo controle, a não ser
que se acredite (ainda) que tais pessoas sejam diretamente escolhidas por Deus
e, portanto, só a Ele devem prestar contas.
No Brasil atual as instituições, as
leis, os que vigiam, os que devem vigiar e os que devem reprimir ou controlar
estão em crise ou estão quase completamente ausentes. Não é difícil, portanto,
apostar num aumento constante da violência, pois os que não conseguem reprimir
os instintos (porque não receberam adequada formação para reprimi-los ou, ao
menos, para atenuá-los, ou porque se encontram em ambientes familiares
desestruturados ou fortemente sujeitos ao apelo das drogas e a outras formas de
alienação incitadoras de violência), não encontrando assistência, amparo ou
obstáculos, tendem a expressar-se de maneira socialmente inadequada, isto é, que
não leva minimamente em consideração o direito a vida e à liberdade do outro,
seu semelhante, sujeito às mesmas pressões cotidianas e incessantes.
Eliminar a violência entre os seres
humanos é uma tarefa impossível, pois, mesmo nas condições ideais de uma
sociedade ideal, sem desníveis sociais e com instituições em perfeito
funcionamento, o animal selvagem que em nós habita encontrará a ocasião
propícia para despertar e cometer atos aparentemente inexplicáveis. Cabe,
porém, retomando mais uma vez as lúcidas palavras de Calvino, não aceitar
passivamente tal condição que nos foi imposta pela “Mamãe-Natureza” e arregaçar
as mangas, trabalhando incessantemente para que as instituições funcionem,
discutindo e revendo continuamente leis e normas, evitando radicalismos,
polarizações maniqueístas, apelos sedutores e demagógicos a supremacias de
qualquer natureza, ideológica, religiosa ou étnica, para evitar que cheguemos
ao absurdo de uma guerra não declarada entre cidadãos de um mesmo país, com
vítimas inocentes e frequentemente muito jovens.
Sérgio Mauro é professor da Faculdade
de Ciências e Letras da Unesp de Araraquara.
Nenhum comentário:
Postar um comentário