sábado, 26 de agosto de 2017

CULTURA


 
Cantor e compositor amapaense Osmar Júnior e a tecnologia dos dias atuais


‘Qual a novidade?’
O novo projeto musical de Osmar Junior

Reinaldo Coelho

Osmar Júnior entra no estúdio e prepara um novo trabalho, denominado “Qual a novidade?”, voltado a questionar como os avanços tecnológicos estão deixando para trás valores e princípios mais humanos, principalmente desrespeitando aqueles que chegaram antes ao país: os índios.
Esse novo trabalho é uma reafirmação das ideologias de resistência amazônida, cheio de convidados é o álbum com 12 músicas inéditas e 2 bônus intitulado QUAL A NOVIDADE? – música que clama por um messias amazônico, um herói que diga – “Chega de exploração, queremos qualidade de vida e preservação de nossos valores ambientais e culturais, uma breve lembrança dos cabanos”. Essa é a definição do próprio compositor e idealizador do projeto “Qual a novidade?” – o cantor e compositor Osmar Júnior.
Ele falou com a reportagem do Tribuna Amapaense e explicou que esse projeto traz um continuísmo do sentinela nortente e do revoada.   Para os novos, o Sentinela Nortente foi o start de Osmar Junior a 28 anos lá atrás. Renivaldo Costa escreveu um belíssimo artigo sobre o assunto “... o poeta Osmar Júnior se embebeu dessa ideia e encontrou a poesia em fatos corriqueiros, em coisas banais, em encontros e desencontros, e procurou levar para a música regional as inquietações do cotidiano dos jovens, os dramas de uma época pós-ditadura, as alegrias, dores e conflitos, conciliando o pessoal com os acontecimentos da época...”
‘Sentinela Nortente’ foi o primeiro registro fonográfico do Movimento Costa Norte, que se desenhava naquele momento. Foi tão importante que motivou outros artistas, como Zé Miguel e Val Milhomem a também lançarem seus LPs.
Os convidados até agora desse – “Qual a novidade” – são Nilson Chaves, Zé Miguel, Faces da Vida, Afro Brasil, Negro de Nós, e outros e todo gravado em sistema analógico na ZAROLHO RECORDS.


Essa é outro questionamento que o Poetinha amapaense lança no seu projeto.  Para o poeta, a globalização e a internet faz com que as pessoas sejam muito imediatistas, parecendo sempre ter pressa, ávidas por mais e mais informações, sem se ater àquilo que verdadeiramente importa, que são as pessoas. “Por isso me proponho, assim como outros artistas amazônidas, a ser essa voz que não pode ser silenciada, afinal a cultura é muito mais forte que qualquer cartucheira”, compara Osmar.
Para explicar ele diz que o poder da cultura vai mais longe, alcança lugares inimagináveis, como os grandes centros. “E não falo apenas do eixo Rio-São Paulo, mas de outros países do mundo”, diz ele, que recentemente fez uma excursão pela Europa, a convite da Universidade de Lisboa.


Simplicidade

Ainda citando os índios como exemplo, Osmar pondera que ao longo de toda a sua vida. O índio utiliza cerca de vinte objetos, utensílios de madeira, cerâmica ou palha, como o tacape e o arco e flecha. “Enquanto que nas cidades há uma necessidade consumista enorme, que nos faz acumular uma série de bugigangas em casa, já reparou?”, questiona o artista.
Já o musical “Indiera”, que virá com o lançamento do CD, é uma compilação de seus mais recentes trabalhos, como o DVD “Cantoria do Lago” e o CD “Piratuba”. Indagado sobre o nome do novo musical, ele explica ser um neologismo, uma fusão para explicar “a era do índio”, ou ainda “o índio já era”. Resignado, ele complementa: “Temos que voltar a ser índios”.
“Vi os povos indígenas em extrema carência e afastamento de sua espiritualidade original que nos deram um empirismo tão rico, paginei os livros Artionka Capiberibe e Mariana Gonçalves, genial. Claro que as ameaças aos nossos recursos hídricos continuam, e eu já tinha musicalizado essa questão no "Piratuba a cantoria no lago".
Esses ingredientes me deram a massa musical que é o projeto audiovisual INDIÉRA, já gravado e em fase de finalização. Faço de minha música um pequeno instrumento de meditação pra quem quer ver a terra viva, pois há quem pense que só temos pai, mais temos mãe também, a terra é nossa mãe e essa dadiva já estava aqui quando Deus chegou. Finaliza Osmar Junior.
Bem, mas além dos índios, Osmar Júnior pretende levar mais coisas tucujus para o musical que pretende apresentar além fronteiras. “O ‘Indiera’ destaca a floresta, as guitarras, as lendas, os batuques, enfim, uma miscelânea daquilo que são os povos da floresta”, reforça o cantor.
Ele diz que pretende colocar índios – de verdade ou não – no espetáculo, não como algo apelativo, mas para reforçar o quão natural esse musical se propõe a ser, que ele também define como uma revolução “Cabana” e “pós-Cabana”, afinal daquele embate ficamos com a cultura, felizmente.

Primeira mão

Numa deferência especial, Osmar Júnior revela um pequeno trecho de uma das músicas do novo trabalho, algo como 'música de trabalho' deste disco.

Cadê nossa voz?
Quem canta por nós?
Fronteiras abertas
Nos confins.

Ouvi você dizer,
Que vem nos visitar.
Ouvi você dizer,
Que vem cantar pra nós!


* Letra e música Osmar Júnior

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